Nota Institucional do IVEPESP
Escala 6×1, produtividade, formalização do emprego e sustentabilidade previdenciária
São Paulo, 12 de fevereiro de 2026
O Instituto para Valorização da Educação e da Pesquisa no Estado de São Paulo (IVEPESP) acompanha com atenção o debate no Congresso Nacional acerca da eventual proibição da escala 6×1. Trata-se de tema de elevada sensibilidade social, econômica e fiscal, que exige análise técnica rigorosa e visão sistêmica de longo prazo.
A melhoria das condições de trabalho é objetivo legítimo. Entretanto, alterações estruturais na jornada impactam diretamente o custo do trabalho formal e, por consequência, a dinâmica do emprego, da informalidade e da arrecadação previdenciária.
1. O aumento do custo do trabalho: quem financia?
A proibição da escala 6×1 implica, em primeira ordem, aumento do custo unitário da mão de obra. Economicamente, esse custo adicional tende a ser absorvido por quatro canais principais:
1.1 Redução das margens empresariais
Parte do impacto pode ser acomodada por redução de lucros. Contudo, em setores de baixa margem — especialmente comércio e serviços intensivos em mão de obra — essa absorção pode comprometer investimentos, inovação e expansão produtiva.
1.2 Repasse aos preços
Outra parcela pode ser transferida aos consumidores, com potencial efeito inflacionário setorial e redução do poder de compra.
1.3 Ajuste via emprego
Empresas podem reduzir quadros ou desacelerar contratações formais. Nesse cenário, a nova jornada é parcialmente financiada por menor geração de vagas.
1.4 Expansão da informalidade
O aumento do custo formal pode estimular vínculos informais ou contratações fora do regime regulado, ampliando precarização e reduzindo arrecadação.
2. Formalização do emprego e impacto no INSS
A arrecadação previdenciária brasileira depende majoritariamente das contribuições incidentes sobre a folha salarial. Assim, a sustentabilidade do INSS está diretamente associada à expansão do emprego formal.
Caso a alteração da jornada provoque:
- redução líquida de vínculos formais;
- migração para informalidade;
- substituição por formas contratuais menos contributivas;
poderá haver impacto relevante sobre:
- arrecadação previdenciária;
- financiamento da seguridade social;
- equilíbrio atuarial do sistema.
Esse ponto é particularmente sensível diante do envelhecimento populacional e da necessidade crescente de financiamento previdenciário.
3. Mercado formal, transferência de renda e sustentabilidade fiscal
Programas de transferência de renda, como o Bolsa Família, cumprem papel social fundamental. Contudo, sua sustentabilidade de longo prazo depende de uma economia capaz de gerar empregos formais e ampliar a base contributiva.
Quando a geração de emprego formal desacelera e a informalidade cresce, aumenta a pressão sobre:
- receitas previdenciárias;
- orçamento público;
- equilíbrio fiscal estrutural.
O debate sobre jornada de trabalho precisa considerar essa interdependência entre mercado formal e sustentabilidade das políticas sociais.
4. A variável decisiva: produtividade
Experiências internacionais indicam que reduções sustentáveis de jornada ocorreram em ambientes caracterizados por:
- elevação consistente da produtividade do trabalho;
- reorganização produtiva;
- incorporação tecnológica;
- crescimento econômico robusto.
Sem ganhos de produtividade, a redução de jornada tende a redistribuir custos entre empresas, consumidores, trabalhadores e o próprio Estado, sem necessariamente gerar aumento líquido de riqueza.
O Brasil enfrenta histórico de baixo crescimento da produtividade. Assim, qualquer mudança estrutural na jornada deveria ser acompanhada de políticas robustas de:
- qualificação profissional;
- modernização tecnológica;
- difusão de inteligência artificial e automação responsável;
- melhoria do ambiente de negócios.
5. Recomendações do IVEPESP
O IVEPESP sugere que o Congresso Nacional:
- Exija estudos de impacto econômico e previdenciário por setor;
- Avalie cenários de formalização e arrecadação antes da deliberação final;
- Considere implementação gradual e monitorada;
- Vincule a medida a políticas explícitas de aumento de produtividade;
- Estabeleça mecanismos de revisão normativa caso efeitos adversos relevantes sejam constatados.
Consideração Final
O Brasil precisa avançar na proteção social e na qualidade de vida do trabalhador. Contudo, reformas que alteram estruturalmente o custo do trabalho formal devem preservar:
- geração de empregos;
- formalização;
- sustentabilidade do INSS;
- equilíbrio fiscal de longo prazo.
O desenvolvimento social e a responsabilidade econômica não são objetivos antagônicos — são interdependentes.
O IVEPESP reafirma sua disposição de contribuir tecnicamente com dados, evidências e análises estruturais para um debate qualificado e orientado ao interesse nacional.
Prof. Dr. Helio Dias
Presidente do IVEPESP
https://ivepesp.org.br/membro/helio-dias/
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