O Instituto para a Valorização da Educação e da Pesquisa do Estado de São Paulo (IVEPESP) acompanha com atenção a aprovação provisória do acordo comercial entre a União Europeia e o Mercosul, considerado um dos mais amplos e complexos tratados econômicos negociados pelo Brasil nas últimas décadas.
A eventual entrada em vigor do acordo ampliará significativamente o acesso da economia brasileira a um mercado de aproximadamente 451 milhões de consumidores, caracterizado por elevada renda per capita, alta intensidade tecnológica e sofisticados padrões regulatórios. Trata-se, sem dúvida, de uma oportunidade estratégica relevante para a ampliação do comércio exterior brasileiro, para a atração de investimentos produtivos e para a integração às cadeias globais de valor.
Entretanto, o IVEPESP considera fundamental registrar que acordos comerciais não produzem, por si só, desenvolvimento econômico sustentável. A experiência internacional demonstra que países que se beneficiaram de processos de abertura econômica e integração comercial foram precisamente aqueles que, previamente, construíram capacidades robustas em educação, ciência, tecnologia, inovação e produtividade.
Nesse sentido, o principal desafio brasileiro não é a assinatura do acordo em si, mas a capacidade do país de transformar acesso a mercados em agregação de valor, aumento de produtividade e desenvolvimento tecnológico.
Atualmente, o Brasil apresenta limitações estruturais importantes, entre as quais destacam-se:
- baixa intensidade tecnológica da pauta exportadora;
- reduzida participação em cadeias globais de valor;
- insuficiente articulação entre universidades, institutos de pesquisa e setor produtivo;
- baixa produtividade média da indústria de transformação;
- reduzido investimento empresarial em pesquisa e desenvolvimento;
- deficiências persistentes na formação técnica e científica de recursos humanos;
- excessiva complexidade regulatória e elevado custo sistêmico de produção.
Sem enfrentar esses fatores estruturais, existe o risco concreto de que o acordo produza ganhos concentrados em setores já competitivos, particularmente no agronegócio, sem promover transformação estrutural significativa da economia brasileira.
O IVEPESP entende que a celebração do acordo deve ser acompanhada da implementação imediata de uma agenda nacional de competitividade baseada em educação, ciência, tecnologia e inovação, contemplando, entre outras, as seguintes medidas estratégicas:
1. Programa Nacional de Formação para Competitividade Internacional
Instituição de programas de formação técnica, tecnológica, de graduação e pós-graduação orientados para setores estratégicos de alta intensidade tecnológica, incluindo:
- inteligência artificial;
- semicondutores;
- manufatura avançada;
- biotecnologia;
- química fina;
- novos materiais;
- transição energética;
- economia verde;
- logística avançada e comércio internacional.
A experiência internacional demonstra que acordos econômicos bem-sucedidos são precedidos por investimentos massivos em capital humano.
2. Programa Brasil–União Europeia de Cooperação Científica e Tecnológica
Criação de um programa permanente de cooperação científica Brasil-União Europeia, envolvendo:
- laboratórios internacionais compartilhados;
- programas de dupla titulação;
- doutorados em cotutela;
- mobilidade de pesquisadores;
- centros binacionais de pesquisa aplicada;
- compartilhamento de infraestrutura científica avançada.
A competitividade contemporânea é determinada, crescentemente, pela capacidade de geração e absorção de conhecimento.
3. Ampliação dos investimentos nacionais em pesquisa e desenvolvimento
Estabelecimento de metas progressivas para que o investimento nacional em pesquisa e desenvolvimento alcance patamares comparáveis aos observados nos países da OCDE, mediante:
- expansão dos investimentos públicos em ciência;
- fortalecimento das agências de fomento;
- ampliação dos incentivos fiscais à inovação;
- estímulo à participação empresarial em atividades de pesquisa e desenvolvimento.
Não existe evidência internacional de desenvolvimento econômico sustentado sem investimento consistente em ciência e tecnologia.
4. Expansão da pesquisa aplicada e da transferência tecnológica
Fortalecimento dos mecanismos de interação entre universidades, institutos de pesquisa e setor produtivo, incluindo:
- ampliação dos centros de competência tecnológica;
- criação de institutos de pesquisa translacional;
- programas de inovação aberta;
- financiamento orientado por missões tecnológicas;
- expansão dos ambientes de empreendedorismo científico.
5. Programa Nacional de Adequação Regulatória e Sustentabilidade
Implementação de programas de apoio técnico e tecnológico para empresas e produtores brasileiros atenderem aos padrões europeus de:
- rastreabilidade;
- sustentabilidade ambiental;
- descarbonização;
- certificação sanitária;
- governança corporativa;
- compliance regulatório.
As exigências regulatórias internacionais devem ser tratadas como instrumentos de aumento da competitividade e não apenas como barreiras comerciais.
6. Modernização da gestão pública de ciência, tecnologia e inovação
A simplificação regulatória, a redução da burocracia, a modernização dos processos de importação científica e o fortalecimento dos mecanismos de gestão da pesquisa constituem condições indispensáveis para a competitividade internacional do país.
A experiência recente demonstra que entraves administrativos continuam representando um dos principais fatores limitantes da capacidade científica e tecnológica brasileira.
Considerações finais
O IVEPESP considera que o acordo União Europeia–Mercosul deve ser interpretado não como um ponto de chegada, mas como um poderoso instrumento de pressão competitiva e modernização institucional.
Sem investimentos robustos e contínuos em educação, ciência, tecnologia e inovação, o Brasil corre o risco de permanecer como exportador predominante de produtos primários e importador líquido de tecnologia e conhecimento.
Por outro lado, se acompanhado por uma estratégia nacional consistente de desenvolvimento científico, educacional e industrial, o acordo poderá representar uma oportunidade histórica para a elevação da produtividade, da competitividade internacional e da soberania tecnológica brasileira.
A verdadeira discussão, portanto, não é se o acordo será benéfico ou prejudicial, mas se o Brasil está preparado para transformar abertura comercial em desenvolvimento baseado no conhecimento.
Prof. Dr. Helio Dias
Presidente do IVEPESP
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