Setenta e cinco anos não são apenas a medida de um tempo administrativo. São a espessura histórica de um projeto civilizatório.

Ao celebrar o aniversário do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), o Brasil revisita o momento em que decidiu transformar o conhecimento em política de Estado. Em 1951, ao criar o CNPq, o país deu um salto conceitual: saiu de uma ciência baseada em vocações individuais para construir um sistema nacional estruturado, contínuo e estratégico.

O que se instituiu naquele momento foi mais do que financiamento à pesquisa. Foi uma infraestrutura invisível de inteligência nacional — capaz de formar pessoas, organizar áreas do saber, conectar instituições e projetar o Brasil no cenário científico internacional.

Ao longo de sete décadas e meia, esse sistema demonstrou sua força. Formou gerações de mestres e doutores, sustentou universidades, impulsionou setores estratégicos — da agricultura tropical à saúde, da energia à engenharia — e contribuiu decisivamente para a construção de políticas públicas baseadas em evidências.

Esse processo não foi isolado. Ele se consolidou em um arranjo cooperativo singular entre:

  • o Estado (CNPq,CAPES e FINEP) e Universidades
  • as fundações estaduais (como a FAPESP),
  • e a comunidade científica organizada.

Esse tripé garantiu algo raro no Brasil: continuidade de longo prazo.


O papel central — e muitas vezes invisível — dos bolsistas

Há, contudo, um elemento estruturante desse sistema que precisa ser explicitamente reconhecido:
os estudantes e pesquisadores bolsistas são a base produtiva da ciência brasileira.

A iniciação científica, o mestrado, o doutorado e o pós-doutorado não são apenas etapas de formação — são, na prática, o motor cotidiano da produção científica nacional.

São esses jovens talentos que:

  • executam experimentos,
  • coletam e analisam dados,
  • desenvolvem algoritmos e modelos,
  • escrevem artigos e teses,
  • sustentam laboratórios e grupos de pesquisa.

Em grande medida, a ciência brasileira é feita por bolsistas.

Sem essa base humana altamente qualificada, construída ao longo de décadas, o sistema simplesmente não existiria.

No entanto, persiste uma contradição estrutural:

aqueles que sustentam o sistema científico frequentemente operam sob condições de baixa proteção social e com bolsas defasadas em termos reais.

Diante disso, torna-se imperativo reconhecer que:

  • a recomposição do valor das bolsas não é um gasto, mas um investimento estratégico;
  • a valorização dos bolsistas é condição para a sustentabilidade do sistema;
  • e a discussão sobre direitos e proteção social mínimos para esses pesquisadores deve avançar com seriedade no país.

Não se trata apenas de justiça —
trata-se de preservar a base produtiva da ciência brasileira.


O novo ponto de inflexão: da ciência à inteligência estratégica

Se o século XX foi o tempo da institucionalização da pesquisa, o século XXI exige algo mais ambicioso:
a institucionalização da inteligência e da inovação em escala nacional.

O mundo mudou — e mudou rapidamente.

Estamos entrando em uma nova fase histórica marcada por:

  • Inteligência Artificial e automação cognitiva
  • Economia baseada em dados
  • Competição tecnológica entre nações
  • Transições energética e climática
  • Biotecnologia e medicina de precisão

Nesse contexto, ciência já não é apenas produção de conhecimento — é capacidade estratégica de decisão.


O desafio brasileiro: evitar a desconexão entre ciência e desenvolvimento

O Brasil construiu um sistema científico respeitável — mas enfrenta hoje um risco estrutural:

a desconexão entre produção científica e transformação econômica e social.

Apesar da competência acadêmica instalada, o país ainda apresenta:

  • baixa produtividade econômica,
  • reduzida intensidade tecnológica na indústria,
  • dificuldade de absorção de doutores pelo setor produtivo,
  • fragilidade na conversão de pesquisa em inovação de escala.

Esse não é um problema de falta de ciência —
é um problema de arquitetura do sistema de inovação.


O futuro necessário: um novo ciclo para o CNPq

Ao completar 75 anos, o CNPq se encontra diante de uma nova missão histórica.

Se no passado foi o arquiteto da pesquisa científica, agora precisa ser um dos pilares de um sistema mais amplo:

um Sistema Nacional de Inteligência, Inovação e Desenvolvimento

Esse novo ciclo exige:

1. Integração plena entre ciência e economia

  • maior conexão entre universidades, empresas e governo
  • estímulo à pesquisa aplicada sem perda da ciência básica

2. Formação orientada ao futuro

  • novas competências em IA, ciência de dados, biotecnologia e engenharia avançada
  • maior interdisciplinaridade

3. Valorização estrutural dos bolsistas

  • recomposição contínua das bolsas
  • criação de mecanismos de proteção social
  • maior previsibilidade e estabilidade nas trajetórias científicas

4. Uso estratégico de dados e inteligência artificial

  • o próprio sistema científico deve incorporar IA em sua gestão, avaliação e planejamento

5. Foco em missões nacionais

  • clima, saúde, energia, cidades, educação
  • grandes projetos mobilizadores

Conclusão: a responsabilidade das próximas décadas

Celebrar os 75 anos do CNPq é reconhecer um dos maiores acertos da história brasileira.

Mas é, sobretudo, assumir que o próximo ciclo será mais exigente.

O desafio já não é apenas sustentar a ciência —
é colocá-la no centro do desenvolvimento do país.

E isso passa, inevitavelmente, por reconhecer e valorizar sua base:

os bolsistas — sem os quais não há ciência, não há inovação e não há futuro.

O CNPq foi o arquiteto do primeiro ciclo.
Pode — e deve — ser protagonista do próximo.


Prof. Dr. Helio Dias
Presidente do IVEPESP
https://ivepesp.org.br/membro/helio-dias/
E-mail: [email protected]