Um episódio recente ocorrido na Índia oferece uma oportunidade importante para refletirmos sobre um problema que vai muito além daquele país e que também começa a aparecer de forma cada vez mais clara no Brasil: o risco de ampliarmos escolarização e diplomas sem conseguirmos transformá-los, na mesma proporção, em aprendizagem, qualificação profissional, produtividade e oportunidades de trabalho compatíveis com a formação adquirida.

Em maio de 2026, uma declaração do presidente da Suprema Corte da Índia, Surya Kant, comparando determinados jovens sem inserção profissional a “baratas” provocou forte reação nas redes sociais. A expressão acabou sendo apropriada ironicamente por jovens indianos e deu origem ao chamado Cockroach Janta Party – CJP, que rapidamente deixou de ser apenas uma provocação nas redes e se transformou em movimento de protesto.

A mobilização ganhou força diante das denúncias de vazamento e irregularidades no NEET, exame nacional de acesso aos cursos de Medicina. Mais de dois milhões de estudantes foram afetados pela crise do exame. Em julho, manifestações reuniram milhares de jovens e se transformaram em um dos maiores movimentos juvenis enfrentados pelo governo de Narendra Modi. Em 25 de julho de 2026, o ministro da Educação, Dharmendra Pradhan, renunciou. (Reuters)

O episódio, entretanto, é mais importante pelo que revela do que pela peculiaridade do movimento.

O problema por trás dos protestos

A Índia atravessa há décadas um extraordinário processo de modernização econômica e tecnológica.

O país tornou-se potência relevante em tecnologia da informação, indústria farmacêutica, energia nuclear, atividades espaciais, engenharia e serviços tecnológicos, ao mesmo tempo em que expandiu significativamente seu sistema universitário.

Entre 2014-15 e 2023-24, o número de universidades indianas passou de 760 para 1.289, enquanto a matrícula no ensino superior cresceu de aproximadamente 34,2 milhões para 45 milhões de estudantes. A taxa bruta de matrícula superior atingiu 30% em 2023-24. (Agência de Informação de Imprensa)

Apesar disso, milhões de jovens continuam enfrentando dificuldades para transformar educação em ocupações compatíveis com suas expectativas.

O India Employment Report 2024, produzido pela Organização Internacional do Trabalho e pelo Institute for Human Development, apresenta um dado particularmente revelador: em 2022, a taxa de desemprego entre jovens indianos com graduação ou escolaridade superior alcançava 28,7%, contra apenas 3,2% entre jovens com escolaridade inferior ao ensino primário. (International Labour Organization)

Não significa, naturalmente, que estudar piora as perspectivas profissionais.

Significa algo mais complexo: a expansão da formação superior pode estar ocorrendo mais rapidamente do que a expansão das oportunidades profissionais capazes de absorver adequadamente essa população qualificada.

E é exatamente aí que a experiência indiana começa a dialogar com o Brasil.

O Brasil também ampliou o acesso — mas ainda enfrenta enormes desafios

O Brasil realizou uma expansão importante do ensino superior nas últimas décadas.

Segundo o Censo da Educação Superior, em 2024 a taxa bruta de escolarização chegou a 42,9%, enquanto a taxa líquida — proporção dos jovens de 18 a 24 anos efetivamente frequentando o ensino superior — permaneceu em 22,9%. Se incluirmos aqueles dessa faixa etária que já concluíram uma graduação, a taxa líquida ajustada chega a 27,0%. (Inep)

Portanto, Brasil e Índia possuem sistemas educacionais diferentes e os números não devem ser comparados mecanicamente.

Mas o dilema estrutural apresenta semelhanças.

Como ampliar o acesso sem reduzir qualidade?

E, além disso:

como garantir que a expansão da formação seja acompanhada pela criação de atividades econômicas capazes de utilizar produtivamente esse capital humano?

Esta questão tem aparecido repetidamente nas notas do IVEPESP.

Do Pé-de-Meia à universidade: não basta concluir

Ao analisarmos recentemente o programa Pé-de-Meia, chamamos atenção para uma pergunta que consideramos fundamental:

Quantos jovens adicionais concluirão o ensino médio — e com que aprendizagem?

A discussão provocada pela Índia permite acrescentar uma segunda pergunta:

Quantos jovens concluirão o ensino superior — e quantos conseguirão utilizar efetivamente essa formação?

Temos, portanto, uma sequência que deveria orientar a política educacional:

acesso → permanência → aprendizagem → qualificação → emprego produtivo.

Uma política pública concentrada apenas no primeiro ou no segundo desses componentes pode apresentar bons indicadores administrativos e, mesmo assim, produzir resultados sociais insuficientes.

A permanência escolar é indispensável.

A conclusão do ensino médio é indispensável.

A ampliação do ensino superior é desejável.

Mas nenhuma dessas etapas deveria ser tratada isoladamente da qualidade da aprendizagem e das oportunidades posteriores de inserção profissional.

O problema começa muito antes da universidade

As notas recentes do IVEPESP sobre PISA, SAEB, IDEB e educação básica apontam justamente para este aspecto.

Grande parte da desigualdade observada no acesso aos melhores cursos universitários não começa aos 17 ou 18 anos, no momento do vestibular ou do Enem.

Começa muito antes.

Uma criança que não foi adequadamente alfabetizada, acumulou deficiências em Matemática e Ciências no ensino fundamental e chegou ao ensino médio sem domínio das competências básicas terá enorme dificuldade para disputar, em igualdade de condições, uma vaga nos cursos e instituições mais seletivos.

Por isso, políticas de inclusão no ensino superior são importantes, mas não podem substituir a tarefa muito mais difícil de construir igualdade real de oportunidades desde a educação básica.

O melhor programa de acesso à universidade começa, paradoxalmente, muitos anos antes da universidade.

Diploma e mercado de trabalho

Também no Brasil existem sinais de desalinhamento entre formação e ocupação.

Estudo recente do Ipea sobre a sobre-educação dos jovens brasileiros chama atenção justamente para trabalhadores cuja escolaridade supera aquela necessária à função exercida. O fenômeno pode produzir não apenas perdas salariais, mas também menor satisfação profissional e desperdício de capital humano. (Repositório IPEA)

A situação é particularmente expressiva quando examinamos profissionais altamente qualificados.

Outro estudo do Ipea encontrou aproximadamente 62% de sobre-educação entre vínculos de trabalhadores com doutorado no período analisado, indicando que parcela importante desses profissionais estava exercendo ocupações que não aproveitavam plenamente sua formação. (Repositório IPEA)

Isso toca diretamente outra preocupação frequente do IVEPESP: não basta formar mestres e doutores se a estrutura econômica brasileira não consegue absorvê-los adequadamente.

A pós-graduação, a ciência e a universidade não podem existir desconectadas de uma estratégia nacional de desenvolvimento.

Educação e política industrial são partes da mesma agenda

Aqui talvez esteja uma das conclusões mais importantes.

Durante muito tempo, tratamos educação de um lado e desenvolvimento econômico do outro.

Essa separação precisa ser superada.

Não faz sentido um país investir recursos públicos durante 15, 20 ou 25 anos na formação de um jovem — da educação básica ao doutorado — e depois não possuir empresas, centros tecnológicos, indústrias ou organizações suficientemente sofisticadas para utilizar sua capacidade.

A cadeia deveria ser compreendida como um sistema:

educação → ciência → tecnologia → inovação → empresas competitivas → produtividade → empregos qualificados → renda.

Se um dos elos dessa cadeia se rompe, o investimento realizado nos demais perde parte de sua capacidade transformadora.

Essa reflexão também se conecta às recentes discussões promovidas pelo IVEPESP sobre competitividade da indústria brasileira e migração de empresas para países como o Paraguai.

Quando atividades produtivas deixam o Brasil, não perdemos apenas fábricas ou arrecadação.

Podemos perder também postos de trabalho, capacidade tecnológica, aprendizado industrial e oportunidades para nossos jovens qualificados.

Surge então uma contradição preocupante:

o país investe para formar capital humano, mas pode não estar criando — ou até pode estar perdendo — atividades econômicas capazes de utilizar plenamente esse capital humano.

A alternativa da educação profissional

Outro ensinamento importante é que não devemos confundir valorização da educação com a ideia de que todos os jovens necessariamente precisam seguir uma graduação acadêmica tradicional.

As experiências das Etecs, Fatecs, Institutos Federais, SENAI e demais modalidades de educação profissional e tecnológica precisam ocupar posição cada vez mais relevante na política educacional brasileira.

Estudo do Ipea identificou prêmio salarial positivo entre 21,3% e 24,9% para trabalhadores em ocupações técnicas, controladas diversas características individuais e das empresas. (Repositório IPEA)

Isso reforça as posições que o IVEPESP vem defendendo em suas discussões sobre ensino técnico, formação tecnológica, Estatuto do Aprendiz e aproximação entre educação e setor produtivo.

Uma política moderna não deveria perguntar apenas:

“Como levar mais jovens à universidade?”

Deveria perguntar:

“Qual é a trajetória educacional mais adequada para que cada jovem possa desenvolver plenamente seu potencial e construir uma vida profissional produtiva?”

Universidade, ensino tecnológico, formação técnica e aprendizagem profissional não deveriam competir entre si.

Deveriam formar um sistema integrado de oportunidades.

O desafio dos jovens que não estudam nem trabalham

O problema torna-se ainda mais preocupante quando observamos aqueles que ficam completamente fora dos dois sistemas.

Segundo a OCDE, em 2024 aproximadamente 24% dos brasileiros entre 18 e 24 anos não estavam empregados nem participavam de educação ou treinamento, contra uma média de aproximadamente 14% nos países da organização. (OECD)

É uma população que merece particular atenção.

Esses jovens não podem ser tratados como “preguiçosos”, “fracassados” ou qualquer outra expressão depreciativa.

Frequentemente são o resultado visível de falhas acumuladas em diferentes partes do sistema: educação deficiente, desigualdade social, falta de orientação profissional, baixa oferta de formação técnica, dificuldades regionais e ausência de oportunidades de trabalho.

O episódio indiano demonstra também o risco político e social de ignorar durante muito tempo essa frustração.

E agora surge a inteligência artificial

Há ainda um novo elemento que torna o problema muito mais complexo.

A inteligência artificial está começando a alterar justamente parte do mercado de trabalho tradicionalmente destinado a profissionais escolarizados.

O Future of Jobs Report 2025, do World Economic Forum, estima que as transformações tecnológicas e econômicas poderão criar 170 milhões de empregos e eliminar 92 milhões até 2030, resultando em saldo líquido positivo de 78 milhões — mas acompanhado de enorme transformação das competências exigidas. Quase 40% das habilidades utilizadas atualmente no trabalho poderão mudar até 2030. (World Economic Forum)

Mais importante: 41% dos empregadores pesquisados disseram prever redução de pessoal em determinadas áreas devido à automação por IA, enquanto 77% pretendem investir na qualificação ou requalificação de trabalhadores. (World Economic Forum)

Isso significa que simplesmente aumentar o número de diplomas pode tornar-se ainda menos suficiente.

A educação precisará preparar pessoas capazes de:

pensar criticamente, resolver problemas, compreender tecnologias, trabalhar interdisciplinarmente, criar, comunicar, colaborar e aprender continuamente.

O valor da formação futura estará cada vez menos na simples transmissão de informações — que estarão disponíveis instantaneamente — e cada vez mais na capacidade de transformar informação em conhecimento, conhecimento em decisões e decisões em soluções.

Da quantidade à qualidade e da qualidade à oportunidade

O Brasil avançou muito ao compreender que educação deve ser universalizada.

O próximo desafio é mais difícil.

Precisamos construir um sistema no qual quantidade, qualidade e oportunidade caminhem juntas.

Não basta perguntar quantas crianças estão matriculadas.

É necessário perguntar o que estão aprendendo.

Não basta perguntar quantos jovens concluem o ensino médio.

É preciso perguntar com quais competências chegam ao final dessa etapa.

Não basta perguntar quantos entram na universidade.

É necessário saber o que aprendem e quantos concluem.

E não basta perguntar quantos diplomas produzimos.

Precisamos saber quantos desses profissionais encontram oportunidades compatíveis com suas qualificações e quantos contribuem efetivamente para elevar a produtividade, a inovação e o desenvolvimento do país.

Uma agenda integrada para o Brasil

A experiência indiana reforça uma conclusão que atravessa muitas das notas recentes do IVEPESP.

Educação, ciência, tecnologia, inovação, política industrial e emprego não podem continuar sendo tratadas como políticas independentes.

O sucesso educacional de um país não pode ser medido apenas pelo número de matrículas e diplomas.

Da mesma forma, o sucesso econômico não pode ser medido apenas pelo crescimento do PIB se grandes parcelas das novas gerações não conseguem participar produtivamente desse crescimento.

O objetivo deve ser construir um ciclo virtuoso:

boa educação básica → formação profissional ou superior de qualidade → ciência e inovação → economia mais sofisticada → empregos qualificados → produtividade e renda → mais recursos para educação e desenvolvimento.

Quando esse ciclo funciona, educação se transforma efetivamente em mobilidade social e desenvolvimento.

Quando ele se rompe, produzimos algo muito perigoso:

expectativas crescentes sem oportunidades correspondentes.

E talvez seja justamente esta a principal mensagem que os protestos dos jovens indianos estejam enviando ao restante do mundo.

Conclusão

A pergunta central da política educacional brasileira talvez precise ser ampliada.

Depois de discutirmos:

Quantos jovens concluirão o ensino médio — e com que aprendizagem?

precisamos acrescentar:

Quantos jovens concluirão sua formação — e encontrarão uma sociedade capaz de aproveitar aquilo que aprenderam?

Não existe resposta exclusivamente educacional para essa pergunta.

Ela exige uma estratégia nacional que conecte educação, ciência, tecnologia, inovação, competitividade, desenvolvimento econômico e trabalho.

Este é talvez um dos maiores desafios para o Brasil nas próximas décadas.

Não devemos escolher entre ampliar oportunidades educacionais ou criar uma economia mais produtiva.

Precisamos fazer as duas coisas simultaneamente.

Porque, no final, o verdadeiro resultado da educação não está no diploma entregue, mas na capacidade adquirida pelo indivíduo de participar, criar, produzir, inovar e contribuir para a construção de uma sociedade melhor.

Prof. Dr. Helio Dias
Presidente do IVEPESP
Instituto para a Valorização da Educação e da Pesquisa do Estado de São Paulo
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