O Instituto para Valorização da Educação e da Pesquisa no Estado de São Paulo (IVEPESP) vem, por meio desta nota, aprofundar e integrar reflexões recentes sobre inteligência artificial, formação educacional e os riscos estruturais emergentes no cenário contemporâneo, à luz das transformações globais em curso.


1. A emergência de uma nova arquitetura de poder

O debate internacional sobre tecnologia atingiu um novo patamar. Não se trata mais apenas de inovação, produtividade ou transformação digital — mas da consolidação de uma nova arquitetura de poder.

O recente posicionamento de Alex Karp, CEO da Palantir Technologies, explicita com clareza esse movimento: o software passa a ser compreendido como infraestrutura estratégica, a inteligência artificial como instrumento de defesa e o setor tecnológico como ator indissociável do Estado.

Essa visão não é teórica. É operacional.

Ela estabelece uma premissa central: quem dominar a integração entre dados, algoritmos e capacidade decisória definirá o futuro econômico, político e geopolítico.


2. A lacuna silenciosa: a crise da formação

Enquanto essa nova arquitetura se consolida, um processo mais silencioso — e potencialmente mais grave — avança:

a desestruturação da base cognitiva da sociedade.

Como destacado no texto base desta nota , a aprendizagem já não ocorre predominantemente na escola. Ela foi deslocada para um ecossistema difuso composto por redes sociais, plataformas digitais e fluxos contínuos de informação.

Esse deslocamento não é apenas espacial. É estrutural:

  • Informação passou a ser confundida com conhecimento
  • Velocidade passou a ser confundida com compreensão
  • Exposição passou a ser confundida com formação

O resultado é a fragmentação da autoridade cognitiva — um fenômeno no qual os critérios tradicionais de validação do conhecimento deixam de ser compartilhados.


3. A assimetria civilizatória emergente

Forma-se, assim, uma assimetria profunda:

  • De um lado: sistemas cada vez mais sofisticados, baseados em IA, capazes de operar decisões em escala massiva
  • De outro: indivíduos expostos a ambientes de aprendizagem fragmentados, com perda progressiva de foco, profundidade e capacidade analítica

Essa não é apenas uma crise educacional.

É uma crise civilizatória.

Não existe:

  • decisão qualificada sem formação
  • interpretação de dados sem repertório
  • autonomia sem estrutura cognitiva

A história demonstra que sistemas complexos não colapsam apenas por limitações tecnológicas, mas pela erosão de sua base humana.


4. O ponto cego das estratégias tecnológicas

O grande ponto cego das atuais estratégias globais — inclusive das mais sofisticadas — é ignorar a questão fundamental:

quem são os sujeitos que irão operar os sistemas que estamos construindo?

A discussão sobre inteligência artificial, soberania tecnológica e poder estratégico permanece incompleta sem uma política robusta de formação humana.

Essa lacuna é especialmente crítica no Brasil, onde já identificamos, em notas anteriores do IVEPESP:

  • fragilidades na formação docente
  • desalinhamento entre políticas educacionais e evidências empíricas
  • baixa valorização das atividades de ensino frente à pesquisa
  • desigualdades estruturais no desenvolvimento de competências cognitivas

5. O reposicionamento necessário da escola

A escola não desapareceu — mas perdeu centralidade.

E, mais importante: ainda não redefiniu seu papel no novo ecossistema de aprendizagem.

O desafio não é competir com o digital.

É fazer o que o digital não consegue fazer com consistência:

  • Curadoria qualificada do conhecimento
  • Construção de foco e atenção
  • Formação de critérios
  • Acompanhamento humano estruturado

Se a informação é abundante, o valor está na seleção.
Se a atenção é escassa, o valor está na profundidade.
Se a autoridade é fragmentada, o valor está na reconstrução de referências.


6. Implicações para o Brasil: uma agenda estratégica

À luz dessa análise, o IVEPESP propõe a incorporação imediata das seguintes diretrizes nas políticas públicas e institucionais:

6.1 Formação como eixo da soberania tecnológica

A política de inteligência artificial deve incluir explicitamente a formação cognitiva como componente estratégico nacional.

6.2 Redefinição das funções da escola

Revisão das Diretrizes Curriculares Nacionais (DCNs) para incorporar:

  • competências de curadoria de informação
  • formação em pensamento crítico e analítico
  • desenvolvimento da atenção e da profundidade cognitiva

6.3 Integração entre educação e ecossistema digital

Construção de uma arquitetura institucional que reconheça e organize os novos mediadores do aprendizado.

6.4 Valorização do ensino nas universidades

Reequilíbrio entre ensino, pesquisa, inovação e extensão, com métricas que reconheçam efetivamente a formação de qualidade.

6.5 Uso estratégico de IA na educação

Aplicação de inteligência artificial não apenas para eficiência administrativa, mas para:

  • personalização da aprendizagem
  • identificação de lacunas cognitivas
  • fortalecimento da formação estruturada

7. Conclusão: a escolha estrutural

O Brasil — e o mundo — encontra-se diante de uma escolha histórica:

  • construir sistemas cada vez mais sofisticados sustentados por bases humanas frágeis
  • ou investir na formação de indivíduos à altura dos sistemas que estão sendo criados

A tecnologia não resolverá esse dilema.

Ela apenas o tornará mais evidente.

A decisão será tomada no campo da educação.

E, mais especificamente, dentro das escolas.


Autores

Prof. Dr. Helio Dias
Presidente do IVEPESP
https://ivepesp.org.br/membro/helio-dias/
[email protected]

Prof. Dr. Luiz Antonio Tozi
Diretor da Faculdade de Tecnologia de São José dos Campos
Ex-Secretário Executivo do Ministério da Educação
[email protected]