O Instituto para Valorização da Educação e da Pesquisa no Estado de São Paulo (IVEPESP) considera extremamente relevante a iniciativa institucional da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) ao utilizar os instrumentos previstos na Instrução Normativa RFB nº 2.058/2021 para buscar segurança jurídica na importação de equipamentos, insumos e materiais destinados à pesquisa científica.

A iniciativa representa um marco importante no debate nacional sobre a modernização do sistema brasileiro de importações para ciência e tecnologia, especialmente em um momento em que pesquisadores, universidades e institutos de pesquisa convivem com enorme burocracia, insegurança jurídica, atrasos logísticos e custos incompatíveis com a dinâmica da pesquisa internacional contemporânea.

A consulta formulada pela UFRJ junto à Receita Federal evidencia um ponto central: a própria legislação brasileira já oferece instrumentos institucionais capazes de permitir interpretações mais compatíveis com a missão constitucional das universidades públicas e da pesquisa científica nacional.

Entre os aspectos mais relevantes do caminho adotado pela UFRJ destacam-se:

  • a legitimidade das universidades públicas para formular consultas formais à Receita Federal;
  • a possibilidade de interpretação vinculante pela COSIT;
  • o efeito protetivo durante a tramitação da consulta;
  • a ampliação da segurança jurídica para projetos científicos;
  • e, sobretudo, a discussão sobre a aplicação da imunidade tributária recíproca prevista no art. 150, VI, “a”, da Constituição Federal às importações realizadas para fins de pesquisa científica.

A tese apresentada pela UFRJ possui enorme relevância estratégica ao defender que a imunidade tributária pode alcançar importações realizadas por fundações de apoio, na modalidade “por conta e ordem de terceiro”, quando a universidade pública é a real adquirente e destinatária econômica do bem científico.

O IVEPESP entende que esta discussão transcende o caso específico da UFRJ. Trata-se de um debate estrutural para o futuro da ciência brasileira.

Hoje, pesquisadores brasileiros frequentemente enfrentam:

  • meses de atraso para receber reagentes simples;
  • custos tributários incompatíveis com projetos financiados;
  • risco de perecimento de amostras biológicas;
  • paralisação de experimentos;
  • perda de competitividade internacional;
  • desperdício de recursos públicos;
  • e extrema insegurança operacional para laboratórios e instituições.

A situação torna-se ainda mais grave diante do esgotamento precoce das cotas de importação científica do CNPq em 2026, fato que já vem afetando diretamente a continuidade de inúmeros projetos de pesquisa no país.

A posição do IVEPESP sobre as cotas de importação científica

O IVEPESP entende que há um forte argumento técnico, econômico e estratégico para revisão profunda do atual sistema de cotas de importação para pesquisa científica.

As importações científicas representam valores praticamente desprezíveis frente ao volume total das importações brasileiras. O país importa anualmente centenas de bilhões de dólares em combustíveis, fertilizantes, máquinas, eletrônicos e bens de consumo. Já as importações destinadas à ciência possuem baixo impacto fiscal relativo, mas enorme impacto estratégico para o desenvolvimento nacional.

Ao mesmo tempo, os danos provocados pelas limitações burocráticas são extremamente elevados:

  • interrupção de experimentos;
  • atraso em teses de mestrado e doutorado;
  • perda de reagentes perecíveis;
  • comprometimento de projetos internacionais;
  • redução da competitividade científica brasileira;
  • atraso no desenvolvimento tecnológico;
  • impacto em hospitais universitários e pesquisas clínicas;
  • perda de oportunidades de inovação e geração de patentes.

O IVEPESP considera que o modelo atual frequentemente produz uma falsa economia fiscal de curto prazo, ao custo de enormes perdas estruturais em inovação, produtividade, formação de talentos e soberania científica.

Além disso, o pesquisador brasileiro já opera em um ambiente fortemente controlado, submetido a:

  • avaliação técnica por agências de fomento;
  • prestação de contas;
  • auditorias;
  • comitês de ética;
  • rastreabilidade financeira;
  • sistemas institucionais de compliance;
  • controle aduaneiro;
  • fiscalização dos órgãos públicos.

Nesse contexto, a manutenção de cotas globais rígidas para importações científicas parece incompatível com uma política moderna de ciência, tecnologia e inovação.

Proposta do IVEPESP para modernização das importações científicas

O IVEPESP defende a construção de um novo modelo nacional de importação científica baseado em:

1. Isenção ampla e efetiva para importações científicas

Universidades, ICTs, institutos de pesquisa e projetos financiados por agências oficiais devem possuir regime especial permanente de desoneração para equipamentos e insumos científicos.

2. Eliminação progressiva das cotas globais de importação científica

A ciência não pode ficar sujeita ao esgotamento administrativo de cotas anuais incompatíveis com a dinâmica da pesquisa contemporânea.

O controle deve ocorrer sobre projetos aprovados e pesquisadores credenciados, e não por meio de limites globais arbitrários.

3. Importação direta simplificada por pesquisadores credenciados

Itens de pequena monta, como reagentes, kits laboratoriais, enzimas, anticorpos, materiais de consumo e amostras científicas não controladas, deveriam poder ser importados diretamente por pesquisadores vinculados a projetos aprovados por agências oficiais, em modelo semelhante ao já existente para importação de livros.

4. Sistema nacional inteligente de análise de risco

O Brasil precisa implementar um sistema digital integrado entre Receita Federal, CNPq, CAPES, FINEP, FAPESP, universidades e ICTs, utilizando análise de risco e auditoria posterior por amostragem, diferenciando claramente:

  • importações comerciais;
  • importações industriais;
  • e importações científicas de interesse público.

5. Fast track científico nacional

Projetos estratégicos de pesquisa deveriam possuir tramitação aduaneira prioritária, especialmente em áreas críticas como:

  • saúde;
  • biotecnologia;
  • semicondutores;
  • inteligência artificial;
  • energia;
  • defesa;
  • física experimental;
  • novos materiais;
  • agricultura;
  • mudanças climáticas.

O IVEPESP entende que a iniciativa da UFRJ pode abrir um precedente institucional importante para todo o sistema nacional de ciência e tecnologia, incluindo universidades estaduais, federais, institutos de pesquisa, hospitais universitários e ICTs brasileiras.

Defender condições adequadas para importar equipamentos e insumos científicos não é defender privilégios. É defender a capacidade do Brasil produzir conhecimento, formar pesquisadores, gerar inovação, desenvolver tecnologia nacional e competir globalmente.

A ciência brasileira não pode continuar parada em aeroportos, alfândegas e entraves burocráticos.

A ciência mundial avança em velocidade exponencial. O Brasil precisa decidir se deseja participar desse futuro ou apenas observá-lo de longe.


Prof. Dr. Helio Dias
Presidente do IVEPESP
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