Neste domingo, 4 de outubro, o Brasil realiza o primeiro turno das Eleições Gerais de 2026. Serão escolhidos presidente e vice-presidente da República, governadores e vice-governadores, senadores, deputados federais e deputados estaduais ou distritais.
Segundo o Tribunal Superior Eleitoral, 158.765.543 eleitoras e eleitores estão aptos a votar.
O voto pertence exclusivamente a cada cidadão.
Ao IVEPESP, como instituição dedicada à educação, à ciência, à pesquisa e à inovação, interessa contribuir para uma reflexão que ultrapasse nomes, partidos e circunstâncias eleitorais.
Independentemente dos resultados das urnas, os grandes desafios brasileiros continuarão presentes na segunda-feira seguinte.
Ao longo dos últimos meses, o IVEPESP tem analisado diferentes aspectos da educação básica e superior, formação profissional, ciência, inovação, inteligência artificial, produtividade, indústria, saúde, inclusão social, avaliação de políticas públicas e funcionamento das instituições.
Dessas discussões emerge um conjunto de temas estruturais — apresentados sem hierarquia entre eles — que permanecerão relevantes para o futuro do Brasil.
1. Educação básica: transformar acesso em aprendizagem
O Brasil avançou significativamente na universalização do acesso à educação básica. Um dos desafios permanentes é assegurar que estar na escola corresponda efetivamente a aprender.
O Saeb 2025 avaliou aproximadamente 5,9 milhões de estudantes, em 73.767 escolas e 247.744 turmas, constituindo uma ampla base de informações sobre aprendizagem e desigualdades educacionais no país.
Esses dados permitem identificar diferenças entre etapas de ensino, redes e unidades da Federação e acompanhar a evolução dos resultados educacionais.
Alfabetização, aprendizagem em língua portuguesa, matemática e ciências, desigualdades educacionais, ensino médio e formação e valorização dos professores permanecem entre os grandes temas da educação brasileira.
Educação possui, por sua própria natureza, horizonte de longo prazo.
2. Ensino superior e as necessidades da sociedade
Quantidade de matrículas ou diplomas, isoladamente, não descreve toda a contribuição do ensino superior para o desenvolvimento.
É relevante acompanhar a relação entre formação universitária, qualidade acadêmica, empregabilidade, pós-graduação, pesquisa e necessidades profissionais da sociedade.
Áreas STEM — ciência, tecnologia, engenharia e matemática —, saúde, formação de professores e tecnologias digitais possuem relação direta com a capacidade científica, tecnológica e produtiva do país.
Universidades públicas, comunitárias e privadas integram esse sistema e podem ser analisadas a partir de diferentes dimensões: qualidade da formação, produção de conhecimento, inovação, inserção profissional e contribuição social.
3. Ciência e pesquisa como infraestrutura de desenvolvimento
Ciência não se limita à atividade acadêmica.
Ela está relacionada à saúde, agricultura, energia, defesa, indústria, inteligência artificial, meio ambiente, mudanças climáticas e competitividade internacional.
O Brasil dispõe de um sistema científico construído ao longo de décadas, envolvendo universidades, institutos de pesquisa, agências de financiamento e estruturas federais e estaduais.
Nesse campo, permanecem relevantes questões como financiamento, continuidade de projetos, infraestrutura científica, formação de pesquisadores, avaliação de resultados e inserção internacional.
A internacionalização também integra essa discussão.
A circulação de estudantes e pesquisadores permite ao país participar das redes internacionais de produção do conhecimento e ampliar a cooperação científica.
4. Transformar conhecimento em inovação, produtividade e riqueza
O Brasil possui universidades, institutos de pesquisa, pesquisadores qualificados, empresas inovadoras e diferentes instituições de financiamento e apoio à ciência, tecnologia e inovação.
Um dos temas centrais é a conexão entre:
universidades + institutos de pesquisa + empresas + governo + sociedade.
Conhecimento científico pode gerar novos produtos, processos, empresas, tecnologias, serviços e soluções para problemas sociais.
Transferência de tecnologia, propriedade intelectual, patentes, startups, pesquisa empresarial e modernização tecnológica das pequenas e médias empresas fazem parte dessa discussão.
A capacidade de transformar conhecimento em inovação está diretamente relacionada à produtividade e à participação do Brasil em atividades econômicas de maior intensidade tecnológica.
5. Inteligência Artificial e a transformação tecnológica
A inteligência artificial já produz mudanças em educação, profissões, produtividade, empresas, serviços públicos, medicina e pesquisa científica.
Para o Brasil, a discussão envolve não apenas a utilização dessas tecnologias, mas também a capacidade de compreendê-las, desenvolver conhecimento próprio e avaliar seus impactos.
Formação de pessoas, infraestrutura computacional, pesquisa científica, acesso e proteção de dados, segurança, transparência e desenvolvimento tecnológico nacional fazem parte desse processo.
Na educação, surgem simultaneamente oportunidades e desafios.
A inteligência artificial pode contribuir para aprendizagem personalizada, tutoria, identificação de dificuldades e apoio aos professores.
Ao mesmo tempo, seu uso suscita questões relacionadas à autoria, pensamento crítico, confiabilidade das informações e autonomia intelectual.
O desafio educacional é compreender como utilizar a tecnologia para ampliar a capacidade humana de aprender.
6. Indústria, produtividade e empregos qualificados
Um país continental e populoso como o Brasil convive permanentemente com a questão de sua capacidade de produzir bens e serviços de maior valor agregado.
Nesse debate entram produtividade, inovação, infraestrutura, logística, tributação, formação profissional, acesso ao financiamento, competição internacional e transformação digital.
A evolução tecnológica modifica cadeias produtivas, profissões e modelos empresariais.
O acompanhamento dos resultados das diferentes políticas industriais e de inovação permite avaliar seus efeitos sobre produtividade, emprego, investimento e desenvolvimento tecnológico.
7. Formação profissional, juventude e transição escola–trabalho
Milhões de jovens brasileiros realizam todos os anos a transição entre educação e mercado de trabalho.
Ensino técnico, aprendizagem profissional, estágios, formação tecnológica e ensino superior constituem diferentes caminhos dentro desse processo.
As políticas voltadas à juventude podem ser avaliadas não apenas pelo número de participantes ou pelo volume de recursos empregados, mas também pelos efeitos observados sobre permanência escolar, aprendizagem, conclusão dos estudos, empregabilidade e renda futura.
Uma pergunta particularmente útil para a avaliação dessas iniciativas é:
qual transformação efetiva ocorreu na vida dos beneficiários em consequência da política implementada?
8. Saúde, prevenção e envelhecimento da população
O Brasil passa por uma importante transformação demográfica.
O Ministério da Saúde informa que o país possui cerca de 36 milhões de pessoas com 60 anos ou mais, aproximadamente 17% da população, com crescimento médio estimado em 1,1 milhão de idosos por ano.
Essa transformação possui consequências para saúde, Previdência, cidades, famílias e mercado de trabalho.
Prevenção de doenças crônicas, atenção primária, vacinação, diagnóstico precoce, pesquisa biomédica, inovação em saúde e envelhecimento saudável integram esse cenário.
A mudança demográfica torna cada vez mais importante compreender como prevenção, diagnóstico e tratamento podem ser articulados ao longo da vida.
9. Políticas públicas orientadas por evidências
Outro tema transversal é a avaliação das políticas públicas.
Programas governamentais envolvem recursos da sociedade e podem ser acompanhados por objetivos, indicadores, metas e avaliação de resultados.
Nesse contexto, quatro perguntas são particularmente importantes:
Quanto foi gasto?
Quais resultados foram obtidos?
Qual foi o custo associado a esses resultados?
Os efeitos permaneceram ao longo do tempo?
Avaliação não significa, necessariamente, ampliar ou reduzir determinado programa.
Significa produzir evidências que permitam conhecer seus resultados e subsidiar decisões futuras.
10. Planejamento de longo prazo
Educação exige décadas.
Ciência exige continuidade.
Infraestrutura exige planejamento.
A formação de pesquisadores exige muitos anos.
Inovação depende de ambientes institucionais relativamente estáveis.
Transformações demográficas precisam ser compreendidas antecipadamente.
Os ciclos eleitorais possuem duração determinada, enquanto muitos processos de desenvolvimento ultrapassam vários governos.
Governos possuem mandatos. O desenvolvimento de uma nação atravessa diferentes governos.
Por isso, planejamento, capacidade técnica das instituições, produção de indicadores e acompanhamento das políticas ao longo do tempo são componentes importantes para compreender a trajetória do país.
11. Instituições fortes, segurança jurídica e equilíbrio entre os Poderes
Existe ainda uma dimensão institucional que atravessa praticamente todos os temas anteriores.
Educação, ciência, inovação, desenvolvimento econômico, políticas sociais e investimentos de longo prazo funcionam dentro de um ambiente formado por leis, instituições e regras.
Empresas, universidades, pesquisadores, trabalhadores, governos e cidadãos tomam decisões que frequentemente produzem efeitos durante muitos anos.
Nesse contexto, previsibilidade das normas, clareza das competências institucionais e segurança jurídica influenciam a possibilidade de planejamento.
Segurança jurídica não significa imobilidade das leis.
Sociedades mudam e suas normas também podem mudar.
A questão central é que essas mudanças ocorram dentro dos procedimentos e competências previstos pelo ordenamento jurídico.
A Constituição Federal estabelece em seu artigo 2º:
“São Poderes da União, independentes e harmônicos entre si, o Legislativo, o Executivo e o Judiciário.”
Esse desenho institucional está associado ao princípio da separação dos Poderes e à existência de mecanismos de controle recíproco — os chamados freios e contrapesos.
Em uma democracia constitucional, instituições fortes não significam instituições ilimitadas.
Significam instituições com competências definidas, autonomia para exercer suas atribuições e mecanismos de controle previstos pelo próprio ordenamento jurídico.
Executivo, Legislativo e Judiciário possuem funções próprias e, simultaneamente, mecanismos constitucionais de relacionamento e fiscalização recíproca.
Essa dimensão institucional também possui consequências econômicas e científicas.
Uma empresa que decide construir uma fábrica, uma universidade que estabelece uma cooperação internacional, um pesquisador que desenvolve um projeto de longo prazo ou um investidor que financia infraestrutura precisa considerar regras cujos efeitos podem atravessar vários anos.
Previsibilidade institucional favorece o planejamento.
Além dos três Poderes, o funcionamento do país envolve órgãos técnicos, universidades, institutos de pesquisa, agências reguladoras, órgãos de controle e estruturas permanentes do Estado.
Essas instituições ajudam a preservar conhecimento, memória administrativa e capacidade técnica ao longo das mudanças de governo.
12. O ponto de convergência
Educação, ciência, inovação, saúde, produtividade, indústria e inclusão social não constituem agendas isoladas.
Existe uma cadeia de relações entre esses elementos:
Educação → conhecimento → ciência → inovação → produtividade → geração de riqueza → oportunidades → desenvolvimento social.
Essa cadeia, por sua vez, opera dentro de uma base institucional formada por:
Democracia + instituições fortes + segurança jurídica + respeito à Constituição + equilíbrio entre os Poderes + freios e contrapesos.
Políticas públicas, investimentos e estratégias de longo prazo dependem tanto da qualidade das decisões adotadas quanto da capacidade das instituições responsáveis por formulá-las, executá-las, fiscalizá-las e avaliá-las.
Depois das eleições
Neste 4 de outubro, cada cidadão fará sua escolha.
Na segunda-feira, entretanto, o Brasil continuará diante dos mesmos desafios estruturais.
Independentemente de quem ocupe os diferentes cargos eletivos, permanecerão questões relacionadas à educação, ciência, inovação, produtividade, saúde, desenvolvimento social e qualidade das instituições.
Por isso, talvez uma das perguntas mais relevantes para universidades, instituições científicas, organizações da sociedade civil e cidadãos seja ampliar o horizonte da discussão para além de um único ciclo eleitoral:
Que Brasil estaremos construindo para os próximos 10, 20 e 30 anos?
E, igualmente importante:
quais indicadores permitirão verificar, de forma objetiva, os resultados alcançados?
As eleições definem representantes.
Os desafios estruturais permanecem.
Educação de qualidade, ciência, inovação, produtividade e desenvolvimento social estão relacionados a uma base constituída por democracia, instituições fortes, segurança jurídica, respeito à Constituição, equilíbrio entre os Poderes e avaliação permanente dos resultados.
O presente carrega as consequências das decisões tomadas no passado.
E as decisões tomadas no presente ajudarão a construir o Brasil que teremos no futuro.
Prof. Dr. Helio Dias
Presidente do IVEPESP
Instituto para a Valorização da Educação e da Pesquisa do Estado de São Paulo
Av. Paulista, nº 1636, Conjunto 4, 15º Pavimento
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