O IVEPESP – Instituto para Valorização da Educação e da Pesquisa no Estado de São Paulo – considera essencial retomar o debate levantado por Cristovam Buarque sobre o equívoco estrutural que marcou a trajetória educacional do Brasil.
A expansão do Ensino Superior antes da consolidação da Educação Básica foi, em sua origem, uma escolha política e social — motivada por boas intenções, mas guiada por uma visão de curto prazo.

Durante parte do século XX, a educação pública brasileira, especialmente nas capitais e grandes centros, foi referência de qualidade. Professores bem preparados, currículos exigentes e escolas estruturadas formaram gerações com sólida base humanística e científica.
O autor desta nota, aluno da rede estadual paulista entre 1959 e 1971, testemunha essa época em que as escolas públicas eram de primeiríssima qualidade, oferecendo ensino rigoroso e professores vocacionados, respeitados e valorizados pela sociedade.

Entretanto, a partir do momento em que o país ampliou o acesso à escola, a estrutura de formação docente, de gestão e de financiamento não acompanhou o crescimento do número de estudantes.
A democratização do ensino — necessária e justa — não foi acompanhada de uma democratização da qualidade.

O Brasil escolheu, portanto, o caminho da expansão quantitativa: abrir vagas, construir escolas e universidades, mas sem assegurar a sustentação pedagógica, a valorização docente e a equidade territorial.
Assim, a massificação veio sem a base. O que deveria ser um passo de inclusão se transformou, gradualmente, em um processo de deterioração da qualidade.
Abandonamos a Educação Básica à sorte de redes municipais desiguais e subfinanciadas, enquanto o foco político se voltava para a visibilidade das universidades e dos números que impressionavam nos relatórios internacionais.

Hoje, colhemos as consequências dessa inversão. Universidades que formam estudantes sem preparo adequado, evasão crescente e um Ensino Médio que, em muitos casos, não cumpre sua função de preparar para a cidadania ou para o trabalho.
A pirâmide educacional foi erguida ao contrário: ampla no topo e frágil na base.

A qualidade de uma nação educada não se mede por quantos diplomas entrega, mas por quantas crianças e jovens saem da escola pública capazes de compreender o mundo, argumentar com clareza e criar soluções para o futuro.
O desenvolvimento real não começa na universidade: começa na creche, na pré-escola e na formação do professor que ensina as primeiras letras.

O IVEPESP reafirma que a reconstrução da educação brasileira passa por uma decisão corajosa e inadiável: restaurar a força da base, garantindo um padrão nacional de qualidade e condições de trabalho dignas para os educadores.
Somente assim será possível transformar o atalho em caminho — e a aparência de progresso em verdadeira transformação social.

Prof. Hélio Dias
Presidente do IVEPESP – Instituto para Valorização da Educação e da Pesquisa no Estado de São Paulo

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