O debate recente sobre a trajetória da dívida pública brasileira tem apontado um cenário preocupante: a possibilidade de que, já em 2027, a dívida bruta do governo geral se aproxime ou atinja 100% do PIB.

Mais do que um número simbólico, esse patamar representa um ponto crítico de inflexão para economias emergentes — especialmente aquelas que, como o Brasil, apresentam histórico de baixa poupança, elevada rigidez orçamentária e crescimento modesto da produtividade.


1. O efeito deslocamento: quando a dívida expulsa o futuro

À medida que a dívida cresce, o custo de seu financiamento também aumenta. No caso brasileiro, isso se traduz em:

  • Elevação estrutural da taxa de juros
  • Crescente parcela do orçamento comprometida com pagamento de juros
  • Redução do espaço fiscal para investimentos estratégicos

Esse fenômeno — conhecido como crowding out — tem consequências diretas sobre áreas não obrigatórias, como:

  • Educação básica e superior
  • Ciência, tecnologia e inovação
  • Formação de capital humano

Quanto mais se paga pelo passado, menos se investe no futuro.


2. Educação sob pressão: o risco da estagnação qualitativa

O Brasil já destina cerca de 6% do PIB à educação, nível comparável a países da OCDE, sem que isso se traduza em resultados equivalentes.

Com o agravamento da dívida pública, três efeitos são previsíveis:

  • Compressão orçamentária, afetando infraestrutura, formação docente e inovação educacional
  • Redução da capacidade de expansão, especialmente no ensino técnico e superior
  • Perpetuação da baixa qualidade, com impacto direto na produtividade

3. Ciência e tecnologia: a primeira vítima invisível

Em contextos de restrição fiscal, ciência e inovação tendem a ser os primeiros alvos de cortes:

  • Redução de bolsas (CAPES, CNPq)
  • Paralisação de projetos estratégicos
  • Fuga de talentos
  • Enfraquecimento das universidades e ICTs

Trata-se de um impacto silencioso, porém cumulativo, que compromete a competitividade nacional no longo prazo.


4. O ciclo perverso da estagnação

A deterioração fiscal e o enfraquecimento da educação e da ciência alimentam um ciclo negativo:

  1. Menor investimento em capital humano
  2. Queda da produtividade
  3. Crescimento econômico baixo
  4. Arrecadação limitada
  5. Aumento da dívida

Sem intervenção estrutural, o Brasil corre o risco de consolidar um regime de alta dívida com baixo crescimento.


5. A questão central: cortar gastos resolve?

A resposta é sim — mas apenas parcialmente, e com alto risco se mal conduzida.

O problema fiscal brasileiro não é apenas o volume de gastos, mas sua composição e rigidez.

Hoje, mais de 90% do orçamento é composto por despesas obrigatórias, o que faz com que ajustes fiscais recaiam, de forma recorrente, sobre:

  • Investimentos
  • Educação discricionária
  • Ciência e inovação

Ou seja, o ajuste tem penalizado sistematicamente o futuro do país.


6. Seção propositiva — O caminho para evitar a dívida de 100% do PIB

O IVEPESP defende que o enfrentamento da trajetória da dívida pública exige uma abordagem estrutural, baseada em quatro eixos:


6.1. Ajuste fiscal estrutural (e não linear)

É imprescindível enfrentar os verdadeiros vetores de crescimento da despesa:

  • Revisão de dinâmicas previdenciárias
  • Redução da rigidez orçamentária
  • Reavaliação de vinculações automáticas

Além disso:

  • Revisão de subsídios e renúncias fiscais sem comprovação de impacto
  • Eliminação de ineficiências administrativas

👉 Cortes lineares são tecnicamente frágeis e socialmente regressivos.


6.2. Qualidade do gasto público como prioridade nacional

O Brasil precisa migrar de um modelo baseado em volume de gasto para um modelo baseado em efetividade:

  • Avaliação sistemática de políticas públicas
  • Redirecionamento de recursos para programas com evidência de impacto
  • Uso de dados e inteligência artificial na gestão pública

6.3. Blindagem estratégica da educação, ciência e inovação

Este é o ponto central desta nota:

Educação e ciência não são despesas ajustáveis — são instrumentos de sustentabilidade fiscal de longo prazo.

Portanto, é necessário:

  • Proteger investimentos em educação básica de qualidade
  • Priorizar formação de professores
  • Expandir o ensino técnico e profissional
  • Garantir previsibilidade para CAPES, CNPq e ICTs

👉 Cortar essas áreas pode melhorar o resultado fiscal no curto prazo, mas agrava a trajetória da dívida no longo prazo.


6.4. Crescimento econômico como eixo do ajuste

A sustentabilidade da dívida depende também do crescimento do PIB.

Sem crescimento:

  • A arrecadação estagna
  • A dívida aumenta mesmo com esforço fiscal

Por isso, é essencial:

  • Integrar universidades, ICTs e setor produtivo
  • Ampliar instrumentos como a Lei do Bem
  • Estimular inovação e produtividade
  • Incorporar tecnologias emergentes, como inteligência artificial

7. Conclusão

O debate sobre a dívida pública brasileira não pode ser reduzido a uma escolha simplista entre gastar mais ou cortar gastos.

A questão central é como o Brasil gasta e no que escolhe investir.

Ajustes fiscais baseados em cortes indiscriminados — especialmente sobre educação, ciência e inovação — podem produzir alívio momentâneo, mas comprometem estruturalmente o futuro do país.

Evitar uma dívida próxima de 100% do PIB exige mais do que contenção: exige estratégia, prioridade e visão de longo prazo.

Mais do que equilibrar contas, é preciso garantir que o Brasil continue capaz de crescer, inovar e formar sua próxima geração.


Prof. Dr. Helio Dias
Presidente do IVEPESP
https://ivepesp.org.br/membro/helio-dias/
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Agradecimento:
O IVEPESP registra agradecimento ao Professor Carlos Luque, da FIPE-USP, pela leitura atenta e valiosas sugestões que contribuíram para o aprimoramento desta nota.