O IVEPESP – Instituto para a Valorização da Educação e da Pesquisa do Estado de São Paulo acompanha com atenção as mudanças promovidas pela FAPESP nas regras da Bolsa Estágio de Pesquisa no Exterior (BEPE), que entraram em vigor em 1º de setembro de 2026.

A divulgação inicial das alterações despertou preocupação legítima na comunidade acadêmica, especialmente quanto à possibilidade de redução das oportunidades de internacionalização para estudantes de Iniciação Científica e Mestrado.

Entretanto, os comunicados posteriormente divulgados pela FAPESP, particularmente o Comunicado do Conselho Técnico-Administrativo (CTA), de 2 de setembro de 2026, apresentam informações adicionais que modificam significativamente a compreensão inicial da medida.

À luz desses esclarecimentos, o IVEPESP considera importante atualizar sua análise.

1. Os números explicam a necessidade do ajuste

A FAPESP informa que, nos últimos dez anos, entre 2016 e 2025, concedeu mais de 78,5 mil bolsas de pesquisa, abrangendo desde a graduação até o pós-doutorado, no Brasil e no exterior.

Em 2026, mais de 13 mil estudantes e jovens pesquisadores recebem apoio financeiro da Fundação.

Somente em 2025, segundo o CTA, foram investidos mais de R$ 1,1 bilhão em bolsas.

Paralelamente, o orçamento da Fundação proveniente dos repasses do Tesouro cresceu 64% entre 2020 e 2025.

Portanto, não estamos diante de uma situação caracterizada simplesmente por redução dos recursos disponíveis à FAPESP.

O problema apontado pela Fundação é outro: a velocidade de crescimento das despesas com bolsas em relação aos demais instrumentos de financiamento à pesquisa.

Entre 2023 e 2025:

Indicador20232025Variação
Bolsas contratadas7.61013.180+73%
Auxílios à pesquisa2.6562.754+3,7%
Bolsas no exterior1.2421.889+52%

Em junho de 2026, as despesas com bolsas chegaram a representar 58% do orçamento da Fundação, diante de uma média histórica de aproximadamente 35%.

A preocupação manifestada pelo Conselho Superior e pelo CTA é compreensível: mantida essa trajetória, poderia ocorrer progressivamente uma redução da capacidade da FAPESP de financiar projetos de pesquisa, equipamentos, infraestrutura, projetos temáticos e outras iniciativas científicas e tecnológicas.

2. Existe também uma questão federativa

O comunicado acrescenta outro elemento relevante.

Segundo a FAPESP, o aumento recente da demanda por suas bolsas decorre, entre outros fatores, da elevada competitividade dos valores pagos pela Fundação e de uma redução relativa da participação das agências federais no financiamento de bolsas destinadas ao Estado de São Paulo.

Como exemplo, a Fundação informa que a participação paulista nas bolsas de doutorado da CAPES diminuiu cerca de 7% em apenas dois anos.

Isso merece uma discussão mais ampla.

O sistema brasileiro de ciência e pós-graduação depende da atuação complementar de CAPES, CNPq, FAPs estaduais, universidades e demais instituições de financiamento à pesquisa.

Se um dos componentes desse sistema reduz sua participação relativa, a demanda tende a migrar para os demais.

Portanto, parte da pressão atualmente enfrentada pela FAPESP deve ser analisada também no contexto do financiamento nacional da ciência e da formação de pesquisadores.

3. O ponto mais importante: não houve extinção da BEPE para IC e Mestrado

O comunicado de 2 de setembro esclarece uma questão fundamental.

As novas regras estabelecem que estudantes com Bolsa de Doutorado Direto, Doutorado e Pós-Doutorado poderão continuar pleiteando BEPE por fluxo contínuo.

A duração inicial passa de até 12 meses para 6 meses, com possibilidade de prorrogação por outros 6 meses, mediante solicitação e análise de mérito pela FAPESP.

Para Iniciação Científica e Mestrado, entretanto, o mecanismo será diferente.

Os bolsistas dessas modalidades com bolsas aprovadas até 31 de agosto de 2026 poderão concorrer por meio de chamada específica prevista para o final de setembro.

Para bolsas de IC e Mestrado concedidas a partir de 1º de setembro de 2026, a FAPESP anunciou uma nova chamada BEPE para o primeiro semestre de 2027.

Portanto, é importante corrigir uma interpretação inicialmente possível a partir das primeiras informações:

Iniciação Científica e Mestrado não foram excluídos definitivamente da possibilidade de realizar BEPE. O acesso passa do fluxo contínuo para chamadas específicas.

Essa distinção é fundamental para uma avaliação equilibrada da medida.

4. Não houve anúncio de corte do número de bolsas BEPE

O CTA também afirma expressamente que não houve corte no número de bolsas BEPE, mas alteração dos critérios de elegibilidade e duração.

Segundo a Fundação, a decisão baseia-se no entendimento de que os estágios internacionais financiados em fluxo contínuo devem privilegiar pesquisadores em etapas mais avançadas de sua formação científica.

Esse esclarecimento também exige cautela na utilização da expressão “corte da BEPE”.

Com as informações atualmente disponíveis, o mais preciso é falar em reestruturação das regras de concessão da BEPE.

Somente o acompanhamento dos próximos editais e dos resultados efetivos permitirá determinar se a mudança produzirá, ou não, redução do número de estudantes internacionalizados.

5. A governança da decisão também foi esclarecida

Outro aspecto importante diz respeito à origem da decisão.

O CTA informa que o Conselho Superior da FAPESP determinou que fossem adotadas medidas para preservar o equilíbrio entre os dispêndios com bolsas e auxílios.

A alteração da BEPE foi uma das medidas adotadas nesse contexto.

Essa informação é especialmente importante diante de interpretações que procuram relacionar a alteração diretamente a decisões político-eleitorais ou à interferência do Governo do Estado.

Até o presente momento, não foram apresentados elementos documentais que sustentem essa interpretação.

O que está documentado é uma decisão adotada dentro da estrutura institucional de governança da FAPESP, a partir de uma preocupação orçamentária apresentada pelo Conselho Superior e operacionalizada pelo CTA.

Em um período eleitoral, a distinção entre fato institucional, interpretação e especulação política torna-se ainda mais necessária.

A autonomia da FAPESP e a qualidade de sua governança científica constituem patrimônios construídos ao longo de décadas e devem ser preservadas.

6. Os esclarecimentos não encerram o debate — mudam sua natureza

Reconhecer a justificativa técnica apresentada pela FAPESP não significa que os efeitos da medida deixem de merecer acompanhamento.

Ao contrário.

A pergunta agora é mais precisa:

As novas regras conseguirão restabelecer o equilíbrio entre bolsas e auxílios sem reduzir, na prática, as oportunidades de internacionalização dos jovens pesquisadores paulistas?

Neste momento, essa pergunta ainda não pode ser respondida.

Isso dependerá, entre outros fatores, do número de vagas oferecidas nas chamadas específicas para IC e Mestrado, dos recursos destinados a elas, dos critérios de seleção, da demanda existente e da evolução do número total de bolsistas enviados ao exterior.

Por isso, o debate deve passar de uma discussão sobre intenções para uma avaliação baseada em resultados.

7. A internacionalização continua sendo estratégica

Há uma razão adicional para acompanhar cuidadosamente essa experiência.

A internacionalização não deve ser vista apenas como uma despesa associada ao pagamento de bolsas no exterior.

Ela constitui um investimento na formação científica.

Estágios internacionais podem proporcionar acesso a laboratórios e equipamentos, técnicas experimentais, grupos científicos de excelência e redes de colaboração que dificilmente seriam reproduzidos exclusivamente no ambiente nacional.

Isso pode ser particularmente relevante nos primeiros estágios da formação.

Uma experiência internacional durante a Iniciação Científica ou o Mestrado pode influenciar a escolha do doutorado, estabelecer futuras cooperações e contribuir para a formação de pesquisadores capazes de inserir seus grupos brasileiros em redes científicas internacionais.

Por outro lado, internacionalização também precisa produzir resultados compatíveis com os recursos públicos investidos.

As duas preocupações são legítimas.

8. O próprio CTA abre caminho para uma avaliação

Há um aspecto muito positivo no comunicado de 2 de setembro.

A FAPESP afirma que o CTA:

continuará acompanhando os efeitos das mudanças e realizará correções de rota quando necessárias.

Esse compromisso aproxima-se daquilo que o IVEPESP considera uma boa prática de política científica.

Uma política pública não deve ser avaliada apenas no momento em que é anunciada.

Ela deve estabelecer objetivos, produzir indicadores, medir resultados e, quando necessário, ser modificada.

9. Propostas do IVEPESP

Diante dos novos esclarecimentos, o IVEPESP propõe seis medidas complementares:

1. Avaliação de impacto da BEPE. Acompanhar o programa por modalidade — IC, Mestrado, Doutorado Direto, Doutorado e Pós-Doutorado — considerando custos e resultados científicos, acadêmicos e institucionais.

2. Transparência dos dados. Divulgar periodicamente número de bolsas, investimentos, duração dos estágios, áreas do conhecimento, países e instituições de destino e resultados obtidos.

3. Acompanhamento específico de IC e Mestrado. Comparar o número de estudantes internacionalizados antes e depois da substituição do fluxo contínuo pelas chamadas específicas.

4. Exploração de modelos de cofinanciamento. Ampliar parcerias com universidades estrangeiras, empresas, fundações, agências internacionais e outras instituições para compartilhar os custos da internacionalização.

5. Desenvolvimento de alternativas. Caso necessário, considerar estágios de menor duração, programas competitivos, editais temáticos ou outros formatos capazes de ampliar oportunidades com menor impacto orçamentário.

6. Reavaliação periódica das regras. Após período previamente definido, comparar os resultados do novo modelo com os anos anteriores e promover as correções de rota mencionadas pelo próprio CTA.

10. Uma oportunidade para produzir evidências

A mudança promovida pela FAPESP pode, inclusive, transformar-se em uma oportunidade de avaliação de política científica.

Existirá uma situação concreta de antes e depois de setembro de 2026.

Será possível comparar número de participantes, modalidades, duração das experiências internacionais, custos e resultados.

Particularmente importante será acompanhar as chamadas específicas destinadas à Iniciação Científica e ao Mestrado.

Se elas preservarem oportunidades relevantes de internacionalização com menor impacto orçamentário, o novo modelo poderá demonstrar sua eficiência.

Se, ao contrário, ocorrer uma redução expressiva da participação desses estudantes ou forem identificados efeitos negativos sobre sua formação, os dados poderão fundamentar uma revisão.

Em ambos os casos, a evidência deve orientar a decisão.

Conclusão

Os esclarecimentos apresentados pelo Conselho Técnico-Administrativo da FAPESP em 2 de setembro de 2026 modificam significativamente a compreensão inicial das alterações da BEPE.

Os números mostram que a Fundação enfrenta uma questão real de equilíbrio entre financiamento de bolsas e financiamento de projetos de pesquisa.

Também ficou esclarecido que não foi anunciado corte no número de bolsas BEPE e que estudantes de Iniciação Científica e Mestrado continuarão podendo participar de programas de internacionalização, embora por meio de chamadas específicas.

Diante dessas informações, a discussão não deve mais ser apresentada simplesmente como uma escolha entre “cortar ou preservar a internacionalização”.

O desafio é mais sofisticado:

Como preservar a sustentabilidade financeira da FAPESP, manter sua capacidade de financiar pesquisa de excelência e, simultaneamente, assegurar oportunidades relevantes de internacionalização para as novas gerações de pesquisadores?

O IVEPESP considera positiva a disposição manifestada pelo CTA de acompanhar os resultados e promover correções de rota.

Agora será importante transformar esse compromisso em indicadores transparentes e comparáveis.

Ciência de qualidade exige projetos, equipamentos e recursos. Mas exige, sobretudo, pessoas bem formadas e conectadas às melhores redes científicas do mundo.

O equilíbrio entre essas dimensões deve ser construído com autonomia institucional, transparência e evidências.

Prof. Dr. Helio Dias
Presidente do IVEPESP
Instituto para a Valorização da Educação e da Pesquisa do Estado de São Paulo
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