Um pequeno vídeo de Ronald Reagan que voltou a circular recentemente nas redes sociais chama a atenção por uma piada envolvendo três profissões: Medicina, Engenharia e Economia.

A gravação é autêntica. O episódio ocorreu em 12 de fevereiro de 1985, durante um almoço realizado na Casa Branca com pesquisadores, cientistas, engenheiros e educadores, conhecido como New Pioneers Luncheon.

Reagan conta que três homens chegam às portas do céu e são informados de que, por falta de espaço, apenas aquele que exercesse a profissão mais antiga poderia entrar.

O primeiro afirma ser médico. Argumenta que, para criar Eva a partir de uma costela de Adão, teria sido necessária uma operação cirúrgica.

O segundo, engenheiro, responde que antes mesmo de Adão existia o caos e que alguém precisou organizar esse caos para criar o mundo.

Finalmente, o terceiro declara:

“Eu sou economista. De onde vocês acham que veio todo aquele caos?”

A plateia ri.

O que muitas das versões atuais do vídeo deixam de mostrar é a frase seguinte de Reagan. Ele explica que podia contar aquela piada porque ele próprio havia se formado em Economia.

Esse detalhe é importante.

Não se tratava de um ataque aos economistas, mas de uma brincadeira de Reagan consigo próprio.

Entretanto, o aspecto mais interessante daquele discurso de 1985 não está na piada. Está justamente no que veio depois.

Ciência não é luxo

Diante de cientistas e pesquisadores, Reagan afirmou:

“Freedom is not a luxury, but a necessity.”

A liberdade, dizia ele, não deveria ser considerada um luxo, mas uma necessidade.

E aplicava essa ideia diretamente à ciência: era necessário abrir caminhos para a investigação, para a experimentação e para a criatividade humana.

Naquele discurso, Reagan mencionou algumas das grandes fronteiras científicas da época:

  • semicondutores;
  • física de partículas;
  • quarks;
  • engenharia e pesquisa genética;
  • exploração espacial;
  • matemática;
  • pesquisa básica em ciências físicas.

É interessante observar essa lista quatro décadas depois.

Aquilo que em 1985 constituía a fronteira tecnológica está, em grande medida, incorporado ao cotidiano da sociedade contemporânea.

Os semicondutores tornaram possível a revolução digital.

A genética transformou a Medicina.

A pesquisa espacial deu origem a inúmeras aplicações civis e comerciais.

O desenvolvimento da Física, da Matemática e da Computação forneceu parte das bases da inteligência artificial que hoje transforma praticamente todas as atividades humanas.

Quarenta anos depois, as tecnologias mudaram. O desafio permanece.

Se esse discurso fosse realizado em 2026, provavelmente a lista seria diferente.

Falaríamos de:

  • inteligência artificial;
  • computação quântica;
  • biotecnologia;
  • novos materiais;
  • semicondutores avançados;
  • fusão nuclear;
  • armazenamento de energia;
  • robótica;
  • tecnologias espaciais;
  • medicina de precisão.

Mas o princípio seria essencialmente o mesmo.

Os países que desejam ocupar posições de liderança econômica precisam investir nas fronteiras do conhecimento muito antes de saber exatamente quais serão suas aplicações comerciais.

Essa é uma característica fundamental da pesquisa científica.

Muitas das tecnologias que transformam a economia mundial foram construídas a partir de descobertas realizadas décadas antes em universidades e centros de pesquisa, frequentemente sem uma aplicação industrial imediata.

É por isso que ciência básica e inovação não devem ser vistas como atividades concorrentes.

São partes de um mesmo processo.

O verdadeiro encontro entre Medicina, Engenharia e Economia

A piada de Reagan pode também receber hoje uma interpretação interessante.

No século XXI, Medicina, Engenharia, Ciência e Economia tornaram-se profundamente interdependentes.

Uma nova descoberta científica precisa de engenheiros para transformá-la em tecnologia.

Precisa de empresas para transformá-la em produtos e serviços.

Precisa de capital para permitir escala.

Precisa de instituições capazes de estimular inovação.

E precisa de uma economia suficientemente sofisticada para absorver profissionais altamente qualificados.

Esse último ponto merece especial atenção no Brasil.

O problema brasileiro não é apenas formar mais cientistas e engenheiros

Frequentemente ouvimos que o Brasil precisa aumentar o número de profissionais formados nas áreas de STEM — Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática.

Isso é verdade.

Mas é apenas parte do problema.

Não basta formar cientistas e engenheiros se a estrutura produtiva de um país não possui empresas, laboratórios, indústrias e cadeias tecnológicas capazes de utilizar plenamente esses profissionais.

Podemos formar recursos humanos de excelente qualidade e, ainda assim, empregá-los em atividades muito abaixo de sua qualificação.

Nesse caso, ocorre uma espécie de paradoxo:

o sistema educacional produz capital humano sofisticado que a economia não consegue utilizar plenamente.

Por isso, política educacional, política científica e política industrial precisam conversar entre si.

Universidade, empresa e Estado

Os países que hoje lideram áreas como inteligência artificial, semicondutores, biotecnologia e computação avançada construíram ecossistemas nos quais diferentes instituições cumprem funções complementares.

As universidades formam pessoas e produzem conhecimento.

Os institutos de pesquisa desenvolvem tecnologias.

As empresas transformam conhecimento em produtos e serviços.

O Estado ajuda a financiar áreas estratégicas, especialmente aquelas que exigem investimentos elevados e horizontes de longo prazo.

O mercado permite transformar inovação em escala econômica.

Quando essas estruturas funcionam de maneira integrada, cria-se um círculo virtuoso:

educação → ciência → tecnologia → inovação → produtividade → desenvolvimento.

Quando não funcionam, os elos dessa cadeia permanecem desconectados.

Uma questão que o Brasil precisa enfrentar

O Brasil construiu ao longo das últimas décadas universidades, instituições de pesquisa e sistemas de pós-graduação que alcançaram reconhecimento internacional em diversas áreas.

Também possui instituições relevantes de financiamento e apoio à ciência e à inovação.

Entretanto, continua enfrentando dificuldades para transformar proporcionalmente essa capacidade científica em inovação empresarial, produtividade industrial e empresas tecnológicas de escala global.

É justamente nesse espaço entre produção de conhecimento e estrutura produtiva que talvez esteja um dos principais desafios brasileiros das próximas décadas.

Precisamos formar mais cientistas e engenheiros.

Mas precisamos, simultaneamente, criar uma economia que necessite deles.

A atualidade de uma mensagem de 1985

É curioso que uma simples piada contada há mais de quarenta anos possa servir de ponto de partida para uma reflexão tão contemporânea.

Reagan falava aos pioneiros científicos de sua época.

Hoje existem novos pioneiros.

Pesquisadores de inteligência artificial.

Cientistas que trabalham com novos medicamentos.

Engenheiros de semicondutores.

Pesquisadores em computação quântica.

Cientistas dedicados à fusão nuclear.

Especialistas em novos materiais e energia.

Jovens que trabalham em áreas que talvez ainda nem possuam aplicações claramente definidas.

Alguns desses trabalhos poderão parecer abstratos hoje.

Mas podem definir a economia mundial de 2040 ou 2050.

Essa é precisamente a natureza da ciência.

Uma reflexão para o Brasil

A pergunta estratégica para o Brasil não deveria ser apenas:

Quanto estamos investindo em ciência?

Talvez devamos acrescentar outras perguntas:

Em quais áreas queremos estar na fronteira do conhecimento?

Como transformar a pesquisa realizada nas universidades brasileiras em inovação?

Como aproximar universidade, institutos de pesquisa e empresas?

Como criar uma estrutura produtiva capaz de absorver nossos melhores cientistas e engenheiros?

E quais tecnologias queremos dominar nas próximas duas ou três décadas?

Em 1985, Ronald Reagan usou uma piada envolvendo um médico, um engenheiro e um economista para iniciar uma conversa sobre ciência.

Quarenta e um anos depois, talvez a melhor conclusão seja justamente esta:

nenhum deles consegue construir o futuro sozinho.

O desenvolvimento exige ciência.

Exige engenharia.

Exige economia.

Exige educação.

Exige empresas inovadoras.

E exige instituições capazes de transformar conhecimento em prosperidade para a sociedade.

Esse talvez seja o verdadeiro significado contemporâneo daquele discurso.


Vídeo original e fonte histórica

Ronald Reagan – Remarks at the New Pioneers Luncheon
Casa Branca, Washington, D.C.
12 de fevereiro de 1985

Gravação original preservada pela Ronald Reagan Presidential Library:

https://www.reaganlibrary.gov/archives/video/president-reagan-remarks-new-pioneers-luncheon-state-dining-room

Transcrição oficial do discurso:

https://www.presidency.ucsb.edu/documents/remarks-white-house-luncheon-for-the-new-pioneers


Prof. Dr. Helio Dias
Presidente do IVEPESP
Instituto para a Valorização da Educação e da Pesquisa do Estado de São Paulo