O debate internacional sobre Inteligência Artificial, consolidado em eventos como o SXSW 2026, evidencia uma mudança conceitual profunda: a IA deixa de ser compreendida como mera ferramenta e passa a ser tratada como participante ativo nas redes sociotécnicas.
Essa transição dialoga diretamente com a obra de Bruno Latour e com a Teoria Ator-Rede, na qual humanos e não humanos coexistem como actantes, ou seja, elementos capazes de produzir efeitos reais nas dinâmicas sociais.
No contexto atual, a Inteligência Artificial emerge como um actante estratégico, influenciando decisões, reorganizando processos e redefinindo relações de poder.
1. Do conceito à prática: o caso do mercado imobiliário
O mercado imobiliário oferece um dos exemplos mais claros dessa transformação.
Tradicionalmente baseado em:
- experiência do corretor
- análise comparativa manual
- intermediação humana
O setor passa a incorporar sistemas de IA que:
- realizam precificação dinâmica com múltiplas variáveis
- antecipam comportamento de compradores
- automatizam estratégias de venda
- definem prioridades comerciais
Nesse novo cenário, a IA não apenas apoia decisões — ela participa ativamente da construção dessas decisões.
A precificação de um imóvel, por exemplo, deixa de ser uma estimativa subjetiva e passa a ser o resultado de um processo algorítmico que influencia diretamente:
- o tempo de venda
- o valor de mercado
- a estratégia comercial
A IA, portanto, assume o papel de co-agente no processo econômico, caracterizando-se claramente como um actante.
2. Gestão de condomínios: a emergência de redes sociotécnicas
Na gestão condominial, essa transformação é ainda mais evidente e imediata.
A operação de um condomínio envolve uma rede complexa de:
- moradores
- síndicos
- administradoras
- prestadores de serviço
- sistemas técnicos
A introdução da IA reconfigura essa rede.
2.1 Segurança condominial
Sistemas inteligentes podem:
- identificar padrões anômalos de acesso
- validar prestadores em tempo real
- cruzar dados operacionais e históricos
A IA passa a atuar como agente preventivo, influenciando decisões de acesso e segurança.
2.2 Gestão financeira e custos
A IA permite:
- prever inadimplência
- otimizar despesas operacionais
- simular cenários orçamentários
Nesse contexto, a IA não apenas analisa — ela orienta decisões financeiras, impactando diretamente a sustentabilidade do condomínio.
2.3 Manutenção preditiva
Com base em dados históricos e sensores, a IA pode:
- antecipar falhas em sistemas (elevadores, bombas, telhados)
- sugerir intervenções antes da ocorrência de danos
A lógica deixa de ser reativa e passa a ser preditiva, com a IA atuando como decisora técnica.
2.4 Mediação social
A IA também pode:
- responder demandas de moradores
- organizar prioridades
- mediar conflitos
Isso altera a dinâmica de governança, deslocando parte da mediação social para sistemas inteligentes.
3. A redefinição dos papéis humanos
A ascensão da IA como actante não elimina o papel humano — ela o transforma.
No mercado imobiliário e na gestão condominial:
- o corretor deixa de ser apenas intermediador e torna-se curador de decisões algorítmicas
- o síndico deixa de ser operador e passa a ser gestor de uma rede sociotécnica
A autoridade não desaparece, mas passa a ser compartilhada com sistemas inteligentes.
4. Implicações para governança e regulação
O reconhecimento da IA como actante impõe novos desafios:
4.1 Responsabilidade distribuída
- Quem responde por decisões influenciadas por IA?
- Como atribuir responsabilidade em sistemas híbridos?
4.2 Transparência
- Necessidade de explicabilidade (XAI)
- Rastreabilidade das decisões
4.3 Regulação
- Superação de modelos centrados apenas em agentes humanos
- Construção de marcos regulatórios baseados em redes
5. Proposição do IVEPESP
Diante desse cenário, o IVEPESP propõe:
5.1 Programa Nacional de IA Aplicada à Gestão Urbana e Imobiliária
Com foco em:
- condomínios inteligentes
- cidades conectadas
- eficiência energética e operacional
5.2 Plataforma de Dados Condominiais
- integração de dados históricos
- desenvolvimento de modelos preditivos
- apoio à tomada de decisão baseada em evidências
5.3 Diretrizes de Governança Sociotécnica
- definição de responsabilidades em sistemas híbridos
- adoção de práticas de explicabilidade (XAI)
- protocolos de uso ético da IA
5.4 Formação de novos profissionais
Capacitação de:
- síndicos
- administradores
- corretores
Para atuação em ambientes onde decisões são compartilhadas com IA.
6. Conclusão
A Inteligência Artificial já não pode ser compreendida apenas como tecnologia.
Ela é parte constitutiva das redes que organizam a economia, a gestão e a vida social.
No mercado imobiliário e nos condomínios, essa transformação é concreta, mensurável e irreversível.
Reconhecer a IA como actante não é apenas um avanço conceitual — é uma condição necessária para:
- governar melhor
- inovar com responsabilidade
- construir sistemas mais eficientes e transparentes
O desafio que se impõe ao Brasil não é apenas adotar a IA, mas definir conscientemente o papel que ela ocupará nas redes que estruturam nossa sociedade.
Prof. Dr. Helio Dias
Presidente do IVEPESP
https://ivepesp.org.br/membro/helio-dias/
[email protected]
Helio Henrique Villela Dias
Pesquisador em Inteligência Artificial e Ciência da Dados
https://ivepesp.org.br/membro/helio-henrique-villela-dias/