O Instituto para Valorização da Educação e da Pesquisa no Estado de São Paulo (IVEPESP), ao analisar o relatório Panorama da Alfabetização no Brasil (2025) e a leitura crítica elaborada pelo Instituto iDados , apresenta a seguinte posição institucional.
1. Um avanço relevante: o Brasil passou a medir a alfabetização
O país avançou significativamente ao:
- estabelecer uma métrica nacional (SAEB)
- definir um ponto de corte (743 pontos)
- criar o Indicador Criança Alfabetizada (ICA)
- estruturar o Compromisso Nacional Criança Alfabetizada (CNCA)
Esse movimento representa um marco:
➡️ o Brasil passou a ter um sistema nacional de monitoramento da alfabetização
2. O problema central permanece: a alfabetização não ocorre na escala necessária
Os dados mostram que:
- apenas 56% das crianças estão alfabetizadas na idade adequada
- milhares de redes apresentam níveis críticos
- o país não atingiu metas estruturais do PNE
➡️ Trata-se de um problema sistêmico, persistente e de alto impacto social
3. A contribuição crítica do iDados: o problema começa na definição
A análise do Instituto iDados traz um ponto estrutural:
o sistema brasileiro de alfabetização mede um conceito que não está claramente definido
A crítica identifica duas fragilidades:
3.1 Fragilidade conceitual
- a BNCC não define operacionalmente alfabetização
- mistura dimensões distintas:
- decodificação
- leitura
- compreensão
- produção textual
➡️ Resultado: um constructo difuso e pouco delimitado
3.2 Fragilidade metodológica
- o ponto de corte (743) é definido por julgamento de especialistas
- sem uma definição prévia rigorosa
➡️ Isso gera circularidade metodológica
4. Limite da crítica: o iDados não oferece uma definição operacional completa
O IVEPESP destaca um ponto fundamental:
➡️ A análise do iDados, embora tecnicamente sofisticada, não apresenta uma definição completa e operacional de alfabetização
O documento:
- identifica corretamente o problema
- sugere elementos essenciais (decodificação, leitura de palavras, etc.)
- mas não estabelece critérios objetivos, mensuráveis e normativos
Ou seja:
desconstrói o modelo atual, mas não o reconstrói plenamente
5. Síntese: sistema sofisticado sobre base conceitual insuficiente
A combinação das análises leva a uma conclusão clara:
- ✔️ o Brasil avançou na mensuração
- ❌ mas não definiu com precisão o que está medindo
➡️ O risco é operar com métricas tecnicamente complexas, porém conceitualmente frágeis
6. Proposta do IVEPESP: definição rigorosa de alfabetização (base ciência cognitiva / padrão internacional)
Diante dessa lacuna, o IVEPESP propõe a seguinte definição:
Definição operacional de alfabetização
Uma criança é considerada alfabetizada quando demonstra domínio inicial, preciso e automatizado do sistema alfabético de escrita, sendo capaz de decodificar e codificar palavras, pseudopalavras e textos simples com precisão e fluência suficientes para permitir leitura e escrita autônomas em nível inicial.
7. Componentes essenciais da alfabetização
A alfabetização deve ser definida a partir de seis dimensões fundamentais:
- Consciência fonêmica
- Domínio do princípio alfabético
- Decodificação (inclusive pseudopalavras)
- Codificação escrita (ditado)
- Fluência inicial de leitura
- Compreensão literal básica
8. O que não deve ser confundido com alfabetização
Não são critérios definidores de alfabetização básica:
- interpretação complexa
- produção textual elaborada
- domínio ortográfico completo
- letramento amplo
➡️ Essas são etapas posteriores do desenvolvimento leitor
9. Critério operacional proposto (mensurável)
Uma criança deve ser considerada alfabetizada se demonstrar:
- leitura correta de palavras frequentes
- leitura de pseudopalavras (prova de decodificação real)
- leitura fluente de texto curto
- escrita sob ditado com correspondência fonema-grafema consistente
10. Implicações para política pública
A adoção dessa definição implica:
1. Redefinição dos indicadores nacionais
Separar claramente:
- alfabetização básica
- leitura avançada
- letramento
2. Revisão do ponto de corte (743)
- incorporar critérios objetivos
- reduzir dependência de julgamento subjetivo
3. Formação docente baseada em evidência
- foco explícito em ciência cognitiva da leitura
4. Uso de IA e ciência de dados
- diagnóstico individualizado
- monitoramento contínuo
- modelos explicáveis (XAI)
11. Conclusão: o Brasil precisa redefinir alfabetização antes de medi-la
A principal conclusão desta nota é inequívoca:
O Brasil avançou na mensuração da alfabetização, mas ainda não definiu com rigor o que significa ser alfabetizado.
E mais:
Sem uma definição clara, qualquer indicador — por mais sofisticado — será limitado.
O IVEPESP entende que:
➡️ A alfabetização deve ser tratada como infraestrutura estratégica nacional
➡️ E sua definição deve ser cientificamente fundamentada, operacionalmente clara e mensurável
Autores
Prof. Dr. Helio Dias
Presidente do IVEPESP
https://ivepesp.org.br/membro/helio-dias/
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