1. Contexto
A recente publicação de diretrizes pelo CNPq sobre o uso de Inteligência Artificial (IA) na atividade científica representa um avanço relevante na consolidação de uma política nacional de integridade científica em um cenário de transformação tecnológica acelerada.
A incorporação da IA nos processos de produção do conhecimento deixou de ser uma possibilidade futura para tornar-se uma realidade presente e estrutural. Nesse contexto, iniciativas regulatórias são não apenas bem-vindas, mas necessárias.
2. Reconhecimento dos Avanços
O IVEPESP reconhece positivamente os seguintes pontos da política estabelecida:
- A legitimação do uso de IA na pesquisa científica;
- A exigência de transparência quanto ao uso de ferramentas de IA;
- A reafirmação da responsabilidade integral dos pesquisadores sobre os resultados produzidos;
- A preocupação com a integridade, originalidade e confiabilidade científica.
Esses elementos alinham o Brasil às melhores práticas internacionais no campo da ética em pesquisa.
3. Limitações Identificadas
Apesar dos avanços, a análise técnica do IVEPESP identifica uma limitação estrutural relevante na formulação atual:
A ausência de uma abordagem baseada em níveis de risco e impacto do uso da IA.
A norma vigente adota uma linguagem abrangente que tende a tratar usos distintos de IA sob um mesmo regime regulatório, sem distinguir adequadamente:
- usos operacionais de baixo impacto;
- usos assistivos intermediários;
- usos cognitivos de alto impacto;
- e usos com autonomia parcial ou total.
Essa abordagem pode gerar:
- sobrerregulação de práticas de baixo risco (como revisão gramatical);
- insegurança interpretativa para pesquisadores;
- burocratização desnecessária da atividade científica;
- e potencial desincentivo à adoção responsável de tecnologias inovadoras.
4. Referência Internacional
A política editorial da Nature exemplifica uma abordagem mais madura e proporcional, ao estabelecer distinções claras entre diferentes tipos de uso de IA.
Em particular, a Nature explicita que:
o uso de IA para “AI-assisted copy editing” — correções de gramática, estilo e legibilidade — não requer declaração formal.
Essa diferenciação evidencia a importância de separar:
- intervenções formais (sem impacto no conteúdo científico)
de - intervenções substantivas (que afetam a produção do conhecimento)
5. Proposta do IVEPESP
O IVEPESP propõe ao CNPq a evolução da atual política para um modelo baseado em níveis de risco e impacto epistemológico, estruturado da seguinte forma:
Nível 1 — Uso Operacional (Baixo Risco)
- Correção gramatical
- Revisão de estilo
- Tradução
📌 Proposta: dispensa de declaração obrigatória
Nível 2 — Uso Assistivo (Risco Moderado)
- Sugestões de estrutura textual
- Apoio à redação
- Organização de ideias
📌 Proposta: declaração simplificada
Nível 3 — Uso Cognitivo (Alto Risco)
- Geração de hipóteses
- Análise de dados com IA
- Interpretação de resultados
📌 Proposta:
- declaração obrigatória detalhada
- rastreabilidade metodológica
Nível 4 — Uso com Autonomia Parcial (Risco Crítico)
- Agentes autônomos
- Sistemas de pesquisa automatizados
📌 Proposta:
- regulação específica
- novos modelos de governança científica
6. Fundamentação Conceitual
A proposta do IVEPESP está alinhada com a evolução internacional da governança de IA, que transita de uma visão:
instrumental (IA como ferramenta)
para uma visão:
relacional e sistêmica (IA como participante nos processos de produção de conhecimento)
Essa mudança exige uma regulação que reconheça diferentes graus de agência da IA, evitando tanto a subregulação quanto a sobrerregulação.
7. Recomendações Institucionais
O IVEPESP recomenda:
- A revisão da portaria vigente com base em critérios de proporcionalidade regulatória;
- A criação de um grupo de trabalho multidisciplinar;
- A elaboração de diretrizes complementares por área do conhecimento;
- O desenvolvimento de protocolos de boas práticas para pesquisadores.
8. Considerações Finais
A regulação do uso de IA na ciência não deve ser orientada pelo receio tecnológico, mas pela compreensão qualificada de seus impactos.
Uma política eficaz deve:
- preservar a integridade científica;
- estimular a inovação responsável;
- e oferecer segurança jurídica e operacional aos pesquisadores.
O Brasil tem a oportunidade de construir uma referência internacional em governança de IA na ciência — desde que adote uma abordagem baseada em evidências, proporcionalidade e clareza conceitual.
Autores
Helio Dias
Instituto para Valorização da Educação e da Pesquisa no Estado de São Paulo (IVEPESP)
https://ivepesp.org.br
Helio Henrique Villela Dias
Engenheiro de Computação, Cientista de Dados
IVEPESP
https://ivepesp.org.br/membro/helio-henrique-villela-dias/