O IVEPESP entende que o Brasil reúne condições para dar um novo passo na promoção da saúde pública por meio da criação de um Programa Nacional de Educação Preventiva em Saúde (PNEPS), concebido como uma política de Estado e desenvolvido em cooperação entre os Ministérios da Educação e da Saúde, universidades, institutos de pesquisa, redes públicas e privadas de ensino, Sistema Único de Saúde (SUS) e sociedade civil.

O programa teria como princípio central substituir a lógica predominantemente reativa — centrada no tratamento das doenças — por uma abordagem preventiva, baseada em conhecimento científico, educação permanente e diagnóstico precoce.

A prevenção passaria a ser entendida não apenas como uma responsabilidade do setor saúde, mas como uma política transversal envolvendo educação, ciência, tecnologia, inovação e desenvolvimento social.

Objetivos estratégicos

O Programa Nacional de Educação Preventiva em Saúde teria como principais objetivos:

  • incorporar a educação para a saúde aos currículos da Educação Básica;
  • formar cidadãos capazes de compreender os fatores de risco das principais doenças crônicas;
  • incentivar hábitos saudáveis desde a infância;
  • ampliar o acesso aos exames preventivos;
  • fortalecer a Atenção Primária do SUS;
  • reduzir as desigualdades regionais em saúde;
  • utilizar dados científicos para orientar políticas públicas.

Educação ao longo da vida

O programa seria estruturado segundo o conceito de aprendizagem permanente.

Na Educação Infantil e no Ensino Fundamental seriam desenvolvidos conteúdos relacionados a:

  • alimentação saudável;
  • atividade física;
  • higiene;
  • vacinação;
  • saúde emocional;
  • prevenção do uso de álcool, tabaco e outras drogas;
  • educação ambiental e qualidade de vida.

No Ensino Médio seriam incorporados temas como:

  • doenças crônicas;
  • primeiros socorros;
  • saúde sexual e reprodutiva;
  • saúde mental;
  • interpretação de exames básicos;
  • funcionamento do SUS;
  • alfabetização científica em saúde.

Na Educação Superior, especialmente nos cursos da área da saúde, educação, engenharia, computação e administração pública, seriam estimulados projetos interdisciplinares voltados à prevenção, inovação tecnológica e gestão em saúde.

Diagnóstico precoce como política pública

Uma das inovações do programa seria transformar o diagnóstico precoce em componente permanente das políticas educacionais e de saúde.

O IVEPESP propõe que sejam instituídos programas nacionais periódicos de avaliação preventiva para diferentes faixas etárias, permitindo identificar precocemente fatores de risco antes do aparecimento das doenças.

Entre os principais indicadores estariam:

  • pressão arterial;
  • glicemia;
  • colesterol;
  • função renal;
  • índice de massa corporal;
  • circunferência abdominal;
  • avaliação cardiovascular;
  • rastreamento dos principais tipos de câncer conforme protocolos científicos.

A detecção precoce reduziria significativamente internações, incapacidades permanentes e custos assistenciais.

Inteligência Artificial e Medicina Preventiva

A transformação digital oferece oportunidades inéditas para fortalecer a prevenção.

O IVEPESP propõe que o Programa Nacional incorpore ferramentas de Inteligência Artificial para:

  • identificar indivíduos com maior risco de adoecimento;
  • apoiar profissionais da Atenção Primária;
  • integrar informações clínicas provenientes do SUS;
  • acompanhar indicadores populacionais em tempo real;
  • orientar campanhas preventivas específicas para cada região;
  • prever demandas futuras por serviços de saúde.

Naturalmente, todo esse processo deverá respeitar integralmente a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD), garantindo privacidade, segurança e uso ético das informações.

A pesquisa científica como motor da prevenção

As universidades brasileiras, institutos de pesquisa e hospitais universitários devem ocupar posição estratégica no programa.

Além da produção científica, poderão atuar na:

  • avaliação dos resultados;
  • formação continuada de profissionais;
  • desenvolvimento de tecnologias diagnósticas;
  • criação de indicadores nacionais;
  • validação de soluções baseadas em Inteligência Artificial.

Essa integração permitirá transformar conhecimento científico em benefícios concretos para a população.

Uma política de Estado

O IVEPESP entende que programas preventivos somente produzem resultados quando possuem continuidade institucional.

Por essa razão, o Programa Nacional de Educação Preventiva em Saúde deve constituir uma política de Estado, com metas de longo prazo, indicadores públicos, avaliação permanente e financiamento estável, independentemente de mudanças de governo.

A experiência brasileira em imunização, no combate ao tabagismo e na expansão da Atenção Primária demonstra que políticas contínuas produzem resultados duradouros.

Considerações finais

O futuro da saúde brasileira dependerá menos da ampliação da capacidade hospitalar e cada vez mais da capacidade de evitar que as pessoas adoeçam.

Educação de qualidade, pesquisa científica, diagnóstico precoce e inovação tecnológica representam os quatro pilares de uma medicina verdadeiramente preventiva.

O IVEPESP acredita que o Brasil possui competência científica, infraestrutura universitária e capacidade institucional para liderar uma nova geração de políticas públicas integradas, nas quais educação e saúde deixem de atuar isoladamente e passem a constituir uma estratégia nacional de desenvolvimento humano.

Mais do que tratar doenças, é preciso construir uma sociedade que aprenda, desde cedo, a preservá-las. A verdadeira sustentabilidade do SUS começa muito antes da porta de entrada de um hospital: ela nasce na escola, se fortalece na pesquisa científica e se concretiza por meio da prevenção baseada em evidências.

Prof. Dr. Helio Dias
Presidente do Instituto para a Valorização da Educação e da Pesquisa no Estado de São Paulo – IVEPESP
https://ivepesp.org.br/membro/helio-dias/