A entrevista do filósofo Yuk Hui, conduzida por Sérgio Magno no jornal PÚBLICO em 29 de Julho de 2026, apresenta uma reflexão especialmente relevante para o debate contemporâneo sobre inteligência artificial. Em lugar de tratar a IA como uma entidade autônoma, dotada de uma inteligência equivalente à humana, Hui propõe compreendê-la como um artefato técnico criado pelos seres humanos — assim como, em outros momentos históricos, foram criados a escrita, o telescópio, o microscópio, as máquinas industriais e os computadores.

Essa perspectiva permite superar duas interpretações igualmente problemáticas: a visão excessivamente otimista, segundo a qual a inteligência artificial solucionará praticamente todos os problemas humanos, e a visão apocalíptica, que atribui às máquinas uma capacidade inevitável de substituir ou dominar a humanidade.

A questão fundamental não é saber se a máquina “pensa” exatamente como uma pessoa, mas compreender como os seres humanos estão utilizando esses sistemas, quais decisões estão sendo delegadas a eles e quem controla a infraestrutura tecnológica que passa a organizar parcelas crescentes da vida social.

A inteligência artificial como ampliação das capacidades humanas

Desde o início da civilização, a inteligência humana depende de artefatos para registrar, organizar e ampliar o conhecimento. A escrita permitiu preservar ideias para além da memória individual. O microscópio tornou visível aquilo que os olhos não podiam observar. O telescópio expandiu nossa compreensão do universo. Os computadores aumentaram extraordinariamente nossa capacidade de cálculo e processamento de informações.

A inteligência artificial integra essa trajetória histórica. Sistemas como ChatGPT, Claude e outras plataformas podem auxiliar na análise de informações, na organização de argumentos, na programação, na produção de textos, na formulação de hipóteses e na resolução de problemas.

Isso, entretanto, não significa que essas ferramentas possuam consciência, compreensão moral ou responsabilidade sobre suas próprias decisões. Elas processam grandes volumes de dados, identificam padrões e produzem respostas probabilísticas. Podem ampliar a inteligência humana, mas não substituem automaticamente o julgamento humano.

Como destaca Hui, um martelo não é inteligente, mas constitui uma ferramenta artificial criada para expandir a capacidade de ação das pessoas. A inteligência artificial é muito mais complexa, mas continua sendo um artefato construído, treinado e operado dentro de contextos humanos, econômicos, culturais e políticos.

Os limites epistemológicos da inteligência artificial

Um dos pontos mais importantes da entrevista diz respeito aos limites epistemológicos da IA, isto é, aos limites do que esses sistemas podem efetivamente conhecer, compreender e afirmar com segurança.

Modelos de linguagem não possuem acesso direto à verdade. Eles produzem respostas com base em probabilidades, associações estatísticas e regularidades identificadas nos dados utilizados em seu treinamento. Por isso, podem elaborar textos convincentes e, ao mesmo tempo, apresentar informações falsas, referências inexistentes, interpretações equivocadas ou conclusões excessivamente seguras.

As chamadas “alucinações” não devem ser compreendidas apenas como falhas ocasionais facilmente elimináveis. Elas decorrem, em parte, da própria natureza probabilística desses sistemas.

Esse aspecto se conecta diretamente às notas anteriores do IVEPESP sobre o emprego da inteligência artificial na ciência, na educação e na produção acadêmica. Temos defendido que a IA pode contribuir para a pesquisa, mas seus resultados precisam ser verificados por pesquisadores, professores e especialistas capazes de avaliar evidências, fontes, métodos e coerência argumentativa.

O problema se torna especialmente grave quando estudantes ou profissionais passam a aceitar uma resposta apenas porque ela foi formulada de maneira clara e aparentemente bem fundamentada. Fluência linguística não é sinônimo de verdade científica.

Educação não pode ser transformada em delegação do pensamento

A entrevista também reforça uma preocupação reiteradamente apresentada pelo IVEPESP: a inteligência artificial deve ser incorporada à educação como instrumento de aprendizagem, e não como substituta do esforço intelectual.

Uma educação de qualidade não consiste apenas em obter respostas. Ela exige formular boas perguntas, compreender conceitos, comparar interpretações, reconhecer incertezas, construir argumentos e revisar conclusões.

Quando o estudante entrega integralmente à máquina a elaboração de textos, a interpretação de problemas ou a tomada de decisões, pode deixar de desenvolver capacidades essenciais, como autonomia intelectual, criatividade, argumentação, raciocínio lógico e pensamento crítico.

Por isso, não basta ensinar os alunos a utilizar plataformas de IA. É necessário ensinar:

  • como verificar informações e referências;
  • como identificar vieses e limitações;
  • como distinguir evidência de opinião;
  • como formular perguntas adequadas;
  • como reconhecer incertezas;
  • como assumir responsabilidade pelo resultado final.

Essa posição está em sintonia com as notas do IVEPESP sobre formação científica, produção acadêmica na era da IA e preparação dos jovens para carreiras científicas. O pesquisador do futuro precisará dominar ferramentas de inteligência artificial, mas deverá igualmente preservar sua capacidade de pensar, experimentar, interpretar e contestar.

A IA não substitui a ciência

Outro alerta relevante diz respeito ao risco de imaginar que sistemas de inteligência artificial poderão substituir a própria ciência.

A ciência não é apenas a produção de textos ou a análise automática de dados. Ela depende da observação da realidade, da formulação de hipóteses, da experimentação, da reprodução de resultados, da crítica entre pares e da revisão permanente do conhecimento.

A IA pode ajudar a identificar padrões, simular cenários, analisar imagens, acelerar cálculos e organizar a literatura científica. No entanto, permanece necessária a participação de pesquisadores capazes de definir problemas relevantes, selecionar métodos adequados, interpretar resultados e avaliar as consequências éticas e sociais das descobertas.

Ao aceitar passivamente resultados produzidos por sistemas automatizados, a comunidade científica corre o risco de substituir o método científico por uma aparência de certeza produzida computacionalmente.

Essa questão se relaciona às reflexões do IVEPESP sobre o chamado “último artigo escrito por humanos” e sobre os limites da automação da produção acadêmica. A ciência precisa utilizar a IA, mas não pode abdicar da autoria intelectual, da responsabilidade científica e da verificação independente.

Soberania tecnológica e concentração de poder

Yuk Hui também chama atenção para a dimensão geopolítica da inteligência artificial. A disputa entre Estados Unidos e China, o crescimento de empresas como Nvidia, Huawei e as grandes plataformas digitais, bem como o desenvolvimento de modelos como DeepSeek, demonstram que a IA não é somente uma questão científica ou empresarial. Trata-se de uma questão de soberania.

A infraestrutura da inteligência artificial depende de semicondutores, centros de processamento de dados, redes de comunicação, energia elétrica, água, sistemas de armazenamento e grandes bases de dados. Países que não desenvolvem competências próprias nessas áreas tornam-se dependentes de decisões tomadas por governos e empresas estrangeiras.

O Brasil não precisa reproduzir integralmente o modelo norte-americano, chinês ou europeu. Deve construir uma política de inteligência artificial compatível com suas necessidades educacionais, científicas, econômicas e sociais.

Isso envolve:

  • investimento em pesquisa pública e privada;
  • formação de pesquisadores e engenheiros;
  • infraestrutura computacional nacional;
  • proteção e governança de dados;
  • estímulo à inovação;
  • apoio às universidades e aos centros de pesquisa;
  • criação de modelos voltados à língua portuguesa e à realidade brasileira.

Essa concepção aproxima-se da ideia de tecnodiversidade defendida por Hui: diferentes sociedades devem poder desenvolver caminhos tecnológicos próprios, em vez de serem submetidas a um único modelo global de inovação.

A dimensão ambiental da inteligência artificial

A entrevista acrescenta um elemento que precisa receber maior atenção: a expansão da IA possui custos ambientais relevantes.

Centros de dados e sistemas de processamento intensivo consomem grandes quantidades de eletricidade, água, minerais e componentes eletrônicos. A competição por modelos cada vez maiores e mais poderosos pode entrar em conflito com os compromissos de sustentabilidade e de enfrentamento da crise climática.

Não se trata de rejeitar a inteligência artificial, mas de questionar um modelo de desenvolvimento baseado exclusivamente no aumento permanente da capacidade computacional.

A inovação tecnológica precisa ser acompanhada por critérios de eficiência energética, avaliação ambiental, transparência e responsabilidade. O progresso não pode ser medido apenas pelo número de parâmetros de um modelo ou pela velocidade de processamento, mas também por sua utilidade social e por seus impactos econômicos e ambientais.

Democracia, algoritmos e responsabilidade humana

A concentração da inteligência artificial em poucas empresas também produz riscos políticos. Plataformas digitais influenciam o acesso à informação, a formação da opinião pública, o consumo e até o debate democrático.

Algoritmos podem priorizar determinados conteúdos, ampliar a polarização, estimular comportamentos e organizar a visibilidade de pessoas, instituições e ideias. Quando essas decisões são tomadas de maneira opaca, o poder tecnológico passa a competir com o poder dos próprios Estados.

A responsabilidade, contudo, não pode ser atribuída exclusivamente às máquinas. Como lembra Hui, a “estupidez” não está na tecnologia em si, mas no modo como os seres humanos decidem utilizá-la.

Não devemos dizer que “o algoritmo decidiu” como se não houvesse pessoas, empresas e instituições responsáveis pelo projeto, pelo treinamento, pelas regras e pelos objetivos desses sistemas.

Uma agenda para o Brasil

A entrevista reforça princípios que têm orientado as notas recentes do IVEPESP. O Instituto tem defendido uma incorporação responsável da inteligência artificial, baseada em cinco fundamentos:

  1. Centralidade humana: a tecnologia deve ampliar as capacidades humanas, e não eliminar a responsabilidade das pessoas.
  2. Pensamento crítico: estudantes, professores, pesquisadores e profissionais precisam verificar e questionar as respostas produzidas pelas máquinas.
  3. Integridade científica: resultados gerados por IA devem ser submetidos a critérios de evidência, reprodutibilidade, autoria e responsabilidade.
  4. Soberania tecnológica: o Brasil precisa desenvolver infraestrutura, competências e políticas próprias de inteligência artificial.
  5. Responsabilidade social e ambiental: a inovação deve ser avaliada por sua contribuição à educação, à ciência, ao desenvolvimento econômico, à democracia e à sustentabilidade.

Conclusão

A principal contribuição da entrevista de Yuk Hui é nos recordar que a inteligência artificial não deve ser compreendida isoladamente da sociedade que a criou.

A máquina pode calcular, prever, classificar e produzir respostas em uma escala inédita. Mas a escolha dos objetivos, a avaliação das consequências e a definição do que é desejável continuam sendo responsabilidades humanas.

O maior risco talvez não seja a inteligência artificial se tornar excessivamente semelhante ao ser humano. O risco mais imediato é o próprio ser humano abandonar sua capacidade de pensar, decidir e assumir responsabilidade, transferindo essas funções para sistemas que não compreendem integralmente a realidade social, moral e política em que operam.

O desafio não é impedir o avanço da inteligência artificial. É assegurar que esse avanço esteja subordinado à educação, à ciência, à democracia, à soberania nacional e ao desenvolvimento humano.


Prof. Dr. Hélio Dias
Presidente do IVEPESP – Instituto para a Valorização da Educação e da Pesquisa do Estado de São Paulo
https://ivepesp.org.br/membro/helio-dias/