Uma reflexão sobre soberania tecnológica, ciência e inovação
Nos últimos meses, a inteligência artificial passou definitivamente do campo da pesquisa para o centro das estratégias econômicas, industriais e geopolíticas das principais nações do mundo. A disputa pelo desenvolvimento dos modelos mais avançados de IA tem chamado a atenção para um elemento frequentemente invisível ao público: os chips de alto desempenho que sustentam essa revolução tecnológica.
Em recente debate sobre inteligência artificial na televisão brasileira, foi destacado um aspecto que merece reflexão. Enquanto algumas universidades e centros de pesquisa dispõem de sistemas com algumas dezenas de processadores gráficos (GPUs), as grandes empresas globais de tecnologia já operam infraestruturas compostas por dezenas de milhares de chips trabalhando simultaneamente.
A diferença de escala é impressionante. Um supercomputador acadêmico avançado pode contar com algumas dezenas ou centenas de GPUs. Já empresas como OpenAI, Google, Meta, Microsoft, Amazon e xAI operam centros de processamento capazes de reunir dezenas de milhares de aceleradores de IA em uma única instalação.
Essa realidade leva naturalmente a uma pergunta: como universidades e países como o Brasil podem competir nesse cenário?
A resposta exige compreender que a inteligência artificial moderna depende de uma cadeia produtiva extremamente complexa e internacionalizada.
Muitas vezes atribui-se à NVIDIA o protagonismo absoluto da revolução da IA. Entretanto, a empresa representa apenas um dos elos de uma cadeia tecnológica que envolve centenas de organizações distribuídas por diversos países.
O desenvolvimento de um chip de inteligência artificial começa com empresas especializadas no projeto das arquiteturas computacionais. Em seguida, entram em cena as companhias que desenvolvem softwares de automação de projeto eletrônico (EDA), sem os quais seria impossível conceber circuitos com bilhões de transistores.
A etapa seguinte depende de equipamentos de litografia extremamente sofisticados, produzidos principalmente pela empresa holandesa ASML. Essas máquinas, consideradas entre os equipamentos mais complexos já construídos pela humanidade, utilizam tecnologias ópticas avançadas fornecidas por empresas alemãs e americanas.
Os wafers de silício utilizados na fabricação dos chips são produzidos predominantemente por empresas japonesas. Posteriormente, a fabricação física dos circuitos ocorre em gigantes industriais como a TSMC, de Taiwan, e a Samsung, da Coreia do Sul.
Após a fabricação, os chips são integrados a memórias de altíssimo desempenho, especialmente as memórias HBM, produzidas por empresas como SK Hynix, Samsung e Micron. Finalmente, os componentes passam por sofisticados processos de empacotamento avançado, são integrados a servidores e instalados em grandes centros de processamento de dados.
Essa cadeia demonstra que a inteligência artificial não é apenas uma questão de software ou algoritmos. Trata-se de um ecossistema industrial global que combina ciência, engenharia, manufatura avançada, logística, energia e investimentos bilionários.
Nesse contexto, torna-se evidente que o Brasil não participa de forma significativa das etapas mais estratégicas dessa cadeia. O país possui participação limitada no desenvolvimento de semicondutores avançados, não produz equipamentos de litografia, não possui foundries de última geração e tampouco desempenha papel relevante na fabricação de memórias de alto desempenho.
Por outro lado, o Brasil possui competências importantes em áreas como pesquisa científica, formação de recursos humanos, desenvolvimento de algoritmos, aplicações de inteligência artificial e produção de conhecimento especializado.
A questão estratégica, portanto, não deve ser formulada apenas como “como competir com quem possui dezenas de milhares de chips?”, mas sim “em quais áreas o Brasil pode construir vantagens competitivas sustentáveis na era da inteligência artificial?”.
A história da inovação demonstra que universidades e centros de pesquisa não precisam necessariamente competir em escala industrial para gerar impacto global. Muitas das tecnologias que hoje sustentam a inteligência artificial nasceram em laboratórios acadêmicos e centros de pesquisa.
Áreas como inteligência artificial explicável (XAI), governança algorítmica, ética em IA, aplicações para educação, saúde pública, agricultura tropical, biodiversidade e gestão pública representam oportunidades nas quais o Brasil pode exercer protagonismo científico e tecnológico.
Para isso, será necessário ampliar investimentos em pesquisa, fortalecer a infraestrutura nacional de computação de alto desempenho, estimular a formação de especialistas e promover políticas públicas voltadas para a construção de capacidades tecnológicas próprias.
A inteligência artificial não é apenas uma disputa por chips. É uma disputa por conhecimento, talentos, instituições de pesquisa e capacidade de inovação.
O futuro pertencerá não apenas aos países que possuírem os maiores datacenters, mas também àqueles que souberem transformar ciência em desenvolvimento econômico e social.
O Brasil ainda possui uma janela de oportunidade para participar dessa transformação. Aproveitá-la dependerá de escolhas estratégicas feitas hoje.
Prof. Dr. Helio Dias
Presidente do IVEPESP
IVEPESP
Perfil Institucional de Helio Dias
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Helio Henrique Villela Dias
Engenheiro de Computação • Cientista de Dados
IVEPESP / Lello Lab / UNIFESP
https://ivepesp.org.br/membro/helio-henrique-villela-dias/