1. Contexto

O recente mapeamento global de habilidades conduzido pelo Fórum Econômico Mundial, por meio do relatório Future of Jobs 2025, evidencia uma transformação estrutural no mercado de trabalho global.

Os dados são contundentes:

  • 40% das habilidades atuais serão transformadas até 2030
  • 59% dos trabalhadores precisarão de requalificação
  • A inteligência artificial e a digitalização são os principais vetores dessa mudança

Trata-se de uma ruptura comparável às grandes revoluções industriais — porém em ritmo exponencial.


2. Diagnóstico: a nova hierarquia das habilidades

O estudo revela uma inversão profunda no valor das competências profissionais.

2.1. Habilidades em ascensão

As competências mais valorizadas deixam de ser operacionais e passam a ser cognitivas, tecnológicas e socioemocionais, com destaque para:

  • Pensamento analítico e crítico
  • Resolução de problemas complexos
  • Criatividade e inovação
  • Alfabetização digital e uso de IA
  • Resiliência, adaptabilidade e aprendizado contínuo

Essa combinação define o novo perfil profissional:
👉 um agente capaz de aprender continuamente, interpretar dados e tomar decisões em ambientes incertos.


2.2. Habilidades em declínio

Por outro lado, entram em rápida obsolescência:

  • Tarefas repetitivas e rotineiras
  • Funções administrativas padronizadas
  • Processos operacionais previsíveis

👉 Essas atividades são precisamente aquelas mais suscetíveis à automação por sistemas de IA.


3. Análise crítica: o atraso estrutural brasileiro

O Brasil encontra-se em descompasso estrutural com essa transformação global.

Apesar de avanços pontuais, persistem problemas graves:

3.1. Modelo educacional ultrapassado

  • Predominância de ensino conteudista
  • Baixa ênfase em competências cognitivas avançadas
  • Ausência de integração com tecnologias emergentes

3.2. Desconexão entre educação e mercado

  • Currículos desatualizados
  • Baixa interação universidade–empresa
  • Formação pouco orientada a resolução de problemas reais

3.3. Baixa capacidade de requalificação

  • Escassez de políticas públicas robustas de lifelong learning
  • Falta de incentivos à formação continuada
  • Desigualdade no acesso à educação de qualidade

4. Evidência empírica nacional

Experiências brasileiras demonstram que é possível operar em padrão internacional, quando há modelo adequado:

  • As ETECs do Centro Paula Souza apresentam desempenho equivalente ou superior a países da OCDE em avaliações internacionais
  • Instituições como USP, UNICAMP e ITA formam profissionais de excelência global
  • Iniciativas empresariais, como o uso de IA em larga escala na gestão de dados (ex.: setor de condomínios), já demonstram ganhos concretos de produtividade

👉 O problema, portanto, não é capacidade — é escala e política pública.


5. Risco sistêmico

A ausência de resposta coordenada pode levar o Brasil a um cenário de:

  • Desemprego estrutural crescente
  • Perda de competitividade internacional
  • Aprofundamento das desigualdades sociais
  • Dependência tecnológica externa

Em síntese:
👉 o país corre o risco de se tornar um consumidor passivo de tecnologia, e não um produtor.


6. Propostas do IVEPESP

Diante desse cenário, o IVEPESP propõe um conjunto de medidas estruturantes:


6.1. Reforma educacional orientada a competências

  • Inserção obrigatória de:
    • pensamento crítico
    • resolução de problemas
    • lógica e ciência de dados
  • Integração transversal de IA em todos os níveis de ensino

6.2. Política Nacional de Requalificação Contínua

  • Criação de um programa nacional de lifelong learning
  • Incentivos fiscais para empresas que capacitem seus trabalhadores
  • Plataformas públicas digitais de requalificação

6.3. Integração universidade–mercado

  • Expansão de programas de cooperação com empresas
  • Estímulo a projetos aplicados com dados reais
  • Revisão de barreiras regulatórias à atuação docente em projetos externos

6.4. Expansão do ensino técnico e tecnológico

  • Replicação do modelo das ETECs em escala nacional
  • Fortalecimento de institutos tecnológicos
  • Integração com demandas regionais produtivas

6.5. Estratégia nacional de inteligência artificial aplicada à educação

  • Uso de IA para personalização do ensino
  • Sistemas de avaliação baseados em dados
  • Desenvolvimento de plataformas educacionais inteligentes

7. Conclusão

O relatório do Fórum Econômico Mundial não é apenas um diagnóstico — é um alerta.

👉 O mundo está migrando rapidamente para uma economia baseada em habilidades complexas, adaptativas e tecnológicas.

O Brasil dispõe de ilhas de excelência, mas carece de uma estratégia nacional consistente.

Sem ação imediata, o país ampliará seu atraso relativo.
Com ação coordenada, poderá transformar essa transição em oportunidade histórica.


8. Encaminhamento

O IVEPESP se coloca à disposição para:

  • Apoiar a formulação de políticas públicas baseadas em evidências
  • Desenvolver projetos-piloto em educação e requalificação
  • Estabelecer parcerias com governos, empresas e instituições de ensino

Prof. Dr. Helio Dias
Presidente do IVEPESP
https://ivepesp.org.br/membro/helio-dias/
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