O Brasil costuma celebrar suas universidades públicas como ilhas de excelência. E, de fato, elas existem. O problema é outro: elas não formam um sistema nacional. Formam um arquipélago — concentrado, desigual e sem estratégia.

Os principais rankings internacionais e nacionais — como Times Higher Education, QS World University Rankings, Scimago Institutions Rankings e o Ranking Universitário Folha — mostram um retrato incômodo: a excelência universitária brasileira está concentrada em poucos estados, especialmente em São Paulo.

A Universidade de São Paulo lidera todos os rankings com folga. Ao seu redor, no mesmo estado, orbitam instituições como a Universidade Estadual de Campinas e a Universidade Estadual Paulista, formando um verdadeiro sistema de classe mundial — algo raro em países em desenvolvimento.

Mas aqui está o ponto central que raramente é dito com clareza no debate público: isso não é apenas mérito acadêmico. É arquitetura institucional.


O segredo paulista: financiamento estável, automático e protegido

As universidades públicas estaduais de São Paulo não dependem de negociações anuais incertas. Elas operam com um modelo que garante previsibilidade e autonomia: um percentual fixo da arrecadação do ICMS é constitucionalmente vinculado ao financiamento das universidades.

Esse mecanismo produz três efeitos estruturais:

  • Previsibilidade orçamentária real (não sujeita a contingenciamentos discricionários)
  • Autonomia de gestão (com planejamento de longo prazo)
  • Capacidade contínua de investimento em pesquisa, infraestrutura e talentos

O mesmo princípio se aplica à Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo, que também possui percentual constitucional da receita do estado, garantindo fluxo estável e blindado de financiamento à pesquisa.

👉 Em termos simples: São Paulo transformou financiamento científico em política de Estado — não de governo.


O restante do Brasil opera no modelo oposto

Fora de São Paulo, a realidade é outra:

  • Orçamentos sujeitos a cortes e contingenciamentos
  • Dependência de decisões anuais do Executivo
  • Baixa previsibilidade para planejamento científico
  • Instabilidade na formação de equipes e projetos de longo prazo

Mesmo universidades de excelência como a Universidade Federal de Minas Gerais, a Universidade Federal do Rio Grande do Sul e a Universidade Federal do Rio de Janeiro operam sob esse ambiente de incerteza.

O resultado é inevitável: excelência pontual, mas não sistêmica.


O Brasil não tem um projeto universitário nacional

A concentração geográfica da excelência revela algo mais profundo: o Brasil nunca estruturou uma política nacional baseada em:

  • financiamento estável
  • metas de desempenho
  • governança orientada a resultados
  • integração com desenvolvimento econômico

Criamos expansão. Mas não criamos sistema.

O resultado é um paradoxo: o Brasil é uma das maiores economias do mundo, mas forma poucos talentos de alto nível em proporção à sua população — cerca de 24% dos jovens com ensino superior, contra aproximadamente 48% na OCDE.


A lição ignorada: o modelo já existe — mas não é replicado

O caso paulista não é exceção inexplicável. É um modelo replicável.

O problema é político.

Replicar esse modelo exigiria:

  • vinculação estável de receitas para universidades
  • fortalecimento das fundações estaduais de amparo à pesquisa
  • blindagem institucional contra ciclos políticos de curto prazo

Mas isso implica abrir mão de controle discricionário sobre orçamento — algo que o sistema político brasileiro historicamente resiste.


Sem financiamento estruturado, não haverá desenvolvimento

A discussão sobre produtividade e inovação no Brasil frequentemente ignora o fator mais básico: não existe ciência de ponta com financiamento instável.

Não existe planejamento científico com orçamento imprevisível.

E não existe sistema universitário competitivo quando cada instituição luta, ano após ano, para garantir sua própria sobrevivência.


O que precisa mudar — e com urgência

Se o Brasil quiser transformar seu potencial em realidade, precisa enfrentar o núcleo do problema:

  1. Instituir modelos de financiamento vinculados à receita, com previsibilidade real
  2. Replicar e fortalecer o modelo das Fundações de Amparo à Pesquisa em todos os estados
  3. Criar polos regionais de excelência com escala e continuidade
  4. Adotar avaliação rigorosa baseada em dados e desempenho
  5. Integrar universidades ao desenvolvimento econômico e tecnológico, com foco em IA e inovação

Conclusão

O Brasil não carece de talento. Não carece de universidades. E nem carece de exemplos bem-sucedidos.

O que falta é decisão política para transformar um caso de sucesso em política de Estado.

São Paulo mostra o caminho.

O restante do país ainda não decidiu segui-lo.


Prof. Dr. Helio Dias
Presidente do IVEPESP
https://ivepesp.org.br/membro/helio-dias/
e-mail: [email protected]