O Brasil enfrenta, há décadas, um paradoxo estrutural em seu sistema de ciência e tecnologia: ao mesmo tempo em que investe recursos públicos relevantes em pesquisa científica, impõe barreiras burocráticas e operacionais que atrasam, encarecem e, não raramente, inviabilizam a execução desses projetos.
Entre os gargalos mais críticos está o processo de importação de insumos científicos — reagentes, amostras biológicas, materiais laboratoriais e modelos experimentais — que, apesar de representarem uma fração mínima do total das importações nacionais, estão sujeitos a procedimentos complexos, morosos e desproporcionais ao seu risco e impacto econômico.
É recorrente que insumos essenciais levem meses para chegar aos laboratórios brasileiros, comprometendo cronogramas, resultados científicos e a competitividade internacional da pesquisa nacional. Em muitos casos, o custo logístico e burocrático supera o próprio valor do material importado.
Diante desse cenário, o Instituto para Valorização da Educação e da Pesquisa no Estado de São Paulo (IVEPESP) propõe uma medida estruturante, simples e alinhada às melhores práticas internacionais:
1. Proposta: Importação direta por pesquisadores credenciados
Permitir que pesquisadores cadastrados em órgãos oficiais de fomento, como o CNPq, realizem diretamente a importação de insumos científicos necessários às suas pesquisas, sem a obrigatoriedade de intermediação institucional ou comercial.
O modelo se inspira em mecanismos já consolidados, como a importação de livros para uso pessoal, e visa conferir agilidade, autonomia e eficiência ao sistema científico.
2. Critérios de elegibilidade e controle
A proposta é plenamente compatível com mecanismos de controle e rastreabilidade. Sugerimos os seguintes parâmetros:
2.1. Credenciamento do pesquisador
- Apenas pesquisadores com cadastro ativo em plataformas oficiais (ex.: CNPq) poderiam acessar o sistema.
2.2. Vinculação a projetos aprovados
- O valor total das importações seria limitado ao orçamento previamente aprovado por agências de fomento, como:
- FAPESP
- CNPq
- FINEP
2.3. Tipos de produtos autorizados
- Reagentes e insumos laboratoriais não controlados
- Amostras biológicas de baixo risco (DNA, RNA, anticorpos etc.)
- Materiais sem valor comercial relevante fora do contexto científico
- Modelos experimentais (ex.: camundongos entre laboratórios), quando não disponíveis comercialmente no país
2.4. Rastreamento e transparência
- Registro digital de todas as importações
- Integração com sistemas das agências de fomento
- Auditoria ex post baseada em risco
3. Impactos esperados
A implementação dessa medida produziria ganhos imediatos e estruturais:
3.1. Redução de prazos
- Diminuição drástica do tempo de aquisição de insumos (de meses para semanas ou dias)
3.2. Redução de custos públicos
- Eliminação de taxas e margens de intermediários
- Uso mais eficiente dos recursos públicos destinados à pesquisa
3.3. Aumento da competitividade científica
- Maior capacidade de resposta a agendas internacionais
- Redução da defasagem tecnológica dos laboratórios brasileiros
3.4. Eficiência sistêmica
- Liberação das estruturas administrativas das universidades para atividades de maior valor estratégico
4. Alinhamento internacional
Países com sistemas científicos avançados operam sob regimes muito mais flexíveis e orientados à confiança institucional no pesquisador. O modelo proposto aproxima o Brasil dessas práticas, sem abrir mão de controle e responsabilidade fiscal.
5. Considerações finais
A ciência brasileira não precisa apenas de mais recursos — precisa de melhores condições operacionais para utilizar, com eficiência, os recursos já disponíveis.
A proposta de importação direta por pesquisadores representa uma mudança de paradigma: substitui o excesso de controle prévio por um modelo de confiança qualificada, com monitoramento inteligente e foco em resultados.
Trata-se de uma medida de baixo custo, alta viabilidade e impacto imediato.
O IVEPESP entende que o Brasil precisa urgentemente remover obstáculos artificiais à produção científica.
Podemos — e devemos — fazer mais com menos.
Os pesquisadores brasileiros já demonstraram sua capacidade.
É hora de o sistema confiar neles.
Autores
Prof. Dr. Helio Dias
Presidente do IVEPESP
https://ivepesp.org.br/membro/helio-dias/
[email protected]
Profa. Dra. Mayana Zatz
Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo
Ex Pró-Reitora de Pesquisa da USP
Coordenadora do Centro de Estudos do Genoma Humano da USP
[email protected]

