A recente matéria publicada pela Folha de S.Paulo (02/03/2026) destaca um marco relevante para a saúde pública brasileira: a realização de telecirurgias robóticas no âmbito do SUS pela Faculdade de Medicina da USP, com cirurgiões operando à distância por meio de consoles especializados enquanto o robô atua junto ao paciente no Hospital Universitário.
A iniciativa demonstra a consolidação de uma nova fronteira tecnológica na medicina brasileira: a integração entre cirurgia robótica, conectividade de alta velocidade e formação acadêmica de excelência. O procedimento amplia a precisão cirúrgica, reduz sangramento e acelera a recuperação, além de representar um caminho promissor para reduzir desigualdades regionais no acesso à alta complexidade, especialmente em um país de dimensões continentais.
Cirurgias já realizadas com sucesso por sistemas robóticos
A cirurgia robótica encontra-se consolidada em diversas especialidades, sobretudo naquelas que exigem alta precisão anatômica:
- Prostatectomia radical (câncer de próstata)
- Histerectomia e cirurgias ginecológicas oncológicas
- Cirurgias urológicas complexas
- Cirurgias colorretais
- Ressecções pulmonares
- Procedimentos bariátricos e digestivos avançados
Esses procedimentos frequentemente apresentam menor trauma cirúrgico, menor perda sanguínea e recuperação mais rápida quando comparados à cirurgia convencional aberta.
Tecnologia assistida na oftalmologia: o caso da catarata
Na oftalmologia, a cirurgia de catarata — um dos procedimentos mais realizados no Brasil e no mundo — já incorpora tecnologias avançadas de automação, como o uso do laser de femtosegundo, que automatiza etapas essenciais do procedimento:
- Incisões corneanas de alta precisão
- Abertura da cápsula do cristalino
- Fragmentação controlada do cristalino
Embora não seja uma cirurgia robótica teleoperada nos moldes da urologia ou ginecologia, trata-se de exemplo claro de tecnologia assistida por sistemas computadorizados, elevando segurança e previsibilidade.
Novo eixo estratégico: formação médica para a era da robótica e da telemedicina
A expansão da telecirurgia no SUS impõe um debate estruturante sobre a formação médica no Brasil.
Atualmente, as Diretrizes Curriculares Nacionais do curso de Medicina priorizam a formação generalista e não contemplam, de forma sistemática, competências em:
- Robótica médica
- Telecirurgia
- Simulação avançada
- Integração com engenharia biomédica
- Sistemas digitais aplicados à prática cirúrgica
A formação estruturada em cirurgia robótica ocorre predominantemente na residência médica e, ainda assim, de forma concentrada em poucos centros de excelência.
Se o Brasil pretende expandir a cirurgia robótica e a teleassistência como política pública, será necessário:
- Atualizar currículos de graduação e residência.
- Investir em laboratórios de simulação avançada.
- Estimular formação interdisciplinar entre Medicina, Engenharia, Ciência de Dados e Tecnologia da Informação.
- Garantir certificação e padronização nacional de competências.
Sem essa base formativa, corre-se o risco de ampliar desigualdades tecnológicas e concentrar expertise em poucos polos.
Considerações finais
A telecirurgia robótica não substitui o investimento estrutural na rede de saúde, mas pode se tornar ferramenta estratégica de ampliação de acesso, qualificação assistencial e modernização do SUS.
O Brasil dispõe de competência científica, infraestrutura universitária e capacidade institucional para liderar essa agenda. O desafio é transformá-la em política pública escalável, sustentável e alinhada à formação de recursos humanos altamente qualificados.
O IVEPESP entende que inovação tecnológica em saúde deve caminhar de forma integrada com planejamento educacional, governança pública e responsabilidade fiscal.
Prof. Dr. Helio Dias
Presidente do IVEPESP
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