O Instituto para Valorização da Educação e da Pesquisa no Estado de São Paulo (IVEPESP) alerta para uma transformação estrutural em curso na economia global: as commodities reassumiram o centro da geopolítica mundial.

Durante as últimas décadas, a globalização consolidou a percepção de que matérias-primas eram abundantes, acessíveis e estrategicamente secundárias. Essa visão sustentou políticas públicas e agendas econômicas que, em muitos países — inclusive no Brasil —, desvalorizaram o papel das commodities, associando-as à chamada “reprimarização” econômica.

Essa leitura revelou-se equivocada.


🌍 A ruptura do paradigma global

A dinâmica recente do sistema internacional demonstra que commodities não são apenas bens econômicos — são ativos estratégicos de poder.

Conflitos e tensões geopolíticas passaram a orbitar diretamente o controle de recursos críticos:

  • petróleo e gás natural no Oriente Médio e em países como Irã e Venezuela;
  • minerais estratégicos na disputa entre Estados Unidos e China;
  • grãos e fertilizantes no contexto da guerra entre Rússia e Ucrânia;
  • gargalos logísticos globais, como o Estreito de Ormuz.

Esses elementos evidenciam que o controle de fluxos físicos — energia, alimentos e insumos industriais — tornou-se novamente determinante para a estabilidade econômica e política global.


⚙️ Commodities: ativos tecnológicos e sistêmicos

A produção contemporânea de commodities está longe de ser uma atividade primária simples. Trata-se de um processo intensivo em:

  • tecnologia avançada;
  • pesquisa científica aplicada;
  • infraestrutura logística sofisticada;
  • serviços especializados e sistemas digitais.

A distinção tradicional entre “economia de commodities” e “economia do conhecimento” tornou-se obsoleta.
Na realidade atual, as commodities representam uma das interfaces mais complexas entre ciência, tecnologia e produção em escala global.


🇧🇷 O Brasil no centro da nova geopolítica

O Brasil ocupa posição singular no cenário internacional, sendo um dos poucos países com capacidade simultânea de atuação em múltiplas frentes:

  • liderança global em commodities agropecuárias;
  • matriz energética relativamente diversificada, com destaque para biocombustíveis;
  • reservas minerais relevantes (ferro, nióbio, cobre);
  • ativos ambientais e climáticos estratégicos.

Essa combinação confere ao país potencial para atuar como provedor global de segurança alimentar, energética e ambiental.

Entretanto, persistem fragilidades estruturais:

  • dependência externa de fertilizantes;
  • baixa exploração de minerais críticos;
  • limitada agregação de valor nas cadeias produtivas;
  • ausência de uma estratégia nacional integrada de recursos naturais.

📎 Cadeias de Valor, Agregação Tecnológica e o Risco da Especialização Incompleta

A análise da inserção brasileira no comércio internacional de commodities exige uma distinção conceitual fundamental: não há problema em exportar commodities; o problema reside em limitar-se a elas.

O Brasil consolidou, ao longo das últimas décadas, uma posição de destaque como grande exportador de produtos primários — notadamente soja, café, minério de ferro e petróleo. Tal desempenho contribui de forma relevante para o equilíbrio das contas externas e para a geração de divisas. Contudo, observa-se uma fragilidade estrutural persistente: a baixa participação do país nas etapas subsequentes das cadeias globais de valor.

Na prática, isso se traduz em um padrão recorrente:

  • exportação de produtos in natura ou com baixo nível de processamento;
  • importação de bens intermediários e finais com elevado valor agregado;
  • captura limitada de renda, tecnologia e empregos qualificados.

Esse fenômeno caracteriza o que se pode denominar de especialização incompleta, na qual o país participa apenas dos elos iniciais da cadeia produtiva, enquanto as etapas mais intensivas em conhecimento — processamento industrial, desenvolvimento tecnológico, branding e distribuição — permanecem concentradas em outras economias.

Do ponto de vista econômico, as implicações são significativas:

  1. Perda de valor agregado
    A diferença entre o preço da commodity bruta e o produto final industrializado pode ser múltiplas vezes superior, sendo apropriada por agentes externos.
  2. Desindustrialização relativa
    A ausência de políticas consistentes de integração entre setores primários e industriais contribui para a redução da densidade produtiva nacional.
  3. Dependência estratégica
    O país permanece dependente da importação de insumos críticos, mesmo sendo um grande produtor de matérias-primas.
  4. Baixa difusão tecnológica
    A limitação às etapas iniciais da cadeia reduz os incentivos à inovação, ao desenvolvimento científico aplicado e à formação de capital humano altamente qualificado.

A experiência internacional demonstra que países que lograram transformar recursos naturais em vantagem estratégica sustentada foram aqueles que promoveram a verticalização produtiva e a integração entre recursos naturais, indústria e tecnologia.

Nesse contexto, a posição brasileira deve ser compreendida não como uma desvantagem intrínseca, mas como uma vantagem potencial ainda não plenamente explorada.


⚠️ Riscos e oportunidades

O novo cenário global impõe riscos relevantes:

  • volatilidade de preços e inflação internacional;
  • intensificação de disputas geopolíticas por recursos;
  • vulnerabilidades logísticas e de abastecimento;
  • pressões ambientais e regulatórias crescentes.

Por outro lado, abre uma janela histórica de oportunidades para o Brasil:

  • consolidação como fornecedor global confiável de alimentos e energia;
  • liderança na transição energética;
  • desenvolvimento de cadeias industriais associadas a recursos naturais;
  • fortalecimento da soberania econômica e produtiva.

📊 Diretrizes estratégicas propostas pelo IVEPESP

Diante desse cenário, o IVEPESP propõe a construção de uma Estratégia Nacional de Commodities e Recursos Estratégicos, baseada nos seguintes pilares:

  1. Segurança de insumos críticos
    Redução da dependência externa em fertilizantes e minerais estratégicos.
  2. Agregação de valor e verticalização produtiva
    Integração entre setores primários, indústria e serviços tecnológicos.
  3. Diplomacia de recursos naturais
    Inserção ativa do Brasil nas cadeias globais de suprimento.
  4. Inovação e ciência aplicada
    Ampliação do uso de inteligência artificial, ciência de dados e biotecnologia.
  5. Sustentabilidade como vetor competitivo
    Transformação dos ativos ambientais em vantagem geopolítica.

🧭 Conclusão

O mundo ingressou em uma nova fase histórica em que recursos naturais, energia e alimentos voltam a definir relações de poder entre as nações.

O Brasil não é um ator periférico nesse contexto — é um dos poucos países com capacidade real de influenciar simultaneamente múltiplos sistemas críticos globais.

A questão estratégica central não é abandonar as commodities,
mas sim dominar integralmente suas cadeias de valor, transformando abundância natural em liderança econômica, tecnológica e geopolítica.


📚 Referência e inspiração

Esta Nota Institucional foi inspirada no artigo “Commodities são o epicentro da nova geopolítica”, de Marcos Jank, publicado no jornal O Estado de S. Paulo em 01 de maio de 2026.


Prof. Dr. Helio Dias
Presidente do IVEPESP
https://ivepesp.org.br/membro/helio-dias/
e-mail: [email protected]