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Publicado em 6 de maio de 2016 | Por:

Discurso de Saudação aos novos membros eleitos para a Academia Brasileira de Ciências (ABC), proferido pela professora Vanderlan Bolzani, na cerimônia de 100 anos da ABC

Sra. Ministra do MCT&I, Sra. Emília Ribeiro Curi, em seu nome saúdo todas autoridades presentes e membros da mesa, Caríssimos presidentes da ABC, professores Jabob Palis e Luiz Davidovich, em nome dos quais saúdo todos os colegas acadêmicos, senhoras, senhores, tenham uma boa noite!

Ao iniciar esta saudação gostaria de agradecer à ABC o honroso convite para dar as boas vindas aos colegas recém-eleitos. Vocês ingressam na Academia em um momento muito especial. Momento marcado por uma grande emoção pois esta instituição celebra cem anos de sua criação. 

A data é revestida de grande simbolismo para nós cientistas e com certeza, para o nosso país, pois esta Academia, ao longo de sua trajetória, foi protagonista de avanços marcantes na nossa educação, ciência, tecnologia e novação.

Sempre à frente nos debates das políticas nacionais de aprimoramento do conhecimento, nossa academia vem provendo o país de ideias e ferramentas para melhoria da educação e o avanço da ciência com criatividade e pensamento ético, desde à sua criação.

Dar continuidade a este legado agora é tarefa dos novos e bem vindos colegas acadêmicos. Caberá a vocês também a histórica missão da Academia de apontar caminhos para o país, nas suas áreas de competência.

A atuação dos colegas que chegam é mais  necessária do que nunca. São muitas as mudanças no cenário político e econômico mundial. Fala-se na 4a. revolução industrial,  que foi, aliás, o tema do Fórum Econômico Mundial deste ano.  Ela é fruto dos avanços em campos estratégicos da ciência, como a  genética, a nanotecnologia, biotecnologia inteligência artificial  e a robótica. Nós cientistas temos enorme responsabilidade, qual seja, a de prover a ciência que o Brasil necessita para a sua inserção nessa nova revolução industrial.

Talvez possamos encontrar as respostas no nosso trabalho científico, tão bem colocado na obra “A Riqueza e a Pobreza das Nações: Por que algumas são ricas e outras tão pobres”, do respeitado economista David Land. A dinâmica de crescimento e riqueza de uma nação sempre esteve centrada no conhecimento, resultado de um sistema sólido de educação em todos os níveis e de uma ciência robusta em todas as áreas.

Historicamente, o Brasil se destacou como um país com grande capacidade de inovar na agricultura, aeronáutica, exploração do petróleo, que foram áreas onde havia massa crítica de conhecimento,  com base sólida no binômio ensino e pesquisa. Foi esse lastro de pesquisa básica de excelência que gerou tecnologia e riqueza e destacou o Brasil entre os demais países da América do Sul. Muitos dos senhores e senhoras que estão aqui foram e são protagonistas desse processo.

Neste início de século, a tarefa de analisar cenários complexos e sinalizar caminhos com base em nosso conhecimento é particularmente desafiadora. Para ilustrar essa reflexão gostaria de citar o professor  George Whitesides,  da Harvard University, autor do brilhante artigo Reinventado a Química, publicado o ano passado.

 Ele nota que após décadas de evolução como geradora de soluções industriais, a química se depara hoje com a necessidade de se reinventar e de mais interação com outras disciplinas. Podemos dizer que essa necessidade de renovação está presente em muitos campos da ciência e exige de nós uma nova compreensão do mundo. Além de muita desenvoltura para explicar sua importância a governantes e à sociedade.

O mesmo texto de Whitesides traz uma reflexão muito interessante no nosso contexto atual, que eu gostaria de partilhar com vocês. Ele retoma a questão pesquisa básica e aplicada que, em sua análise,  mostra-se como uma falsa questão.  O que deve ser privilegiado com os recursos sempre escassos, a ciência básica ou a ciência aplicada? Para responder,  recorre ao exemplo de Pasteur que, ao mesmo tempo, criou novos campos da ciência e com eles resolveu problemas práticos como a imunização através de vacinas. Para Pasteur, não havia distinção entre ciência básica e aplicada, mas apenas boa aplicação da ciência. O que dizer então de Max Planck, Einstein, Heisenberg, Schroedinger, Linus Pauling cujas pesquisas básicas sobre mecânica quântica  sedimentaram as bases para o mundo tecnológico que os sucedeu?

Que o centenário desta casa vise o firme compromisso de todos para planejarmos o futuro  com o lastro de nosso legado científico. E que a partir de agora conta com vocês, novos acadêmicos.

Antes de concluir, me dirijo às cientistas mulheres. Hoje, não obstante um horizonte cheio de oportunidades para as mulheres de todos os cantos  e profissões, somos apenas 30% da ciência mundial. Mesmo com o trabalho incansável do nosso querido presidente Jacob Palis entre os membros acadêmicos da ABC, só 16% são mulheres. Este quadro requer de todos os acadêmicos uma profunda reflexão, dos antigos e dos que hoje ingressam, para reverter este quadro.

Encerro, evocando Fernando Pessoa, meu escritor preferido. “O valor das coisas não está no tempo que elas duram, mas na intensidade com que acontecem. Por isso, existem momentos inesquecíveis, coisas inexplicáveis e pessoas incomparáveis.”

Professora Vanderlan Bolzani,

Professora Titular do IQAr-UNESP

Membro da ABC e Vice-presidente da SBPC



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