O Brasil deu um passo relevante ao publicar o “Referencial para Desenvolvimento e Uso de Inteligência Artificial na Educação”, do Ministério da Educação. O documento reconhece o óbvio que, por muito tempo, foi ignorado: a inteligência artificial deixou de ser uma promessa distante e passou a ocupar um papel central nos sistemas educacionais contemporâneos.

A iniciativa é positiva. Ao estabelecer princípios como ética, transparência e responsabilidade, o país se alinha às diretrizes internacionais. Mas há um ponto crítico: o Brasil parece avançar mais rapidamente na regulação do que na implementação.

E os números globais mostram que essa diferença pode custar caro.

Hoje, o uso de inteligência artificial na educação já é massivo. Cerca de 86% a 92% dos estudantes no mundo utilizam ferramentas de IA em seus estudos, com crescimento explosivo em apenas um ano . Entre professores, a adoção também acelera: aproximadamente 60% já utilizam IA em sala de aula ou em atividades pedagógicas .

Não se trata mais de tendência — trata-se de realidade consolidada.

Do ponto de vista econômico, o avanço é ainda mais impressionante. O mercado global de IA na educação, estimado em cerca de US$ 5,8 bilhões em 2024, deve ultrapassar US$ 32 bilhões até 2030, com taxas de crescimento superiores a 30% ao ano . Projeções mais agressivas indicam que esse mercado pode chegar a mais de US$ 130 bilhões até 2035 .

Ou seja: há uma corrida global em curso — tecnológica, educacional e econômica.

Mais importante do que o volume de investimento são os impactos concretos na aprendizagem.

Estudos indicam que sistemas baseados em IA podem:

  • reduzir taxas de evasão em até 20%, ao identificar alunos em risco precocemente
  • aumentar a eficiência do aprendizado em até 57%, com personalização e feedback imediato
  • gerar ganhos relevantes de engajamento e desempenho acadêmico, especialmente em ambientes com ensino adaptativo

Além disso, há ganhos indiretos expressivos: professores que utilizam IA relatam economia de tempo significativa — equivalente a semanas por ano — permitindo maior foco na atividade pedagógica .

Esses números ajudam a explicar por que países como Estados Unidos, China e membros da União Europeia já operam em escala.

Nos Estados Unidos, distritos escolares utilizam modelos preditivos para evasão e plataformas adaptativas para ensino personalizado. Na China, sistemas baseados em IA acompanham o desempenho dos alunos em tempo real, ajustando conteúdos automaticamente para milhões de estudantes. Na Europa, o AI Act introduziu uma regulação baseada em risco — permitindo inovação em larga escala sem abrir mão de controle.

O debate internacional já evoluiu. A questão não é mais “se” usar IA, mas “como usar melhor”.

Nesse cenário, o Brasil ainda apresenta fragilidades.

O referencial do MEC, embora bem-intencionado, adota uma abordagem ampla e genérica. Ao tratar a IA majoritariamente sob a ótica de risco, não diferencia aplicações simples de alto impacto — como apoio ao professor — de sistemas mais complexos e sensíveis.

Isso pode gerar um efeito indesejado: frear justamente aquilo que já poderia estar gerando resultados imediatos.

Outro ponto crítico é a baixa conexão com o setor produtivo. Globalmente, a educação está cada vez mais integrada a empresas de tecnologia e ecossistemas de inovação. No Brasil, essa integração ainda é limitada, reduzindo a capacidade de transformar conhecimento em impacto real.

Há também uma oportunidade estratégica subutilizada: o uso de dados educacionais. O país possui bases robustas, mas ainda não as explora com inteligência artificial em escala para antecipar evasão, melhorar desempenho ou orientar políticas públicas.

E há um tema que precisa ganhar centralidade: a explicabilidade. Em educação, decisões algorítmicas precisam ser compreensíveis, auditáveis e justificáveis. A chamada Explainable AI (XAI) será fundamental para garantir confiança no uso dessas tecnologias.

Mas o maior desafio continua sendo humano.

Nenhuma transformação será possível sem investimento massivo na formação de professores. Países que avançaram nesse campo não apenas adotaram tecnologia — prepararam seus docentes para utilizá-la de forma crítica e estratégica.

O Brasil, portanto, encontra-se diante de uma encruzilhada.

Pode optar por um caminho predominantemente regulatório, correndo o risco de ficar para trás na corrida global por inovação educacional. Ou pode transformar a inteligência artificial em um vetor de desenvolvimento, conectando educação, tecnologia e economia.

Os dados mostram que o mundo já fez sua escolha.

Resta saber qual será a do Brasil.


✍️ Autores

Prof. Dr. Helio Dias
Presidente do IVEPESP
https://ivepesp.org.br/membro/helio-dias/
[email protected]

Helio Henrique Villela Dias
Engenheiro de Computação, Cientista de Dados
IVEPESP
https://ivepesp.org.br/membro/helio-henrique-villela-dias/