A divulgação do Ideb convida a um novo debate
A divulgação dos resultados do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) e do Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb) representa um dos momentos mais importantes da agenda educacional brasileira. Os números mobilizam governos, gestores, professores, pesquisadores e a sociedade, pois oferecem um retrato do desempenho da educação básica e orientam decisões que influenciam milhões de estudantes.
Desde sua criação, em 2007, o Ideb consolidou-se como um dos mais relevantes instrumentos de avaliação das políticas públicas educacionais. Ao combinar os resultados do Saeb com os indicadores de fluxo escolar, o índice permitiu estabelecer metas nacionais, fortalecer a cultura de avaliação e ampliar a transparência da gestão educacional.
Seu legado é inquestionável.
Entretanto, a divulgação dos resultados de 2025 também convida a uma reflexão inevitável: será que um indicador concebido há quase vinte anos continua suficiente para representar toda a complexidade da educação do século XXI?
Na avaliação do IVEPESP, a resposta é clara: o Ideb permanece indispensável, mas já não pode ser o único instrumento para orientar a política educacional brasileira.
O mundo mudou mais rapidamente do que os indicadores
Quando o Ideb foi criado, smartphones ainda eram novidade, a computação em nuvem dava seus primeiros passos e a Inteligência Artificial era um tema restrito aos laboratórios de pesquisa.
Hoje, estudantes convivem diariamente com plataformas digitais, recursos de aprendizagem personalizados e ferramentas de IA capazes de produzir textos, resolver problemas complexos, traduzir idiomas e apoiar atividades de estudo em tempo real.
Essa transformação alterou profundamente o papel da escola.
Se antes o principal desafio era ampliar o acesso à informação, agora a missão da educação é desenvolver a capacidade de interpretar, selecionar, validar e transformar informações em conhecimento útil.
A sociedade contemporânea exige competências que vão muito além da memorização de conteúdos. Pensamento crítico, criatividade, resolução de problemas, colaboração, alfabetização científica, competências digitais e uso ético da Inteligência Artificial passaram a integrar o conjunto de habilidades essenciais para a formação dos cidadãos.
Naturalmente, essa mudança exige também novas formas de avaliação.
O Ideb mede muito bem aquilo que se propõe a medir
É importante evitar um equívoco frequente.
O Ideb não fracassou.
Ao contrário.
Ele continua sendo um excelente indicador para acompanhar a evolução da aprendizagem em Língua Portuguesa e Matemática associada ao fluxo escolar.
O problema surge quando se espera que um único número represente toda a qualidade da educação brasileira.
Nenhum indicador consegue fazer isso.
Da mesma forma que o Produto Interno Bruto não resume o desenvolvimento humano e a expectativa de vida não traduz integralmente a qualidade da saúde de uma população, o Ideb também possui limites naturais.
Ele mede parte da realidade educacional — e a mede com competência.
Mas não consegue captar dimensões igualmente importantes da formação contemporânea, como pensamento científico, competências digitais, criatividade, capacidade investigativa, colaboração, inovação, cidadania digital e redução das desigualdades de aprendizagem.
O desafio, portanto, não consiste em substituir o Ideb, mas em ampliar sua capacidade de orientar políticas públicas.
Uma nova geração de indicadores
O IVEPESP defende que o Brasil inicie a construção de uma nova geração de indicadores educacionais.
Em vez de concentrar toda a avaliação em um único índice, o país poderia desenvolver um sistema integrado que considere diferentes dimensões da qualidade da educação.
Além da aprendizagem acadêmica, esse painel poderia incorporar indicadores relacionados às competências digitais, à formação científica, ao desenvolvimento socioemocional, à equidade, à inovação pedagógica e à preparação dos estudantes para uma economia intensiva em conhecimento.
Essa abordagem permitiria compreender melhor os avanços e desafios de cada rede de ensino, oferecendo diagnósticos mais precisos para gestores públicos, escolas e professores.
Mais importante ainda, deslocaria o debate dos rankings para a melhoria efetiva da aprendizagem.
A Inteligência Artificial inaugura uma nova era da avaliação
A Inteligência Artificial não representa apenas uma inovação tecnológica aplicada ao ensino.
Ela inaugura uma nova forma de compreender a aprendizagem.
Até hoje, grande parte das avaliações educacionais ocorreu em momentos específicos, normalmente por meio de provas periódicas.
As tecnologias baseadas em Inteligência Artificial permitem imaginar um cenário diferente.
Ambientes digitais de aprendizagem podem identificar dificuldades específicas, acompanhar o progresso individual dos estudantes, sugerir intervenções pedagógicas e fornecer informações contínuas aos professores.
A avaliação deixa de ser apenas classificatória.
Passa a ser diagnóstica, personalizada e orientada para a melhoria permanente da aprendizagem.
Naturalmente, essa transformação exige rigor científico, proteção de dados, transparência algorítmica e respeito aos princípios éticos.
A tecnologia jamais substituirá o professor.
Mas poderá ampliar significativamente sua capacidade de compreender as necessidades de cada estudante.
Uma agenda para a próxima década
O Brasil possui instituições consolidadas, universidades de excelência e uma reconhecida experiência em avaliação educacional.
Esse patrimônio precisa ser preservado.
Ao mesmo tempo, é chegada a hora de iniciar um amplo debate nacional sobre a evolução dos indicadores utilizados para orientar a educação brasileira.
Entre as prioridades destacam-se:
- preservar o Ideb como indicador estratégico nacional;
- ampliar progressivamente as dimensões avaliadas;
- incorporar competências digitais e científicas;
- fortalecer indicadores de equidade e inclusão;
- utilizar ciência de dados e Inteligência Artificial para apoiar diagnósticos educacionais;
- transformar a avaliação em instrumento permanente de apoio às escolas e aos professores, e não apenas em mecanismo de prestação de contas.
Conclusão
O Ideb representou uma das maiores inovações da política educacional brasileira nas últimas décadas. Seu legado permanece sólido e merece ser reconhecido.
Entretanto, a educação mudou. A sociedade mudou. As tecnologias mudaram.
É natural que os instrumentos de avaliação também evoluam.
Mais do que construir novos índices, o Brasil precisa desenvolver uma visão mais ampla sobre o que significa qualidade da educação em uma sociedade orientada pelo conhecimento, pela ciência e pela Inteligência Artificial.
O desafio da próxima década não será apenas ensinar melhor.
Será aprender a medir melhor aquilo que realmente importa.
A avaliação educacional continuará sendo um dos pilares da melhoria da qualidade do ensino. Mas, para cumprir essa missão, precisará acompanhar a velocidade das transformações científicas, tecnológicas e sociais que moldam o século XXI.
O IVEPESP entende que este é o momento de iniciar esse debate, contribuindo para que o Brasil preserve os avanços conquistados com o Ideb e, ao mesmo tempo, construa uma nova geração de indicadores capaz de orientar políticas públicas mais inteligentes, mais inclusivas e mais alinhadas às necessidades das futuras gerações.
Prof. Dr. Helio Dias
Presidente do Instituto para a Valorização da Educação e da Pesquisa do Estado de São Paulo – IVEPESP
https://ivepesp.org.br/membro/helio-dias/