A produtividade do trabalho — medida como o valor econômico gerado por hora trabalhada — constitui um dos indicadores mais importantes para avaliar o nível de desenvolvimento de uma economia. Em termos simples, ela expressa a capacidade de um país transformar conhecimento, tecnologia, capital e organização produtiva em riqueza.
Dados internacionais consolidados pelo The Conference Board – Total Economy Database, calculados em dólares internacionais ajustados por Paridade de Poder de Compra (PPC), mostram que o Brasil enfrenta um desafio estrutural significativo. Enquanto economias avançadas como Estados Unidos, Alemanha, França e Canadá apresentam níveis de produtividade superiores a US$ 80 por hora trabalhada, o Brasil permanece em torno de US$ 12 a US$ 15 por hora, praticamente estagnado desde os anos 1990.
Esse hiato de produtividade não pode ser atribuído simplesmente ao esforço ou à capacidade individual dos trabalhadores. Trata-se, antes, de uma questão estrutural relacionada ao funcionamento da economia, ao nível educacional, ao ambiente institucional e à capacidade de inovação das empresas.
Nesse contexto, a literatura econômica internacional enfatiza a importância do capital humano, isto é, da qualidade da educação e da formação técnica da força de trabalho. Países com sistemas educacionais robustos tendem a apresentar maior capacidade de absorver tecnologia, inovar e organizar processos produtivos de maneira mais eficiente.
Os resultados do Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (PISA), coordenado pela OCDE, ilustram essa relação. O exame avalia o desempenho de estudantes de 15 anos em leitura, matemática e ciências. Na edição mais recente com resultados consolidados (PISA 2022), países que apresentam melhor desempenho educacional — como Singapura, Coreia do Sul, Canadá, Finlândia e Estônia — também figuram entre as economias mais produtivas do mundo.
O Brasil, por sua vez, ainda apresenta desempenho abaixo da média da OCDE, especialmente em matemática e raciocínio científico. Essa lacuna educacional limita a formação de profissionais altamente qualificados nas áreas científicas, tecnológicas e industriais, fundamentais para a geração de maior valor econômico.
É importante recordar que, em décadas passadas, a educação pública brasileira possuía elevada qualidade em muitos estados. Professores bem preparados e currículos exigentes permitiam que estudantes ingressassem no ensino superior com sólida formação científica. O autor desta nota é testemunha dessa realidade: ao chegar à universidade, encontrou uma base educacional que permitia acompanhar o nível acadêmico sem grandes dificuldades.
A deterioração progressiva da qualidade da educação básica ao longo das últimas décadas tornou-se, portanto, um dos principais gargalos estruturais do desenvolvimento brasileiro.
As duas faces da improdutividade
Reflexões recentes apresentadas por Claudio de Moura Castro e Carlos A. Primo Braga ressaltam que o problema da produtividade no Brasil possui duas dimensões complementares.
De um lado, existe uma dimensão macroeconômica, relacionada a fatores estruturais como educação, investimento, ambiente institucional e infraestrutura.
Por outro lado, há também uma dimensão microeconômica, associada à forma como o trabalho é organizado dentro das empresas e aos padrões de gestão e liderança existentes nos ambientes produtivos.
Os autores observam que o crescimento da produtividade brasileira, que alcançou cerca de 4% ao ano entre 1950 e 1980, passou a crescer a menos de 1% ao ano nas décadas seguintes, com exceção notável do agronegócio.
Entre os fatores que contribuem para esse desempenho limitado destacam-se:
- baixa taxa de investimento na economia
- limitada incorporação de inovação tecnológica
- práticas de gestão pouco eficientes
- ambiente de negócios complexo que estimula informalidade
Os autores chamam atenção para o fato de que a improdutividade também nasce no nível “molecular” das atividades produtivas, isto é, no cotidiano das empresas.
Experiências reais analisadas pelos autores mostram que ambientes produtivos com liderança técnica forte, padrões claros de qualidade e transmissão de conhecimento entre profissionais podem alcançar elevados níveis de competência mesmo na ausência de programas formais de formação profissional.
Por outro lado, organizações sem liderança técnica ou sem padrões de qualidade tendem a reproduzir ineficiência e baixa produtividade.
Essa observação sugere que a formação de lideranças técnicas e gerenciais nas empresas é um componente essencial da agenda de produtividade.
O papel das pequenas e médias empresas
Outro aspecto relevante do desafio da produtividade no Brasil diz respeito ao papel das pequenas e médias empresas, que constituem a maior parte do tecido produtivo nacional.
Em muitos casos, essas empresas enfrentam limitações relacionadas a:
- acesso a tecnologia
- qualificação gerencial
- capacidade de inovação
- integração com centros de pesquisa
Políticas voltadas ao aumento da produtividade precisam, portanto, incluir programas de:
- difusão de boas práticas de gestão
- extensão tecnológica
- cooperação entre universidades e empresas
- formação de lideranças técnicas
Essas iniciativas podem gerar ganhos significativos de produtividade no nível em que ela efetivamente se materializa: o ambiente das empresas.
O agronegócio brasileiro: uma experiência de sucesso
Um caso particularmente interessante dentro da economia brasileira é o desempenho do agronegócio, frequentemente citado como um exemplo bem-sucedido de aumento de produtividade.
Enquanto grande parte da economia brasileira apresenta crescimento modesto de produtividade, o setor agropecuário registrou avanços expressivos nas últimas décadas.
Esse desempenho resulta de uma combinação virtuosa de fatores:
- investimento contínuo em pesquisa científica
- forte atuação de instituições como a Embrapa
- formação de capital humano especializado
- incorporação de tecnologia e mecanização
- integração entre universidades, centros de pesquisa e empresas
A transformação do Cerrado brasileiro em uma das maiores regiões agrícolas do mundo constitui um dos exemplos mais notáveis de aplicação de ciência e tecnologia à produção agrícola.
O sucesso do agronegócio demonstra que o Brasil possui capacidade científica e tecnológica para elevar sua produtividade quando consegue articular de forma eficiente três elementos fundamentais:
ciência, tecnologia e gestão.
O paradoxo brasileiro da produtividade
O Brasil apresenta um aparente paradoxo.
O país possui:
- universidades de alto nível internacional
- centros de pesquisa consolidados
- empresas tecnológicas competitivas em alguns setores
- um agronegócio altamente produtivo
Ainda assim, a produtividade média da economia permanece baixa quando comparada às economias mais avançadas.
Esse paradoxo sugere que o principal desafio brasileiro não é apenas produzir conhecimento científico, mas transformar conhecimento em inovação disseminada no tecido produtivo.
Caminhos para elevar a produtividade brasileira
A experiência internacional indica que o aumento da produtividade exige uma estratégia integrada envolvendo educação, ciência, inovação e gestão empresarial.
Entre as medidas estratégicas que podem contribuir para elevar a produtividade brasileira destacam-se:
- Reforma estrutural da educação básica, com foco em matemática, ciência e raciocínio lógico.
- Fortalecimento do ensino técnico e profissional, inspirado em modelos internacionais bem-sucedidos como o sistema dual alemão.
- Ampliação do investimento em ciência e inovação, aproximando universidades e setor produtivo.
- Modernização tecnológica das empresas, com maior adoção de inteligência artificial, automação e digitalização.
- Programas de difusão de boas práticas de gestão, especialmente voltados para pequenas e médias empresas.
- Melhoria do ambiente institucional e regulatório, reduzindo barreiras ao investimento e à inovação.
A produtividade é, em última instância, o principal determinante do crescimento sustentável da renda e do bem-estar das sociedades.
O desafio brasileiro não é apenas econômico: é também educacional, científico e institucional.
Enfrentar esse desafio exigirá visão estratégica de longo prazo e articulação entre governo, universidades, empresas e sociedade.
Prof. Dr. Helio Dias
Presidente do IVEPESP
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