O Instituto para Valorização da Educação e da Pesquisa no Estado de São Paulo (IVEPESP), ao aprofundar o debate sobre a Inteligência Artificial no campo jurídico, propõe uma reflexão que articula fundamentos teóricos, experiências da prática profissional e desafios observados no cotidiano das faculdades e das diversas carreiras jurídicas.

A discussão sobre IA no Direito não pode ser restrita à dimensão tecnológica.

Ela é, sobretudo, pedagógica, institucional e ética.

1. O problema estrutural: formação jurídica e cultura acadêmica

O Brasil possui o maior número de cursos de Direito do mundo. A expansão ampliou acesso, mas evidenciou fragilidades formativas que antecedem a própria IA.

Uma questão relevante refere-se ao perfil do corpo docente. Em muitas instituições, a docência é atividade complementar a carreiras jurídicas principais. Essa realidade possui dupla dimensão:

✔ Ponto positivo: aproxima teoria e prática, permitindo ao aluno contato com situações reais;

⚠ Ponto crítico: limita dedicação pedagógica, continuidade acadêmica e aprofundamento metodológico.

O desafio reside na ausência de projeto pedagógico capaz de integrar prática profissional, rigor teórico e desenvolvimento cognitivo.

2. A IA e a desvalorização do esforço formativo

A experiência prática revela fenômeno preocupante: a IA vem sendo percebida por parte dos estudantes como substituta do processo formativo.

Observam-se:

  • Desinteresse pela elaboração de peças processuais;
  • Redução do esforço de leitura aprofundada;
  • Fragilização da pesquisa jurídica;
  • Dependência de respostas automatizadas;
  • Percepção equivocada de que diploma + IA equivalem à habilitação profissional.

Esse fenômeno decorre também de lacunas anteriores de formação, especialmente no desenvolvimento do raciocínio lógico e da capacidade argumentativa.

3. O déficit de raciocínio lógico e a importância da interdisciplinaridade

Destaca-se a dificuldade de alunos em extrair conclusões a partir de proposições simples, revelando:

  • Formação básica insuficiente;
  • Ausência de disciplinas voltadas à lógica;
  • Baixa interdisciplinaridade;
  • Déficit de cultura científica e analítica.

A inserção de disciplinas de Lógica jurídica ou Lógica geral mostra-se ainda mais relevante na era da IA.

A tecnologia amplia a necessidade de raciocínio crítico — não a reduz.

4. Limitações técnicas da IA e o risco da confiança acrítica

A experiência prática confirma limites conhecidos dos modelos de linguagem:

  • Possibilidade de citações inexistentes;
  • Precedentes fabricados;
  • Generalizações imprecisas;
  • Ausência de verificação factual automática.

Casos de sanção profissional decorrentes de uso acrítico da IA demonstram que a responsabilidade permanece humana.

5. Ética, plágio e responsabilidade acadêmica

A disseminação do uso de IA em trabalhos acadêmicos trouxe desafios relevantes:

  • Produção automatizada de TCCs;
  • Plágio disfarçado;
  • Redução do esforço autoral;
  • Fragilização da cultura de pesquisa.

O problema é simultaneamente tecnológico, formativo e ético.

6. IA além da advocacia: impacto nas múltiplas carreiras jurídicas

A formação jurídica prepara para diversas carreiras:

  • Magistratura;
  • Ministério Público;
  • Defensoria;
  • Procuradorias;
  • Delegacias;
  • Consultorias públicas e privadas.

Em todas elas, a IA introduz desafios semelhantes: apoio técnico relevante, mas risco de automatização acrítica e perda de sensibilidade contextual.

7. O papel institucional da IA

À luz da Constituição da República Federativa do Brasil de 1988, a decisão jurídica envolve interpretação, ponderação e responsabilidade institucional.

A IA pode:

✔ Apoiar pesquisa normativa;

✔ Estruturar argumentos;

✔ Mapear precedentes;

✔ Identificar incoerências;

✔ Ampliar capacidade analítica;

Mas não pode substituir formação jurídica, raciocínio crítico ou responsabilidade decisória.

8. Síntese institucional

A IA qualifica quando integrada a formação sólida.

Fragiliza quando utilizada para substituir o processo formativo.

O desafio central é educacional e ético.

A qualidade do ensino jurídico dependerá de:

  • Cultura de leitura aprofundada;
  • Valorização da lógica e interdisciplinaridade;
  • Formação ética consistente;
  • Governança acadêmica clara sobre uso de IA;
  • Consciência de que tecnologia não substitui maturidade profissional.

9. Conclusão

A Inteligência Artificial inaugura nova etapa do Direito, mas também expõe fragilidades históricas da formação jurídica brasileira.

A tecnologia não cria o problema — ela o revela.

A responsabilidade profissional permanece humana.

A IA pode ser instrumento de excelência.

Mas apenas quando utilizada por profissionais bem formados.

Autoria

Prof. Dr. Helio Dias

Presidente do IVEPESP

[email protected]

Prof. Dr. José Roberto Marques

Advogado, ex-Promotor de Justiça do Estado de São Paulo e membro do IVEPESP

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