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Publicado em 29 de maio de 2017 | Por:

Um ponto sem retorno (em julho de 2016 já havíamos desmatado 19,5%)

Foi algo saído diretamente do Livro de Jó. No meio da Grande Depressão da década de 1930, algum agricultor desconhecido do Meio-Oeste americano, sem consciência do que fazia, derrubou algumas árvores que mergulharam o centro do continente norte-americano numa praga ambiental: o “Dust Bowl”.

Gigantescas tempestades de areia varreram as grandes planícies e paralisaram durante anos a agricultura praticada nelas. A agricultura americana só conseguiu voltar ao que é hoje graças ao plantio maciço de árvores, fruto de um grande programa governamental chamado Civilian Conservation Corps, e à adoção de métodos melhores de cultivo.

Hoje a Amazônia e o Brasil estão à beira de uma quebra semelhante de sistema. A diferença é que o risco é cientificamente compreendido e amplamente reconhecido.
Essa compreensão se baseia nos elegantes estudos científicos brasileiros de Eneas Salati na década de 1970, mostrando que a Amazônia produz metade de sua própria precipitação pluviométrica, através da chuva que evapora das superfícies complexas da floresta.

A umidade na massa de ar móvel cai na forma de chuva e repete o processo enquanto se desloca em sentido oeste. Isso ocorre a todo instante. Essa foi, na verdade, uma das descobertas científicas mais importantes do século 20: em vez de a vegetação ser simplesmente consequência do clima, a ciência demonstrou que a vegetação afeta o clima.

Desde o início o estudo impôs a pergunta de quanto desmatamento levaria esse ciclo hidrológico a erodir, trazendo à tona um ponto de inflexão que levaria à morte da floresta amazônica. Hoje sabemos que, além do desmatamento, o uso amplo de queimadas e as mudanças climáticas estão todos empurrando o sistema amazônico em direção a um ponto sem retorno.

É difícil fazer uma estimativa precisa de onde se situa esse ponto, mas aqueles de nós que acompanhamos esses estudos pensamos que é provavelmente quando 20% da floresta tiver sido derrubada.

Um fato preocupante é que as secas históricas de 2005 e 2010 foram provavelmente os primeiros sinais indicativos de que o ponto de inflexão está próximo. A Amazônia não é um sistema fechado.

A diferença entre o “Dust Bowl” e hoje é que entendemos o funcionamento do sistema amazônico e não ignoramos a realidade de que simplesmente um incremento de desflorestamento poderá empurrar esse sistema além do ponto de inflexão.

No momento, interesses econômicos no Pará estão promovendo leis que vão degradar as áreas nacionais protegidas já existentes. Na semana passada, o Senado ratificou duas medidas provisórias que reduzem áreas de conservação na Amazônia.

Uma das grandes vantagens do progresso humano é que ele aprofunda a compreensão da importância do meio ambiente, de como ele funciona e como pode ser gerido com prudência para beneficiar o homem. O momento atual exige liderança.

THOMAS LOVEJOY, professor de ciência e política ambiental na Universidade George Mason (EUA), trabalha na Amazônia desde 1965



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