A pandemia de Covid-19 constituiu uma das maiores crises sanitárias, científicas, econômicas, educacionais e sociais da história contemporânea. Milhões de pessoas morreram, sistemas de saúde foram levados ao limite, escolas e universidades interromperam suas atividades presenciais, empresas fecharam, famílias foram separadas e governos adotaram medidas excepcionais em escala poucas vezes vista em tempos de paz.

Nos primeiros meses de 2020, o mundo enfrentava um vírus novo, sem vacinas disponíveis, com conhecimento limitado sobre suas formas de transmissão, sua letalidade, sua capacidade de produzir sequelas e sua evolução futura. Muitas decisões tiveram, portanto, de ser tomadas sob elevada incerteza.

Passados mais de seis anos, a situação é diferente.

Acumulamos enorme quantidade de conhecimento científico sobre o SARS-CoV-2, imunidade, vacinas, tratamentos, transmissão, Covid longa e consequências sociais da pandemia. Ao mesmo tempo, documentos, correspondências, investigações e depoimentos públicos continuam trazendo novas informações sobre as decisões tomadas naquele período.

Em julho de 2026, por exemplo, o Comitê de Segurança Interna e Assuntos Governamentais do Senado dos Estados Unidos realizou nova audiência com Anthony Fauci e disponibilizou documentos relacionados às investigações sobre as origens da pandemia e pesquisas envolvendo coronavírus. A existência desses novos elementos não comprova automaticamente as diferentes acusações formuladas no debate político norte-americano, mas demonstra que aspectos daquele período continuam sob legítimo escrutínio institucional. (Comitê de Segurança Nacional)

Este é, portanto, um momento adequado para revisitar a pandemia.

Não para reescrever a história de acordo com posições ideológicas.

Não para transformar hipóteses em certezas.

Não para negar a gravidade da doença ou a importância da ciência.

Mas para perguntar, serenamente:

O que acertamos?

O que erramos?

O que era impossível saber naquele momento?

O que posteriormente deveria ter sido revisto?

E, sobretudo, o que precisamos fazer de maneira diferente quando surgir a próxima emergência sanitária?


1. Revisar decisões passadas faz parte da própria ciência

A ciência não é um conjunto imutável de verdades.

É um método de aproximação progressiva da realidade por meio de observação, hipóteses, experimentação, comparação, crítica e revisão.

Uma recomendação modificada diante de novas evidências não representa necessariamente fracasso científico. Muitas vezes representa exatamente o contrário: o funcionamento adequado da ciência.

O problema surge quando:

  • hipóteses são apresentadas como certezas;
  • incertezas deixam de ser explicitadas;
  • decisões políticas são confundidas com conclusões científicas;
  • conflitos de interesses não são suficientemente transparentes;
  • questionamentos tecnicamente fundamentados são tratados simplesmente como desinformação;
  • ou instituições resistem posteriormente à abertura dos dados que sustentaram suas decisões.

A revisão histórica das políticas adotadas durante a pandemia deve, portanto, distinguir duas perguntas.

A primeira é:

A decisão era razoável considerando aquilo que se sabia naquele momento?

A segunda:

A decisão continuou sendo razoável à medida que novos conhecimentos se tornaram disponíveis?

Essa distinção é essencial para qualquer avaliação equilibrada.


2. O que sabemos hoje que não sabíamos em 2020

O avanço científico ocorrido desde o início da pandemia foi extraordinário.

Em poucos meses o agente causador foi identificado e sequenciado. Posteriormente foram desenvolvidas vacinas em diferentes plataformas, novos medicamentos foram incorporados, variantes foram acompanhadas geneticamente e grandes populações passaram a ser estudadas.

Hoje conhecemos muito melhor a dinâmica da transmissão, a resposta imunológica, os fatores de risco para formas graves da doença e as consequências de longo prazo da infecção.

Também sabemos que uma parcela dos infectados pode apresentar sintomas persistentes após a fase aguda — a denominada condição pós-Covid ou Covid longa — com manifestações capazes de afetar trabalho, qualidade de vida e funcionamento cotidiano. A Organização Mundial da Saúde continua considerando essa condição um importante problema de saúde pública. (Organização Mundial da Saúde)

Esse conhecimento acumulado permite avaliar retrospectivamente políticas que, em 2020, precisavam ser formuladas com informações muito mais limitadas.

Mas retrospectiva não pode significar anacronismo.

Não é correto julgar todas as decisões de março de 2020 utilizando informações obtidas em 2022, 2024 ou 2026.

Por outro lado, também não seria correto impedir que decisões mantidas durante muitos meses fossem avaliadas à luz dos conhecimentos que progressivamente surgiam.


3. A origem do SARS-CoV-2: uma questão ainda não encerrada

Uma das discussões mais controversas permanece sendo a origem do vírus.

O relatório independente do Scientific Advisory Group for the Origins of Novel Pathogens – SAGO, publicado pela Organização Mundial da Saúde em junho de 2025, avaliou o conjunto das evidências científicas disponíveis.

Sua conclusão é particularmente importante porque evita os dois extremos que dominaram parte do debate público.

O peso das evidências disponíveis continua favorecendo uma origem zoonótica, envolvendo transmissão do vírus de animais para humanos, diretamente ou por meio de hospedeiro intermediário.

Entretanto, a própria OMS declarou que a investigação permanece incompleta. Informações importantes solicitadas para avaliação de atividades laboratoriais em Wuhan não foram disponibilizadas em quantidade suficiente para excluir definitivamente um incidente relacionado à pesquisa. A OMS afirmou, por isso, que continuará avaliando novas evidências caso se tornem disponíveis. (Organização Mundial da Saúde)

É importante também distinguir conceitos frequentemente misturados no debate público.

Um possível incidente relacionado a laboratório não significa necessariamente que o vírus tenha sido deliberadamente criado ou liberado.

Coleta de vírus na natureza, cultivo de amostras, experimentos científicos, manipulação genética deliberada e liberação intencional são hipóteses diferentes e precisam ser tratadas separadamente.

Com o conhecimento hoje disponível, não existe base científica para apresentar como fato comprovado que o SARS-CoV-2 tenha sido deliberadamente produzido como agente patogênico.

Da mesma forma, diante das lacunas documentais existentes, também não é cientificamente adequado declarar encerrada a investigação sobre todas as possibilidades relacionadas a atividades laboratoriais.

A posição responsável é reconhecer a incerteza.

Determinar a origem de uma pandemia não é apenas uma questão histórica ou geopolítica.

É fundamental para prevenir a próxima.


4. Biossegurança e pesquisas com agentes potencialmente perigosos

Independentemente da origem definitiva do SARS-CoV-2, a pandemia colocou em evidência uma questão que precisa ser discutida internacionalmente: a governança de pesquisas envolvendo agentes patogênicos capazes de adquirir maior transmissibilidade, virulência ou capacidade de escapar à resposta imunológica.

Pesquisas dessa natureza podem produzir conhecimento científico relevante.

Também podem introduzir riscos.

A questão não deve ser reduzida à dicotomia “permitir ou proibir”.

Precisamos perguntar:

Quem decide se determinado experimento deve ser realizado?

Quais critérios de risco e benefício são utilizados?

Quem fiscaliza os laboratórios?

Como são declarados os financiamentos?

Que informações devem ser compartilhadas internacionalmente?

Como investigar rapidamente um possível acidente laboratorial?

A OMS publicou em 2025 um marco global destinado justamente a orientar investigações sobre a origem de novos agentes patogênicos com potencial epidêmico ou pandêmico. (Organização Mundial da Saúde)

O IVEPESP entende que pesquisas de maior risco biológico devem possuir:

  • avaliação independente;
  • protocolos internacionais mínimos de biossegurança;
  • rastreabilidade dos experimentos;
  • transparência das fontes de financiamento;
  • registro adequado das modificações realizadas;
  • mecanismos internacionais de investigação;
  • e comunicação imediata de incidentes relevantes.

A segurança científica precisa ser tratada com a mesma seriedade dedicada à segurança nuclear, aeronáutica ou ambiental.


5. Vacinas: uma extraordinária conquista científica que não dispensa vigilância permanente

O desenvolvimento de vacinas contra a Covid-19 em prazo excepcionalmente curto foi uma realização científica de grande importância.

Estudos posteriores e dados de mundo real confirmaram sua capacidade de reduzir principalmente formas graves, hospitalizações e mortes. A Organização Mundial da Saúde continua reconhecendo proteção relevante das vacinas contra desfechos graves da doença. (Organização Mundial da Saúde)

Em estudo da região europeia da OMS, estimou-se que a vacinação contra a Covid-19 evitou mais de 1,6 milhão de mortes entre dezembro de 2020 e março de 2023, com benefício especialmente importante entre pessoas idosas. (Organização Mundial da Saúde)

Esse reconhecimento, entretanto, não elimina outro princípio básico da medicina:

nenhuma intervenção médica está dispensada de monitoramento permanente de segurança.

Com milhões e posteriormente bilhões de doses administradas, tornou-se possível identificar eventos adversos raros que dificilmente apareceriam com a mesma precisão nos ensaios clínicos iniciais.

Entre eles está a associação entre algumas vacinas contra Covid-19 e casos de miocardite e pericardite, observados mais frequentemente em determinados grupos, particularmente homens adolescentes e adultos jovens após algumas vacinas.

Os sistemas de farmacovigilância internacionais reconheceram esse sinal, e orientações posteriores passaram a incorporá-lo às avaliações de risco e benefício. A própria OMS continua monitorando especificamente myocardite, pericardite, doses repetidas e outros aspectos de segurança das vacinas. (Iris)

Isso não permite concluir que a vacinação tenha sido um erro.

Permite concluir algo mais importante:

boa política vacinal precisa ser capaz de reconhecer simultaneamente benefícios e riscos.

Transparência sobre efeitos adversos não diminui a confiança nas vacinas.

Ao contrário, tende a fortalecê-la.

A confiança pública é maior quando a população percebe que instituições estão dispostas a comunicar tanto os benefícios quanto as limitações de suas recomendações.


6. A medicina precisa abandonar falsas escolhas

Uma das características mais negativas daquele período foi a transformação de questões científicas complexas em campos de batalha políticos.

Em diversos momentos parecia necessário escolher entre posições mutuamente excludentes:

“ser a favor” ou “ser contra” vacinas;

“defender” ou “rejeitar” máscaras;

“apoiar” ou “condenar” medidas de distanciamento;

“confiar” ou “não confiar” na ciência.

A medicina não funciona dessa maneira.

O efeito de uma intervenção depende do paciente, da idade, das doenças preexistentes, do risco epidemiológico, da variante circulante, do momento da epidemia e das alternativas disponíveis.

A política sanitária também precisa reconhecer essas diferenças.

As recomendações devem evoluir conforme o conhecimento evolui.

Protocolos válidos durante uma população imunologicamente virgem podem deixar de ser os mais adequados depois de vacinação ampla, infecções prévias, aparecimento de novas variantes e disponibilidade de tratamentos.

Ciência baseada em evidências também significa capacidade de modificar condutas.


7. Tratamentos e autonomia médica: liberdade com responsabilidade científica

Outro campo de intenso conflito foi o tratamento da Covid-19.

Medicamentos existentes foram rapidamente testados ou utilizados de maneira empírica, enquanto numerosos ensaios clínicos buscavam determinar quais intervenções efetivamente reduziam mortalidade ou hospitalização.

Algumas hipóteses iniciais não foram posteriormente confirmadas por estudos mais robustos.

Outras terapias foram incorporadas à prática clínica à medida que evidências consistentes surgiram.

A experiência deixa duas lições aparentemente contraditórias, mas complementares.

A primeira:

autonomia médica não significa licença para ignorar evidências científicas.

A segunda:

medicina baseada em evidências não significa impedir que hipóteses sejam formuladas e testadas.

Em futuras emergências sanitárias, devemos construir redes nacionais e internacionais capazes de realizar rapidamente ensaios clínicos independentes, suficientemente grandes e metodologicamente sólidos.

Precisamos descobrir rapidamente não apenas aquilo que funciona.

Precisamos também descobrir aquilo que não funciona.

Isso protege pacientes, médicos e recursos públicos.


8. Medidas não farmacológicas: necessidade, proporcionalidade e duração

Fechamento de atividades, isolamento, quarentenas, restrições de circulação, uso de máscaras, limites de reunião e outras medidas foram adotados em diferentes combinações ao redor do mundo.

Não existe razão científica para avaliar todas essas intervenções como se constituíssem uma única política.

Elas precisam ser analisadas individualmente considerando:

  • período da pandemia;
  • intensidade da transmissão;
  • características do vírus;
  • população atingida;
  • capacidade hospitalar existente;
  • duração da medida;
  • efeitos econômicos;
  • consequências sociais;
  • impacto sobre saúde mental;
  • efeitos sobre outras doenças;
  • e existência de alternativas menos restritivas.

Uma medida razoável durante algumas semanas pode tornar-se desproporcional quando mantida durante muitos meses.

É por isso que medidas extraordinárias devem possuir, desde sua adoção:

objetivos mensuráveis, prazo definido e critérios públicos para sua revisão.

Emergência não pode significar suspensão indefinida da avaliação de políticas públicas.


9. Educação: talvez uma das maiores dívidas deixadas pela pandemia

Para o IVEPESP, este é um ponto central.

A pandemia atingiu a educação brasileira de maneira particularmente severa.

Segundo dados do Ministério da Educação reproduzidos pelo Banco Mundial, as escolas públicas brasileiras permaneceram fechadas para atividades presenciais, em média, por 287,4 dias, enquanto as privadas ficaram fechadas aproximadamente 247,7 dias. (Banco Mundial)

Essa diferença é especialmente preocupante porque os estudantes da escola pública eram, em média, exatamente aqueles que dispunham de menos condições para substituir presencialmente a escola por educação digital.

Famílias sem computador adequado, conexão estável, espaço doméstico para estudo ou disponibilidade dos pais para acompanhamento foram desproporcionalmente prejudicadas.

O Banco Mundial documentou, em diferentes países, associação entre maior duração do fechamento escolar e maiores perdas de aprendizagem, além de agravamento das desigualdades educacionais. (World Bank)

Escolas também desempenham funções que vão muito além da transmissão de conteúdo.

São espaços de:

  • socialização;
  • alimentação;
  • proteção;
  • identificação de violência doméstica;
  • desenvolvimento emocional;
  • atividade física;
  • convivência;
  • acompanhamento do desenvolvimento infantil.

Reconhecer esses prejuízos não significa afirmar que o fechamento inicial das escolas tenha sido necessariamente injustificado.

Em março de 2020 havia enorme incerteza, inexistência de vacinas e receio legítimo de colapso hospitalar.

A questão que precisa ser estudada é outra:

por quanto tempo o fechamento continuou sendo proporcional ao risco e que alternativas poderiam ter permitido uma reabertura segura mais precoce?

Essa pergunta deve integrar qualquer avaliação independente da pandemia brasileira.


10. Em futuras pandemias, educação deve ser considerada infraestrutura essencial

Uma das principais recomendações desta nota é que o Brasil estabeleça previamente um protocolo nacional para continuidade educacional durante emergências sanitárias.

Esse protocolo deveria prever:

  • critérios epidemiológicos objetivos para suspensão de atividades presenciais;
  • revisão periódica obrigatória dessas decisões;
  • prioridade para reabertura de creches e escolas;
  • ventilação e melhoria da qualidade do ar nos ambientes educacionais;
  • conectividade universal;
  • equipamentos para estudantes vulneráveis;
  • formação emergencial de professores para ensino remoto e híbrido;
  • plataformas públicas capazes de operar em escala nacional;
  • programas imediatos de recuperação da aprendizagem;
  • acompanhamento da saúde mental;
  • e atenção especial aos estudantes com deficiência e em situação de vulnerabilidade social.

A próxima emergência não pode nos encontrar novamente improvisando a educação a distância depois que as escolas já tiverem fechado.


11. Transparência: um componente da própria política sanitária

Talvez uma das maiores lições da pandemia não seja médica, mas institucional.

A confiança pública é um recurso fundamental durante uma emergência.

Governos precisam que a população siga recomendações.

Médicos precisam que seus pacientes confiem nas orientações recebidas.

Pesquisadores precisam que cidadãos participem de estudos.

Programas de vacinação precisam de adesão voluntária e informada.

Mas confiança não pode ser exigida.

Precisa ser construída.

E confiança depende de transparência.

Dados epidemiológicos, modelos matemáticos, pareceres técnicos, atas de comitês, conflitos de interesse, contratos, estudos de segurança e fundamentos das decisões precisam ser disponibilizados sempre que possível.

Quando informações são ocultadas simplesmente porque poderiam provocar questionamentos, obtém-se frequentemente o resultado oposto ao desejado.

O segredo alimenta a suspeita.

A transparência permite o escrutínio.


12. A ciência não pode ter medo da divergência

O período pandêmico também demonstrou a dificuldade das sociedades contemporâneas em lidar com divergências científicas num ambiente dominado por redes sociais, polarização política e circulação instantânea de informações falsas.

É necessário fazer duas afirmações simultaneamente.

Nem toda divergência é desinformação.

E:

nem toda opinião divergente é ciência.

A fronteira precisa ser estabelecida pelo método.

Um pesquisador que apresenta seus dados, explica seu método, declara conflitos de interesses e aceita que seus resultados sejam contestados está participando do processo científico.

Já a fabricação deliberada de dados, a apresentação de hipóteses como fatos ou a divulgação de curas sem evidências não pode reivindicar proteção simplesmente em nome da liberdade científica.

O melhor instrumento contra a má informação continua sendo a boa informação.


13. A humildade deve fazer parte da comunicação científica

Em uma emergência, autoridades são pressionadas a oferecer respostas rápidas.

Frequentemente, porém, a resposta cientificamente mais correta é:

“Ainda não sabemos.”

Essa frase não representa fraqueza.

Representa honestidade.

Uma das lições da pandemia é a necessidade de comunicar diferentes graus de certeza.

O público precisa saber distinguir entre:

evidência consolidada;

evidência provável;

hipótese plausível;

decisão baseada no princípio da precaução;

e

questão ainda desconhecida.

Quando todas essas categorias são apresentadas com o mesmo grau de certeza, qualquer revisão posterior pode parecer contradição ou manipulação.

A alfabetização científica da sociedade é, portanto, também uma política de preparação para pandemias.


14. Precisamos avaliar a pandemia brasileira de maneira independente

O Brasil deveria realizar uma avaliação técnica abrangente de sua resposta à Covid-19.

Não uma investigação destinada previamente a encontrar culpados.

Nem uma comissão organizada para confirmar determinada narrativa política.

Mas uma avaliação multidisciplinar, transparente e baseada em documentos.

Ela deveria envolver, entre outros:

  • epidemiologistas;
  • infectologistas;
  • imunologistas;
  • especialistas em saúde pública;
  • estatísticos;
  • economistas;
  • educadores;
  • psicólogos;
  • especialistas em ética;
  • juristas;
  • gestores públicos;
  • representantes de pacientes;
  • e especialistas em comunicação científica.

Essa avaliação deveria examinar tanto decisões do governo federal quanto dos estados e municípios.

Deveria identificar boas práticas que funcionaram e precisam ser preservadas.

E deveria reconhecer erros sempre que as evidências os demonstrarem.


15. Dez princípios para a próxima emergência sanitária

Com base nas lições acumuladas, o IVEPESP propõe dez princípios para orientar futuras crises sanitárias:

1. Transparência desde o início

Dados, modelos, pareceres e fundamentos técnicos das decisões públicas devem ser acessíveis sempre que não houver impedimento legal ou risco concreto de segurança.

2. Separação entre ciência e decisão política

A ciência informa alternativas, riscos e probabilidades. A decisão pública envolve também valores, custos sociais e prioridades. Essa diferença deve ser explicitada.

3. Comunicação das incertezas

Autoridades científicas devem distinguir claramente aquilo que sabem daquilo que ainda estão tentando descobrir.

4. Medidas proporcionais e temporárias

Toda medida excepcional deve possuir objetivos, prazo e critérios públicos de revisão.

5. Farmacovigilância permanente

Vacinas e medicamentos devem ser acompanhados continuamente, com divulgação transparente de benefícios e eventos adversos.

6. Pesquisa clínica rápida e independente

O país precisa estar preparado para organizar grandes ensaios clínicos durante uma emergência, evitando meses de controvérsias baseadas apenas em estudos pequenos e inconclusivos.

7. Educação como atividade essencial

Fechamentos escolares devem constituir medida excepcional, acompanhada de avaliação contínua e estratégia de retorno seguro.

8. Biossegurança internacional

Pesquisas envolvendo patógenos potencialmente pandêmicos precisam de padrões internacionais robustos de fiscalização e transparência.

9. Proteção da liberdade científica

Divergências tecnicamente fundamentadas devem poder ser apresentadas e discutidas.

10. Avaliação posterior obrigatória

Toda grande emergência deve ser seguida de relatório público independente sobre acertos, erros e reformas necessárias.


16. O que devemos levar conosco daquele período

A pandemia demonstrou simultaneamente o enorme poder e os limites da ciência.

Foi a ciência que identificou o vírus.

Foi a ciência que permitiu sequenciá-lo.

Foi a ciência que desenvolveu vacinas e tratamentos.

Foi a ciência que acompanhou as variantes.

Foi a ciência que reconheceu novos efeitos da doença e também eventos adversos associados às intervenções.

Mas a ciência é produzida por seres humanos e por instituições.

E seres humanos podem errar.

Instituições podem ser lentas.

Governos podem politizar decisões.

Interesses econômicos podem existir.

Pesquisadores podem discordar.

Nenhuma dessas constatações reduz o valor da ciência.

Ao contrário.

Mostra por que ela precisa de transparência, replicação, independência e crítica permanente.


Conclusão

Revisitar a pandemia não significa negar sua gravidade.

Não significa diminuir o sofrimento dos que perderam familiares.

Não significa transformar qualquer hipótese alternativa em verdade.

Não significa desqualificar médicos, pesquisadores e profissionais da saúde que trabalharam heroicamente durante aquele período.

Significa reconhecer que uma sociedade madura precisa ser capaz de examinar suas próprias decisões.

Os novos documentos e investigações que continuam surgindo devem ser avaliados seriamente, sem condenações antecipadas, mas também sem proteção institucional contra perguntas legítimas.

Algumas questões já possuem respostas muito mais sólidas do que possuíam em 2020.

Outras continuam abertas.

E talvez essa seja precisamente a maior lição.

A ciência não precisa afirmar que sabe aquilo que ainda não sabe.

Sua força está justamente na capacidade de perguntar, testar, reconhecer a incerteza e corrigir-se.

Da mesma maneira, instituições públicas não preservam a confiança impedindo o escrutínio.

Preservam-na demonstrando que estão dispostas a prestar contas.

Não precisamos escolher entre confiar na ciência e questionar a ciência.

Questionar com método é parte da própria ciência.

Não precisamos escolher entre reconhecer os benefícios das vacinas e estudar seus efeitos adversos.

Fazer as duas coisas é boa medicina.

Não precisamos escolher entre reconhecer a necessidade de medidas emergenciais em 2020 e avaliar posteriormente se algumas foram mantidas por tempo excessivo.

Fazer essa avaliação é boa política pública.

E não podemos permitir que, em uma próxima pandemia, crianças e jovens voltem a suportar silenciosamente parte tão grande dos custos sociais das medidas adotadas.

A pandemia de Covid-19 pertence à nossa história recente.

Transformá-la em aprendizado coletivo é uma responsabilidade com as próximas gerações.

Conhecer melhor o passado não significa permanecer preso a ele.
Significa estar mais preparado para o futuro.


Autores

Prof. Dr. Helio Dias
Presidente do IVEPESP – Instituto para a Valorização da Educação e da Pesquisa do Estado de São Paulo

Prof. Dr. Jorge Elias Kalil Filho
Professor Titular de Imunologia Clínica e Alergia da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo – FMUSP


Referências institucionais essenciais

Organização Mundial da Saúde – Independent assessment of the origins of SARS-CoV-2, Scientific Advisory Group for the Origins of Novel Pathogens – SAGO, 2025. (Organização Mundial da Saúde)

Organização Mundial da Saúde – informações e avaliações atualizadas sobre vacinação contra Covid-19, farmacovigilância e condição pós-Covid. (Iris)

Banco Mundial – informações sobre fechamento das escolas brasileiras e recuperação educacional após a pandemia. (Banco Mundial)

U.S. Senate Committee on Homeland Security and Governmental Affairs – documentos e audiências relativos às investigações sobre as origens da Covid-19. (Comitê de Segurança Nacional)

Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo – perfil acadêmico e participação do Prof. Jorge Kalil no acompanhamento independente de estudos de vacinas contra Covid-19. (FMUSP)