O lançamento do livro Inteligência: O Ativo Estratégico que o Brasil Não Pode Desperdiçar, do educador e pesquisador João Batista Araujo e Oliveira, traz ao debate público um tema frequentemente negligenciado nas políticas educacionais brasileiras: a identificação e o desenvolvimento sistemático de estudantes com altas habilidades e superdotação.

A principal tese da obra é simples e poderosa: nenhum país alcançou protagonismo científico, tecnológico ou econômico sem criar mecanismos eficazes para identificar, estimular e desenvolver seus talentos mais promissores.

O autor demonstra que o Brasil enfrenta simultaneamente dois problemas: graves deficiências na aprendizagem básica e uma preocupante incapacidade de desenvolver sua elite intelectual e científica. Os dados do PISA revelam que o país possui um percentual muito reduzido de estudantes nos níveis mais elevados de desempenho quando comparado aos países da OCDE. Enquanto cerca de 9% dos estudantes dos países desenvolvidos atingem os níveis mais altos de proficiência, o Brasil apresenta números muito inferiores, especialmente na rede pública.

A inteligência como fator de desenvolvimento

Uma das contribuições mais importantes do livro é mostrar que o crescimento econômico moderno depende cada vez menos de recursos naturais e cada vez mais da capacidade de produzir conhecimento, inovação e tecnologia. Segundo a literatura apresentada pelo autor, uma pequena parcela da população responde por uma fração desproporcional das descobertas científicas, patentes, inovações e avanços tecnológicos que transformam economias inteiras.

Nesse contexto, indivíduos com altas habilidades não representam apenas um tema educacional. Eles constituem um ativo estratégico nacional.

A base educacional é essencial para a inclusão social e para a produtividade média da economia. Contudo, o topo da distribuição de habilidades é responsável por impulsionar a inovação, a competitividade e a liderança tecnológica de um país.

O custo invisível do desperdício

O livro chama atenção para aquilo que o autor denomina de “desperdício silencioso de inteligência”.

Quando alunos com altas habilidades não são identificados ou não recebem oportunidades compatíveis com seu potencial, o país perde pesquisadores, cientistas, engenheiros, empreendedores e líderes que poderiam contribuir para seu desenvolvimento. O resultado aparece na forma de menor produtividade, dependência tecnológica externa, baixa capacidade de inovação e perda de competitividade internacional.

Trata-se de um custo que não aparece nos orçamentos públicos, mas que compromete o futuro da nação.

O consenso científico

A obra também desmonta diversos mitos sobre o tema.

A literatura internacional mostra que diferenças cognitivas existem, podem ser medidas com razoável precisão e costumam manifestar-se precocemente. Estudos longitudinais demonstram que estudantes identificados desde cedo por elevadas capacidades cognitivas apresentam maior probabilidade de produzir contribuições científicas, tecnológicas e acadêmicas relevantes ao longo da vida.

O livro destaca ainda que potencial elevado não garante sucesso automático. Alunos com altas habilidades necessitam de ambientes desafiadores, programas diferenciados, aceleração curricular, enriquecimento acadêmico e interação com pares de nível semelhante. Sem esses estímulos, frequentemente ocorre desengajamento e subaproveitamento do potencial.

Uma agenda para o Brasil

O IVEPESP considera que a discussão proposta por João Batista Araujo e Oliveira possui enorme relevância para o futuro do país.

O Brasil necessita simultaneamente:

  • Melhorar a aprendizagem de todos os estudantes;
  • Fortalecer a alfabetização e as competências básicas;
  • Identificar precocemente alunos com altas habilidades;
  • Criar programas avançados de desenvolvimento científico e tecnológico;
  • Expandir e fortalecer as Olimpíadas do Conhecimento;
  • Estabelecer polos regionais de excelência para jovens talentos;
  • Integrar universidades, escolas, empresas e centros de pesquisa na formação de futuros líderes científicos e tecnológicos.

Não se trata de escolher entre equidade e excelência. As experiências internacionais mostram que os países mais bem-sucedidos conseguem promover ambas simultaneamente.

Conclusão

O grande mérito do livro é recolocar a inteligência humana no centro do debate sobre desenvolvimento nacional.

Em uma economia baseada em conhecimento, inovação e inteligência artificial, países que desperdiçam seus talentos comprometem sua capacidade de competir globalmente. O Brasil possui milhões de jovens com potencial extraordinário distribuídos por todas as regiões e classes sociais. O desafio é criar mecanismos para encontrá-los, desenvolvê-los e oferecer-lhes oportunidades compatíveis com suas capacidades.

Como destaca o autor, a inteligência é um dos poucos recursos verdadeiramente estratégicos de uma nação. Desperdiçá-la é um luxo que o Brasil não pode mais se permitir.

Prof. Dr. Helio Dias
Presidente do IVEPESP
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