A educação vive hoje uma transformação histórica. Durante grande parte do século XX, o desafio central da escola era transmitir conhecimento em um mundo onde a informação era escassa e de difícil acesso. Livros eram limitados, bibliotecas concentravam grande parte do saber disponível e o professor era, naturalmente, a principal fonte de conhecimento dentro da sala de aula.

Esse modelo educacional, consolidado ao longo do século XIX e do século XX, baseava-se em uma lógica relativamente simples: organizar conteúdos, transmiti-los de forma sistemática e avaliar a capacidade dos estudantes de compreender e reproduzir esse conhecimento.

Quando sustentado por corpos docentes altamente qualificados e por uma cultura que valorizava o estudo, esse sistema funcionou de forma consistente.

No Brasil, particularmente nas décadas de 1960 e 1970, a escola pública básica alcançou níveis de qualidade que hoje parecem distantes. Professores bem formados e socialmente respeitados preparavam gerações de estudantes que ingressavam no ensino superior com sólida base intelectual.

Sou testemunha direta dessa realidade. Tendo cursado integralmente a escola pública, ingressei na Universidade de São Paulo no início da década de 1970. Encontrei um ambiente acadêmico exigente, mas consegui acompanhar plenamente o nível das disciplinas sem dificuldades decorrentes de lacunas na formação básica. A preparação recebida na escola pública foi suficiente para sustentar toda a trajetória acadêmica posterior.

Nas décadas seguintes, o sistema educacional brasileiro passou por uma transformação profunda. A expansão do acesso à educação básica, especialmente a partir dos anos 1980 e 1990, representou um avanço social importante. Milhões de crianças e jovens passaram a frequentar a escola.

Contudo, essa expansão ocorreu muitas vezes sem a manutenção dos padrões de qualidade docente e das condições pedagógicas necessárias. A desvalorização relativa da carreira docente, a heterogeneidade na formação de professores, a expansão acelerada do sistema e a descontinuidade frequente das políticas educacionais contribuíram para um processo gradual de deterioração da qualidade da aprendizagem.

O resultado foi um paradoxo educacional: ampliamos o acesso à escola, mas enfrentamos dificuldades crescentes para garantir aprendizagem efetiva nas séries iniciais da educação básica.

Esse fenômeno pode ser descrito pela metáfora da pirâmide educacional invertida. Em vez de concentrar esforços e investimentos na base do sistema educacional — onde se formam as competências fundamentais — grande parte das políticas educacionais acaba voltada para os níveis superiores da estrutura, especialmente o ensino superior.

Entretanto, é justamente na base que se definem as condições de sucesso de toda a trajetória educacional. Competências como leitura, escrita, interpretação de textos e raciocínio lógico constituem o alicerce cognitivo que sustenta o aprendizado ao longo da vida.

Esse desafio torna-se ainda mais evidente diante da revolução tecnológica que estamos vivendo.

A transformação digital alterou radicalmente o acesso ao conhecimento. Hoje, estudantes carregam em seus bolsos dispositivos capazes de acessar instantaneamente uma quantidade de informação que, há poucas décadas, exigiria anos de pesquisa em bibliotecas.

Com a chegada da inteligência artificial generativa, essa mudança ganha uma nova dimensão. Sistemas de IA são capazes de explicar conceitos complexos, gerar textos, apoiar a resolução de problemas e até auxiliar na organização do processo de aprendizagem.

Essa nova realidade não elimina a escola nem o papel do professor. Pelo contrário, torna ainda mais importante a existência de uma formação educacional sólida, especialmente nos primeiros anos de escolarização.

Em um mundo de abundância de informação, o verdadeiro desafio deixa de ser apenas acessar dados. O essencial passa a ser compreender, interpretar, avaliar criticamente e utilizar o conhecimento de forma inteligente.

Sem essas bases cognitivas, o uso de ferramentas de inteligência artificial corre o risco de transformar-se apenas em um processo automático de geração de respostas sem compreensão real.

Diante desse cenário, torna-se necessário repensar a própria estrutura do sistema educacional brasileiro.

Algumas diretrizes parecem particularmente importantes.

A primeira é estabelecer como prioridade nacional a alfabetização plena até o final do segundo ano do ensino fundamental. Ler, escrever e interpretar textos continuam sendo as competências estruturantes de qualquer processo educacional.

A segunda é a valorização efetiva da carreira docente. Nenhum sistema educacional de qualidade existe sem professores bem formados, respeitados e adequadamente remunerados.

A terceira é incorporar de forma responsável a inteligência artificial como ferramenta pedagógica, explorando seu potencial para apoiar processos de aprendizagem personalizados e identificar lacunas educacionais.

A quarta é reformular currículos para enfatizar competências cognitivas superiores, como pensamento crítico, capacidade de argumentação, resolução de problemas complexos e criatividade.

Por fim, é fundamental utilizar de forma mais sistemática os dados educacionais disponíveis no país para orientar políticas públicas baseadas em evidências.

A inteligência artificial inaugura uma nova etapa na história da educação. Entretanto, seu potencial transformador só poderá ser plenamente aproveitado se o Brasil enfrentar seu desafio educacional mais estrutural: reconstruir a solidez da base da pirâmide educacional.

Sem alfabetização sólida, professores valorizados e políticas educacionais consistentes, nenhuma tecnologia será capaz de resolver os problemas do sistema educacional.

Ao mesmo tempo, se bem conduzida, essa transformação pode representar uma oportunidade histórica para reposicionar a educação brasileira diante dos desafios do século XXI.


Prof. Dr. Helio Dias
Presidente do IVEPESP
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