Entre 5 e 9 de setembro de 1988, Sorocaba recebeu a XI Reunião de Trabalho sobre Física Nuclear no Brasil, encontro que reuniu cerca de 190 físicos nucleares, além de pesquisadores convidados dos Estados Unidos, Argentina e Portugal. A Comissão Organizadora era coordenada pelo físico Hélio Dias, do Instituto de Física da Universidade de São Paulo – IFUSP.
Mais do que um encontro destinado à apresentação e discussão de resultados científicos, a reunião procurou aproximar a comunidade de Física Nuclear de uma sociedade que, naquele momento, acompanhava com grande interesse — e também preocupação — o desenvolvimento do programa nuclear brasileiro.
Sorocaba encontrava-se no centro dessa discussão em razão da proximidade com o Centro Experimental Aramar, em Iperó, onde a Marinha desenvolvia tecnologia relacionada ao enriquecimento de urânio e ao programa de propulsão nuclear.
Uma reunião científica aberta ao debate público
A edição de 6 de setembro de 1988 do jornal Cruzeiro do Sul registrou essa preocupação já em sua cobertura da abertura do encontro.
Sob o título “Reunião terá mesa-redonda hoje”, o jornal anunciou para aquela noite, às 20 horas, no Teatro Municipal Teotônio Vilela, a mesa-redonda:
“Física Nuclear e a Utilização da Energia Nuclear”.
O encontro seria inclusive transmitido ao vivo pela Rádio Ipanema, ampliando seu alcance para além dos participantes da reunião científica.
Em entrevista ao jornal, o coordenador da XI Reunião, Hélio Dias, destacou que a intenção era promover maior integração entre a comunidade científica e a população, reservando espaço para que o público pudesse formular perguntas diretamente aos especialistas.
Era uma concepção bastante avançada para aquele momento: discutir ciência não apenas entre cientistas, mas diante da sociedade.
Goldemberg, Othon e diferentes visões sobre a política nuclear
A composição da mesa conferia especial relevância ao debate.
Participaram José Goldemberg, então reitor da Universidade de São Paulo; Othon Luiz Pinheiro da Silva, à frente da Coordenadoria de Projetos Especiais da Marinha – COPESP e figura central do desenvolvimento de Aramar; Cláudio Rodrigues, superintendente do IPEN; Carlos Eduardo de Almeida, do Instituto de Radioproteção e Dosimetria; Fernando de Souza Barros , que acompanhava pela Sociedade Brasileira de Física as questões relacionadas à política nuclear e Oscar Sala do IFUSP. A coordenação do debate foi feita pelo Gil da Costa Marques presidente da SBF.
Não se tratava, portanto, de uma mesa formada por participantes com uma única visão sobre o programa nuclear.
Ao contrário, estavam reunidos cientistas, dirigentes de instituições de pesquisa e o responsável por um dos principais projetos tecnológicos e estratégicos então desenvolvidos pelas Forças Armadas brasileiras.
“Físicos querem fiscalização nas atividades nucleares”
Na mesma edição de 6 de setembro, o Cruzeiro do Sul publicou outra reportagem significativa:
“Físicos querem fiscalização nas atividades nucleares”.
A discussão ultrapassava, portanto, aspectos estritamente científicos. Estavam em pauta a necessidade de salvaguardas, fiscalização, transparência e controle institucional das atividades nucleares brasileiras.
Fernando de Souza Barros defendia a existência de mecanismos independentes de acompanhamento das atividades nucleares, preocupação especialmente relevante em relação aos programas conduzidos pelas Forças Armadas.
O momento histórico ajuda a compreender a intensidade dessa discussão. O Brasil encontrava-se em pleno processo de redemocratização e a nova Constituição seria promulgada poucas semanas depois, em 5 de outubro de 1988.
Ciência, soberania tecnológica e controle democrático estavam, portanto, sendo discutidos simultaneamente.
“Marinha errou ao ocultar Aramar”
A repercussão da mesa-redonda ficou evidente na edição seguinte do Cruzeiro do Sul, de 7 de setembro de 1988.
A primeira página trouxe uma manchete de grande impacto:
“Marinha errou ao ocultar Aramar”.
A reportagem interna registrava declarações feitas durante o debate da noite anterior.
Othon Luiz Pinheiro da Silva reconheceu que a estratégia inicial de fornecer poucas informações sobre Aramar havia sido inadequada e que a falta de esclarecimentos contribuíra para aumentar a resistência e as preocupações da população em relação ao empreendimento.
A manifestação era particularmente significativa porque vinha justamente de quem ocupava posição central na condução técnica do projeto.
Goldemberg, por sua vez, enfatizou a importância de salvaguardas e mecanismos de controle das atividades nucleares, sustentando a necessidade de impedir que programas de natureza científica e tecnológica fossem conduzidos sem acompanhamento institucional adequado.
A matéria registra ainda que a mesa-redonda reuniu aproximadamente 350 pessoas, entre físicos nucleares e convidados, demonstrando que a iniciativa conseguiu ultrapassar os limites tradicionais de um encontro acadêmico.
Uma experiência que permanece atual
Vista quase quatro décadas depois, a reunião de Sorocaba oferece uma lição que continua extremamente atual.
O desenvolvimento científico e tecnológico em áreas estratégicas não pode depender apenas da excelência dos laboratórios, da qualificação dos pesquisadores ou da capacidade de realizar projetos complexos.
Ele precisa ser acompanhado de governança, transparência, comunicação pública e confiança social.
A experiência brasileira em energia nuclear demonstra também que soberania tecnológica e controle democrático não são objetivos incompatíveis. Pelo contrário: programas estratégicos tornam-se mais sólidos quando possuem legitimidade social e instituições capazes de fiscalizá-los.
Nesse sentido, a mesa-redonda organizada durante a XI Reunião de Trabalho sobre Física Nuclear no Brasil representou algo mais amplo do que uma atividade paralela de um congresso científico.
Naquela noite de 6 de setembro de 1988, em Sorocaba, pesquisadores, dirigentes científicos, responsáveis pelo programa nuclear e cidadãos encontraram-se no mesmo espaço para discutir abertamente um dos temas mais sensíveis da ciência e da política tecnológica brasileira.
E talvez esteja justamente aí uma das principais lições daquele episódio:
a ciência alcança plenamente sua dimensão pública quando é capaz não apenas de produzir conhecimento, mas também de explicá-lo, submetê-lo ao debate e dialogar com a sociedade sobre suas consequências.
Prof. Dr. Helio Dias
Presidente do IVEPESP
Instituto para a Valorização da Educação e da Pesquisa do Estado de São Paulo
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