Há livros que nos oferecem conhecimento. Outros nos ajudam a compreender experiências que já vivemos ou estamos vivendo. Em determinadas circunstâncias, essas duas dimensões se encontram de maneira singular.

Foi o que ocorreu comigo ao receber e ler O Coração e o Cérebro – O Encontro que Cura, obra escrita pelos professores Euripedes Constantino Miguel, Fabio Biscegli Jatene e Paulo Manuel Pêgo-Fernandes, três destacados professores e médicos vinculados à Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP).

Ao me encaminhar o exemplar, meu colega Prof. Dr. Euripedes Constantino Miguel escreveu uma dedicatória que, naquele momento, já me sensibilizou, mas que adquiriu significado ainda maior após minha própria experiência cardiológica:

“Querido Hélio, torço pra que esse livro seja útil e para que tudo corra bem com os seus stents e com o coração.”

Pouco depois, passei por uma angioplastia coronária, com a implantação de um stent em uma das artérias do coração. O procedimento transcorreu muito bem. Mas a experiência permitiu que eu compreendesse, não apenas intelectualmente, mas também como paciente, uma das mensagens centrais que atravessam o livro: não existe uma separação absoluta entre aquilo que acontece no coração e aquilo que acontece em nossa mente.

Diante de uma doença, diagnóstico ou procedimento cardíaco, não é apenas o coração que está envolvido.

A pessoa inteira está envolvida.

E essa talvez seja uma das lições mais relevantes da obra.

Quando o conhecimento médico encontra a experiência humana

A medicina moderna conquistou avanços extraordinários.

Em pouco mais de um século, passamos de uma realidade em que inúmeras doenças cardiovasculares eram praticamente intratáveis para uma medicina capaz de diagnosticar alterações muito precocemente, visualizar com precisão o interior das artérias coronárias, identificar obstruções e tratá-las por meio de procedimentos minimamente invasivos.

A angioplastia coronária é um exemplo extraordinário dessa evolução.

Por meio de cateteres introduzidos no sistema vascular, o cardiologista intervencionista pode alcançar a artéria comprometida, tratar sua obstrução, restaurar adequadamente o fluxo sanguíneo e, quando indicado, implantar um stent destinado a manter o vaso aberto.

Para quem observa esse procedimento sob a perspectiva da ciência, trata-se de uma extraordinária conquista tecnológica.

Para quem está sobre a mesa de procedimentos, porém, existe outra dimensão.

Ali está uma pessoa.

Uma pessoa que sabe que há uma artéria de seu coração comprometida.

Que aguarda um procedimento.

Que confia nos médicos.

Que conhece as elevadas taxas de sucesso da intervenção, mas que, ainda assim, inevitavelmente pensa sobre aquilo que pode acontecer.

É justamente nesse momento que percebemos que estatísticas pertencem à medicina; expectativas e temores pertencem à condição humana.

O paciente pode conhecer racionalmente as probabilidades favoráveis. Pode compreender os avanços da ciência. Pode confiar plenamente na competência da equipe médica.

Mesmo assim, alguma ansiedade permanece.

Foi essa dimensão que encontrei retratada de forma particularmente sensível no livro.

O coração adoece, mas é o ser humano que recebe o diagnóstico

A especialização foi uma das grandes responsáveis pelo desenvolvimento da medicina contemporânea.

Temos cardiologistas, neurologistas, psiquiatras, cirurgiões, radiologistas, oncologistas e inúmeros outros especialistas que acumulam conhecimentos cada vez mais profundos sobre determinadas áreas.

Essa especialização é indispensável.

Entretanto, ela não pode nos fazer esquecer uma questão fundamental:

o organismo humano não está dividido da mesma maneira que os departamentos de uma universidade ou as especialidades de um hospital.

O coração se relaciona com o cérebro.

O cérebro responde ao que acontece no corpo.

Emoções produzem respostas fisiológicas.

A doença física pode produzir ansiedade, medo e depressão.

O estado emocional, por sua vez, influencia sono, comportamento, percepção de dor, adesão ao tratamento e qualidade de vida.

É precisamente essa compreensão integrada que torna tão sugestivo o título escolhido pelos autores:

O Coração e o Cérebro.

Não se trata apenas de aproximar duas especialidades médicas.

Trata-se de recuperar a unidade da pessoa.

O médico que também se tornou paciente

A participação do Prof. Euripedes Miguel confere à obra uma perspectiva muito particular.

Professor, psiquiatra, pesquisador e cientista de reconhecida trajetória acadêmica, Euripedes também vivenciou a experiência de estar do outro lado da relação médico-paciente ao enfrentar problemas cardíacos e procedimentos cirúrgicos.

Essa mudança de posição possui enorme significado.

O médico está acostumado a interpretar sintomas, avaliar exames, conhecer riscos e definir tratamentos.

Mas existe uma diferença profunda entre conhecer intelectualmente um risco e sentir-se pessoalmente submetido a ele.

Quando o médico se transforma em paciente, ele continua possuindo seu conhecimento científico. Mas passa a conhecer também outra realidade: a espera, a incerteza, a vulnerabilidade e a necessidade de confiar em outro profissional.

Nenhum título acadêmico elimina inteiramente essa experiência.

Nenhuma formação científica nos torna imunes ao medo.

Nenhum conhecimento estatístico retira completamente a inquietação diante da possibilidade de uma complicação.

E isso não representa fragilidade.

Representa simplesmente aquilo que todos compartilhamos: a condição humana.

Foi exatamente essa perspectiva que tornou minha leitura tão próxima daquilo que eu próprio havia acabado de vivenciar.

Minha experiência com a angioplastia

Minha experiência pessoal reforçou algumas das reflexões propostas pelo livro.

Antes de um procedimento cardíaco, há naturalmente uma dimensão racional. Conversamos com os médicos, avaliamos exames, conhecemos o diagnóstico, recebemos explicações sobre o tratamento e buscamos compreender aquilo que será realizado.

Mas existe igualmente uma dimensão subjetiva.

O intervalo entre o diagnóstico e o procedimento parece adquirir outro significado.

Começamos a observar nosso próprio corpo de maneira diferente.

Aquilo que antes era apenas o coração — trabalhando silenciosamente durante toda a vida — passa subitamente a ocupar nossos pensamentos.

Uma artéria, um exame ou um percentual de obstrução deixam de ser apenas informações médicas.

Passam a fazer parte de nossa própria história.

Foi precisamente aí que compreendi a pertinência do encontro proposto no livro entre coração e cérebro.

O coração precisava de uma intervenção.

Mas era o cérebro que interpretava as informações, construía expectativas, avaliava riscos e aguardava o resultado.

E havia ainda um terceiro elemento, fundamental:

a confiança.

A confiança também faz parte do cuidado

A medicina baseada em evidências exige diagnóstico correto, indicação adequada, conhecimento técnico, protocolos, equipamentos e profissionais qualificados.

Nada substitui isso.

Mas minha experiência como paciente reforçou uma convicção: a maneira como o médico se relaciona com o paciente também faz parte do tratamento.

Uma explicação clara reduz a incerteza.

Uma palavra segura transmite tranquilidade.

A disponibilidade para responder a uma pergunta pode diminuir uma ansiedade que nenhum exame conseguiria detectar.

A confiança estabelecida entre médico e paciente transforma a maneira pela qual atravessamos uma situação de vulnerabilidade.

Isso não significa afirmar que a confiança substitui medicamentos, procedimentos ou tecnologia.

Significa compreender que a medicina possui dimensões complementares.

Precisamos da ciência que identifica o problema.

Precisamos da tecnologia que permite tratá-lo.

Precisamos da competência do profissional que executa o procedimento.

E precisamos da relação humana que nos permite entregar nossos cuidados a outra pessoa.

Essa talvez seja uma das mais antigas e, ao mesmo tempo, mais contemporâneas dimensões da medicina.

Uma lição para a formação médica

É justamente nesse ponto que a reflexão trazida pela obra ultrapassa os limites da cardiologia e da psiquiatria e alcança diretamente a educação.

Como formar os médicos das próximas gerações?

As faculdades de medicina naturalmente precisam oferecer uma sólida formação científica.

O estudante deve compreender profundamente anatomia, fisiologia, farmacologia, genética, patologia, diagnóstico e tratamento.

Deverá também dominar progressivamente novas tecnologias, sistemas de apoio à decisão, inteligência artificial, medicina de precisão, robótica e análise de grandes volumes de dados.

Mas isso será suficiente?

Provavelmente não.

O médico do futuro também precisará aprender a ouvir.

Precisará saber explicar.

Precisará compreender aquilo que um paciente sente quando ouve um diagnóstico que pode modificar sua vida.

Precisará saber comunicar riscos sem provocar pânico.

Precisará reconhecer que, por trás de um exame, há uma história pessoal.

Por trás de uma imagem, existe uma família.

Por trás de um procedimento, existe alguém esperando voltar para casa.

Formar bons médicos continuará significando formar excelentes cientistas e profissionais. Mas deverá significar igualmente formar pessoas capazes de cuidar de outras pessoas.

A Inteligência Artificial torna essa discussão ainda mais importante

Vivemos um momento de profunda transformação da medicina.

A Inteligência Artificial já começa a auxiliar na interpretação de imagens, análise de prontuários, identificação de padrões, previsão de riscos, apoio a diagnósticos e desenvolvimento de novos medicamentos.

Nas próximas décadas, sua presença será ainda maior.

Essa evolução deve ser recebida com interesse e responsabilidade.

A IA poderá tornar a medicina mais precisa, preventiva, personalizada e eficiente.

Entretanto, quanto mais capacidade delegarmos às máquinas para processar informações, mais importante será compreendermos aquilo que permanece essencialmente humano.

Um algoritmo pode estimar riscos.

Pode reconhecer padrões invisíveis ao olhar humano.

Pode sugerir hipóteses diagnósticas.

Pode analisar milhares de exames em poucos segundos.

Mas o paciente que recebe a notícia de que precisa realizar uma cirurgia, uma angioplastia ou outro procedimento continuará procurando algo que não cabe inteiramente em uma equação:

ele procurará confiança.

Por isso, há um aparente paradoxo que devemos compreender.

Quanto mais tecnológica se tornar a medicina, mais importante será preservar sua dimensão humana.

Ciência e humanidade não são opostos

Durante muito tempo, certas discussões apresentaram tecnologia e humanização como se fossem caminhos concorrentes.

Não são.

O paciente deseja ser tratado pela melhor medicina disponível.

Quer os equipamentos mais modernos.

Quer os melhores exames.

Quer médicos atualizados.

Quer medicamentos eficazes.

Quer procedimentos seguros.

Mas deseja também ser ouvido e respeitado.

Essas expectativas não são contraditórias.

Ao contrário: constituem aquilo que devemos entender por excelência médica.

Uma medicina capaz de associar ciência de alto nível, tecnologia avançada, profissionais bem formados e relações humanas baseadas na confiança.

Talvez possamos sintetizar esse modelo em quatro palavras:

Ciência. Tecnologia. Confiança. Humanidade.

Uma não substitui a outra.

Juntas, dão sentido ao cuidado.

Um livro que chegou no momento certo

É também por isso que a dedicatória do Prof. Euripedes tornou-se tão significativa para mim.

“Torço para que esse livro seja útil.”

Foi.

Mas sua utilidade ultrapassou aquilo que talvez o próprio autor pudesse imaginar quando escreveu essas palavras.

O livro não apenas apresentou conceitos e reflexões.

Ele me ajudou a interpretar uma experiência.

Depois da angioplastia, determinadas passagens e questões propostas pela obra deixaram de ser apenas assuntos médicos.

Passaram a dialogar com sentimentos que eu próprio havia experimentado.

Compreendi melhor a espera.

A ansiedade.

A confiança.

A vulnerabilidade.

E, finalmente, a tranquilidade de perceber que tudo havia transcorrido bem.

Talvez essa seja uma das maiores qualidades que podemos reconhecer em um livro: quando ele deixa de falar apenas sobre determinado assunto e passa também a falar conosco.

Do tratamento da doença ao cuidado da pessoa

A obra de Euripedes Constantino Miguel, Fabio Biscegli Jatene e Paulo Manuel Pêgo-Fernandes nos oferece, portanto, uma reflexão que deveria interessar não somente aos profissionais da saúde.

Ela interessa aos educadores.

Aos pesquisadores.

Às universidades.

Aos formuladores de políticas públicas.

E a todos nós que, em algum momento da vida, inevitavelmente ocuparemos a posição de pacientes.

O extraordinário progresso da medicina continuará nos proporcionando maior longevidade, melhores diagnósticos e tratamentos cada vez menos invasivos.

Precisamos incentivar esse desenvolvimento.

Investir em pesquisa.

Fortalecer nossas universidades.

Valorizar nossos hospitais de ensino.

Formar pesquisadores.

Estimular a inovação.

Incorporar responsavelmente a Inteligência Artificial e as novas tecnologias.

Mas não podemos permitir que esse extraordinário avanço científico produza uma medicina tecnicamente impecável e humanamente distante.

O objetivo último da medicina nunca foi simplesmente tratar órgãos.

É cuidar de pessoas.

Considerações finais

O IVEPESP registra e valoriza a publicação de O Coração e o Cérebro – O Encontro que Cura e, de maneira muito especial, a participação do Prof. Dr. Euripedes Constantino Miguel, colega cuja trajetória acadêmica e científica na Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo representa contribuição relevante para a psiquiatria, a pesquisa e a formação médica brasileira.

Para mim, há ainda um agradecimento pessoal.

A dedicatória escrita por Euripedes em meu exemplar antecipava um desejo simples e profundamente humano: que tudo corresse bem com meu coração.

Felizmente, correu.

E talvez exatamente por isso sua obra tenha encontrado em mim não apenas um leitor, mas também alguém capaz de reconhecer, a partir da experiência recente de paciente, a profundidade de sua mensagem.

Conhecemos a extraordinária capacidade da medicina quando estudamos seus avanços. Mas compreendemos verdadeiramente sua dimensão humana quando, por algum momento, somos nós que precisamos ser cuidados.

No encontro entre o coração e o cérebro encontramos muito mais do que duas áreas da medicina.

Encontramos ciência e emoção.

Conhecimento e vulnerabilidade.

Tecnologia e confiança.

Médico e paciente.

E, acima de tudo, encontramos aquilo que deve permanecer no centro de qualquer medicina que pretenda construir o futuro:

o ser humano.

Prof. Dr. Helio Dias
Presidente do Instituto para a Valorização da Educação e da Pesquisa no Estado de São Paulo – IVEPESP
https://ivepesp.org.br/membro/helio-dias/