O Brasil ainda possui amplo espaço para ampliar o acesso ao ensino superior. Entretanto, o crescimento sustentável do setor não pode ser medido apenas pelo número de vagas, ingressantes ou matrículas. É necessário acompanhar quantos estudantes permanecem, aprendem, concluem seus cursos e conseguem transformar a formação recebida em desenvolvimento profissional, científico, econômico e social.
Nesse sentido, o Instituto para a Valorização da Educação e da Pesquisa no Estado de São Paulo — IVEPESP considera que a expansão do ensino superior deve estar associada a quatro grandes compromissos: redução da evasão, financiamento e permanência estudantil, melhoria da educação básica e inclusão digital.
Esses compromissos precisam ser desenvolvidos de maneira integrada. As dificuldades encontradas pelo estudante universitário frequentemente têm origem em deficiências acumuladas desde a educação básica, em limitações financeiras, na ausência de orientação profissional, na falta de equipamentos e conectividade e na necessidade de conciliar estudo, trabalho e responsabilidades familiares.
1. A importância de diferenciar os tipos de evasão
Para enfrentar adequadamente o problema, é indispensável distinguir as diferentes formas de evasão.
Nem todo estudante que deixa determinado curso abandonou o ensino superior. Mudanças de curso ou transferências entre instituições podem representar mobilidade acadêmica, redefinição vocacional ou busca por melhores condições de estudo.
A utilização de uma taxa única e genérica de evasão pode produzir diagnósticos imprecisos e conduzir a políticas inadequadas.
1.1. Evasão do curso
Ocorre quando o estudante deixa o curso em que ingressou inicialmente, mas pode permanecer na mesma instituição, matriculando-se em outra graduação.
Um estudante que deixa Engenharia e ingressa em Administração, por exemplo, evadiu-se do primeiro curso, mas não abandonou a instituição nem o sistema de ensino superior.
Essa situação pode estar associada a:
- escolha profissional inadequada;
- desconhecimento sobre o conteúdo do curso;
- dificuldades acadêmicas;
- falta de identificação com a carreira;
- mudança de interesses;
- incompatibilidade entre o curso e as condições pessoais do estudante.
Nesse caso, a resposta mais adequada envolve orientação acadêmica e profissional, apoio pedagógico e processos simplificados de transferência interna.
1.2. Mobilidade entre instituições
Ocorre quando o estudante deixa uma instituição e prossegue seus estudos em outra, no mesmo curso ou em curso diferente.
Para a instituição de origem, houve perda de matrícula. Entretanto, sob a perspectiva do sistema educacional, o estudante permaneceu no ensino superior.
Essa situação deve ser registrada como transferência externa ou mobilidade institucional, e não como abandono definitivo da formação superior.
1.3. Evasão da instituição
Ocorre quando o estudante rompe o vínculo com determinada instituição de ensino superior.
A evasão institucional pode indicar problemas relacionados a:
- mensalidades e dificuldades financeiras;
- qualidade acadêmica percebida;
- atendimento administrativo;
- infraestrutura;
- horários;
- localização;
- organização curricular;
- relacionamento com professores;
- falta de acolhimento;
- dificuldade de conciliar estudo e trabalho.
Entretanto, a saída de uma instituição não significa necessariamente que o estudante tenha abandonado o ensino superior, pois ele pode ter ingressado em outra IES.
1.4. Evasão do sistema de ensino superior
É a situação mais grave. O estudante deixa o curso e a instituição e não se matricula em nenhuma outra graduação durante determinado período.
O IVEPESP propõe que a evasão do sistema seja caracterizada após um período de observação, como dois semestres consecutivos sem matrícula em qualquer instituição de ensino superior.
Esse deveria ser o principal indicador para a formulação de políticas públicas nacionais, pois representa o abandono efetivo da trajetória de formação superior.
1.5. Interrupção temporária
O trancamento ou a ausência de matrícula por um ou mais semestres não deve ser automaticamente interpretado como abandono definitivo.
O estudante pode interromper os estudos em razão de:
- desemprego;
- redução da renda familiar;
- problemas de saúde;
- gravidez ou cuidados com filhos;
- necessidade de cuidar de familiares;
- mudança de cidade;
- incompatibilidade com o trabalho;
- dificuldades emocionais;
- impossibilidade temporária de pagar mensalidades ou despesas de permanência.
Nessas situações, a instituição deve manter contato com o estudante e desenvolver políticas ativas de retorno.
1.6. Desligamento involuntário
Também é necessário distinguir os estudantes que deixam o curso por decisão própria daqueles que são desligados por motivos institucionais, tais como:
- reprovações sucessivas;
- ultrapassagem do prazo máximo para integralização;
- inadimplência;
- problemas documentais;
- sanções disciplinares;
- encerramento do curso;
- fechamento da instituição ou do polo.
Cada uma dessas situações exige resposta específica e não pode ser analisada apenas como falta de interesse do estudante.
1.7. Abandono próximo da conclusão
O estudante que deixa a graduação após cumprir 70%, 80% ou mais da carga acadêmica merece atenção especial.
Nesse caso, a perda é particularmente elevada, tanto para o estudante como para sua família, a instituição e a sociedade. Foram investidos anos de estudo, recursos públicos ou privados e trabalho acadêmico, sem que se alcance a conclusão.
A instituição deveria acionar automaticamente mecanismos de:
- renegociação financeira;
- bolsa emergencial;
- flexibilização de horários;
- oferta especial de disciplinas;
- orientação para conclusão;
- acompanhamento individual;
- apoio para estágio, trabalho de conclusão e atividades complementares.
2. Indicadores de evasão propostos pelo IVEPESP
O IVEPESP defende que as instituições e os órgãos públicos adotem, pelo menos, os seguintes indicadores:
- taxa de evasão do curso;
- taxa de transferência interna;
- taxa de transferência externa;
- taxa de evasão institucional;
- taxa de evasão do sistema de ensino superior;
- taxa de trancamento temporário;
- taxa de retorno após interrupção;
- tempo médio entre interrupção e retorno;
- evasão no primeiro ano;
- evasão por modalidade presencial ou a distância;
- evasão por turno;
- evasão por área de formação;
- evasão por faixa de renda;
- abandono segundo o percentual já integralizado;
- principais causas declaradas pelos estudantes.
Um mesmo estudante não deve ser indevidamente contabilizado como evadido do curso, da instituição e do sistema sem que sua trajetória acadêmica seja acompanhada.
A análise deve ser longitudinal. A transferência de um estudante pode ser evasão para a instituição de origem, mas representa permanência do ponto de vista do sistema educacional.
3. Propostas para redução da evasão
3.1. Sistema de alerta precoce
As instituições devem criar sistemas para identificar estudantes em risco de abandono a partir de sinais como:
- faltas recorrentes;
- queda no rendimento;
- reprovações;
- ausência nas plataformas digitais;
- atrasos financeiros;
- pedidos de trancamento;
- baixa participação acadêmica.
O uso de dados e inteligência artificial pode contribuir, mas a decisão não deve ser exclusivamente automatizada. Cada alerta precisa resultar em contato humano realizado por tutor, professor, coordenador ou profissional da assistência estudantil.
3.2. Programa Primeiro Ano Protegido
Os dois primeiros semestres devem receber atenção prioritária, pois representam o período de maior adaptação à vida universitária.
O programa deve contemplar:
- acolhimento dos ingressantes;
- tutoria acadêmica;
- monitoria;
- orientação sobre métodos de estudo;
- apoio psicopedagógico;
- orientação financeira;
- atividades de integração;
- contato com profissionais e egressos.
Cada estudante ingressante deveria contar com um tutor de referência durante o primeiro ano.
3.3. Nivelamento acadêmico
As instituições devem oferecer módulos de:
- leitura e produção textual;
- matemática;
- raciocínio lógico;
- informática;
- metodologia de estudo;
- fundamentos científicos;
- conteúdos básicos específicos de cada área.
Esses módulos devem integrar a formação curricular ou ser reconhecidos como atividades acadêmicas, evitando sobrecarregar o estudante.
3.4. Orientação vocacional e possibilidade de mudança de curso
Parte da evasão do curso decorre de escolhas feitas com pouca informação.
As instituições devem disponibilizar:
- orientação vocacional;
- apresentação detalhada das carreiras;
- possibilidade de cursar disciplinas introdutórias;
- transferência interna simplificada;
- aproveitamento de créditos;
- acompanhamento dos estudantes que manifestem intenção de desistir.
Mudar de curso pode ser uma decisão positiva, desde que o estudante seja apoiado e permaneça no sistema educacional.
3.5. Programa de retorno
As instituições devem manter cadastro dos estudantes que interromperam os estudos e estabelecer contato periódico para oferecer:
- condições de rematrícula;
- aproveitamento de disciplinas;
- renegociação financeira;
- horários alternativos;
- conclusão em formato flexível;
- orientação acadêmica.
A interrupção não deve ser tratada automaticamente como abandono definitivo.
3.6. Flexibilidade para estudantes trabalhadores
Grande parcela dos universitários brasileiros precisa conciliar estudo e trabalho.
As instituições devem oferecer:
- horários adequados;
- combinação responsável entre atividades presenciais e digitais;
- possibilidade de redução temporária da carga acadêmica;
- trancamento simplificado;
- retorno sem burocracia excessiva;
- aproveitamento de experiências profissionais;
- certificações intermediárias.
3.7. Transparência institucional
As instituições devem divulgar, por curso:
- evasão no primeiro ano;
- permanência;
- transferências;
- conclusão no prazo;
- conclusão após o prazo;
- empregabilidade;
- principais causas de abandono.
Os indicadores precisam respeitar a diversidade dos cursos e o perfil dos estudantes, evitando comparações simplistas.
4. Propostas de financiamento e permanência
4.1. Fundo de Permanência e Conclusão
O IVEPESP propõe a criação de um fundo voltado não apenas ao pagamento de mensalidades, mas também às condições de permanência.
O fundo poderia financiar:
- transporte;
- alimentação;
- moradia;
- internet;
- equipamentos;
- materiais didáticos;
- mensalidades;
- situações emergenciais;
- estudantes próximos da conclusão.
Sua composição poderia envolver poder público, instituições de ensino, empresas, fundações, fundos patrimoniais, organizações da sociedade civil e doações.
4.2. Bolsa emergencial
O estudante que enfrenta desemprego, redução temporária da renda ou problema familiar não deveria abandonar imediatamente o curso.
Propõe-se a concessão de bolsa emergencial por três a seis meses, acompanhada de análise social e plano de continuidade acadêmica.
4.3. Financiamento vinculado à renda futura
O financiamento estudantil pode adotar mecanismos como:
- pagamento após a conclusão;
- início da cobrança somente a partir de renda mínima;
- prestação proporcional à renda;
- suspensão em períodos de desemprego;
- juros reduzidos;
- proteção contra endividamento excessivo.
4.4. Integração entre bolsa, financiamento e permanência
O estudante precisa de uma jornada integrada que articule:
- bolsa parcial ou integral;
- financiamento complementar;
- apoio para transporte, alimentação e conectividade;
- acompanhamento acadêmico;
- estágio e inserção profissional.
4.5. Bolsas financiadas por empresas
Empresas podem apoiar estudantes em áreas estratégicas como:
- formação de professores;
- engenharias;
- tecnologia;
- saúde;
- indústria;
- ciência de dados;
- energias renováveis;
- pesquisa e inovação.
Essas bolsas podem estar associadas a programas de estágio, mentoria e desenvolvimento profissional, sem criar vínculos abusivos ou obrigações desproporcionais.
5. Propostas para melhoria da educação básica
5.1. Alfabetização na idade adequada
Toda criança deve estar efetivamente alfabetizada até o final do segundo ano do ensino fundamental.
As escolas com dificuldades devem receber:
- formação de professores;
- materiais adequados;
- acompanhamento pedagógico;
- reforço escolar;
- apoio de universidades;
- avaliação periódica.
5.2. Recuperação contínua da aprendizagem
A recuperação deve ocorrer durante todo o ano, com o seguinte ciclo:
avaliar, identificar a dificuldade, intervir, acompanhar e avaliar novamente.
Avaliações diagnósticas devem orientar ações concretas e não apenas gerar rankings.
5.3. Programa Universidade na Escola
Universidades, faculdades e Institutos de Ciência e Tecnologia podem desenvolver parcerias permanentes com escolas públicas para oferecer:
- formação continuada;
- clubes de ciência;
- feiras científicas;
- monitoria;
- laboratórios;
- iniciação científica;
- orientação profissional;
- projetos culturais e tecnológicos.
O IVEPESP, como ICT, pode atuar na articulação entre escolas, universidades, pesquisadores, empresas e agências de fomento.
5.4. Valorização dos professores
A melhoria da educação básica exige:
- carreira estruturada;
- remuneração adequada;
- formação continuada;
- tempo para planejamento;
- apoio aos professores iniciantes;
- redução da rotatividade;
- formação digital;
- condições adequadas de trabalho.
5.5. Orientação acadêmica e profissional no ensino médio
Os estudantes devem conhecer:
- profissões;
- cursos superiores;
- educação técnica;
- bolsas;
- financiamento;
- formas de ingresso;
- mercado de trabalho;
- áreas científicas e tecnológicas.
O IVEPESP pode criar o programa Caminhos para o Futuro, aproximando escolas de universidades, Fatecs, institutos federais, empresas e centros de pesquisa.
6. Propostas para inclusão digital
6.1. Conectividade pedagógica
Não basta que a escola possua um ponto de internet.
É necessário avaliar:
- velocidade;
- estabilidade;
- cobertura de Wi-Fi;
- número de equipamentos;
- suporte técnico;
- uso pedagógico;
- acessibilidade.
6.2. Programa Dispositivo para Aprender
O programa deve oferecer:
- empréstimo de notebooks e tablets;
- laboratórios móveis;
- manutenção;
- substituição de equipamentos;
- reaproveitamento seguro de computadores;
- doações empresariais;
- assistência técnica regional.
6.3. Internet para estudantes de baixa renda
Estudantes da educação básica e superior podem receber:
- pacotes de dados;
- chips ou modems;
- banda larga subsidiada;
- acesso gratuito a espaços públicos;
- empréstimo de equipamentos.
6.4. Formação digital dos professores
Os professores devem ser preparados para:
- utilizar tecnologias educacionais;
- produzir conteúdos;
- acompanhar a aprendizagem;
- promover atividades colaborativas;
- utilizar inteligência artificial responsavelmente;
- proteger dados;
- reconhecer desinformação;
- atender estudantes com deficiência.
6.5. Educação digital, científica e midiática
Os estudantes devem aprender a:
- avaliar informações;
- reconhecer notícias falsas;
- compreender algoritmos;
- utilizar inteligência artificial criticamente;
- proteger a privacidade;
- respeitar direitos autorais;
- diferenciar opinião de evidência científica.
7. Projeto-piloto do IVEPESP
O IVEPESP pode estruturar um projeto-piloto de 24 meses envolvendo instituições de ensino superior, escolas públicas, municípios, empresas, universidades, ICTs e agências de fomento.
O projeto deve contemplar:
- diagnóstico dos diferentes tipos de evasão;
- sistema de alerta precoce;
- tutoria no primeiro ano;
- nivelamento;
- bolsas emergenciais;
- orientação vocacional;
- programa de retorno;
- formação de professores;
- conectividade;
- empréstimo de equipamentos;
- acompanhamento dos resultados.
Entre os indicadores devem estar:
- evasão do curso;
- transferência interna;
- transferência externa;
- evasão institucional;
- evasão do sistema;
- trancamento;
- retorno aos estudos;
- desempenho acadêmico;
- conclusão;
- inadimplência;
- acesso digital;
- aprendizagem na educação básica;
- estágio e empregabilidade.
Conclusão
O crescimento sustentável do ensino superior brasileiro exige mais do que a abertura de vagas.
É necessário criar condições para que o estudante faça escolhas mais conscientes, receba apoio acadêmico, tenha condições financeiras, permaneça vinculado ao sistema e conclua sua formação.
O IVEPESP considera indispensável distinguir a evasão do curso, a evasão da instituição e a evasão do sistema de ensino superior. A mudança de curso ou a transferência entre instituições pode representar mobilidade acadêmica e redefinição vocacional, não necessariamente abandono educacional.
As políticas públicas devem concentrar especial atenção nos estudantes que deixam completamente o sistema, nos que interrompem os estudos por dificuldades econômicas e naqueles que abandonam a graduação próximos da conclusão.
O Brasil precisa estabelecer um verdadeiro pacto nacional pela aprendizagem, permanência, conclusão e inclusão educacional, articulando educação básica, ensino superior, ciência, tecnologia, empresas e sociedade.
Prof. Dr. Helio Dias
Presidente do Instituto para a Valorização da Educação e da Pesquisa no Estado de São Paulo — IVEPESP
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