O Instituto para Valorização da Educação e da Pesquisa no Estado de São Paulo (IVEPESP), no exercício de sua missão de promover análises técnicas e contribuir para o debate público sobre temas estratégicos para o desenvolvimento urbano e ambiental, analisou a Nota Oficial divulgada pela SRW Engenharia e Comércio Ltda., em 5 de março de 2026, referente à implantação da Estação Elevatória de Esgoto 2 (EEE2) no bairro Jardim São Lourenço, no município de Bertioga.
De acordo com o documento, os empreendimentos do bairro encontram-se interligados às estações elevatórias existentes, com os efluentes encaminhados para a Estação de Tratamento de Esgoto de Vista Linda, e os episódios recentes de extravasamento estariam associados principalmente à entrada de águas pluviais na rede de esgoto durante períodos de chuvas intensas, além da existência de ligações clandestinas que aumentariam o volume transportado pelo sistema.
Do ponto de vista da engenharia sanitária, o fenômeno descrito é conhecido como infiltração e contribuição indevida de águas pluviais na rede de esgoto (Infiltration and Inflow – I/I), situação relativamente comum em sistemas urbanos de saneamento onde as redes de drenagem pluvial e esgotamento sanitário apresentam interconexões indevidas ou deficiências estruturais.
A implantação da Estação Elevatória de Esgoto 2 (EEE2) representa, nesse contexto, uma iniciativa relevante para aumentar a capacidade hidráulica do sistema de bombeamento, contribuindo potencialmente para reduzir a ocorrência de extravasamentos decorrentes de sobrecargas temporárias da rede.
Entretanto, informações relatadas por moradores e usuários da infraestrutura local indicam que episódios de extravasamento de esgoto já ocorreram também em períodos sem registro de chuvas intensas. Caso confirmada tecnicamente, essa circunstância sugere que o problema pode não estar associado exclusivamente à infiltração de águas pluviais, podendo também refletir limitações estruturais de capacidade hidráulica da rede coletora ou das estações elevatórias existentes, além de eventuais questões operacionais.
Experiências internacionais em saneamento urbano mostram que situações desse tipo normalmente resultam de uma combinação de fatores, entre os quais se destacam:
- expansão urbana sem ampliação proporcional da infraestrutura sanitária;
- infiltração de águas pluviais na rede de esgoto;
- insuficiência da capacidade de bombeamento das estações elevatórias;
- obstruções ou deterioração de redes antigas;
- deficiência na drenagem pluvial urbana.
Nesse sentido, o IVEPESP entende que a implantação da EEE2 constitui um passo importante, mas ressalta que soluções estruturais para sistemas de esgotamento sanitário normalmente exigem abordagem integrada, envolvendo simultaneamente expansão da capacidade hidráulica, melhoria da drenagem urbana, manutenção das redes existentes e fiscalização de conexões irregulares.
A própria nota técnica divulgada pela SRW menciona que o loteamento Jardim São Lourenço foi originalmente implantado sem infraestrutura completa de esgotamento sanitário e drenagem, situação que, ao longo do tempo, vem sendo progressivamente corrigida por diferentes intervenções realizadas por agentes privados e públicos.
Considerando a importância do tema para a qualidade ambiental, saúde pública e sustentabilidade das áreas costeiras, o IVEPESP entende que seria de grande interesse público que informações técnicas adicionais fossem disponibilizadas à comunidade e aos órgãos competentes.
Nesse sentido, algumas questões técnicas poderiam contribuir para ampliar a transparência e o entendimento do funcionamento do sistema de esgotamento sanitário do bairro:
- Qual é a capacidade de bombeamento atual das estações elevatórias existentes (EEE1 e EEE3)?
- Qual será a capacidade hidráulica projetada da nova Estação Elevatória de Esgoto 2 (EEE2)?
- Qual é a vazão máxima registrada no sistema durante eventos de chuva intensa e qual a margem de segurança prevista no dimensionamento da nova estação?
- Há registros técnicos ou monitoramentos sistemáticos de extravasamentos ocorridos em períodos sem precipitação significativa?
- Existem programas de inspeção e eliminação de ligações clandestinas ou de infiltrações pluviais na rede de esgoto do bairro?
A disponibilização dessas informações contribuiria para fortalecer o diálogo técnico entre comunidade, empreendedores, concessionárias e autoridades públicas, favorecendo a construção de soluções sustentáveis para o saneamento urbano local.
O IVEPESP reafirma sua disposição em colaborar com análises técnicas e iniciativas que contribuam para o aprimoramento da infraestrutura urbana brasileira, especialmente em regiões litorâneas onde os desafios de saneamento se tornam particularmente relevantes diante da crescente urbanização e da pressão sobre os ecossistemas costeiros.
Prof. Dr. Helio Dias
Presidente do IVEPESP
https://ivepesp.org.br/membro/helio-dias/
[email protected]