Nos últimos anos, a Inteligência Artificial Generativa deixou de ser apenas um objeto de pesquisa para tornar-se uma ferramenta cotidiana da atividade científica. Um gráfico recentemente divulgado pelo pesquisador Rafael Izbicki mostra um crescimento acelerado das submissões mensais na área de Ciência da Computação no arXiv, especialmente após o lançamento dos grandes modelos de linguagem (LLMs), como o ChatGPT, e, mais recentemente, com o surgimento dos agentes de IA.

Embora essa evolução não possa ser atribuída exclusivamente aos LLMs, os dados sugerem que a Inteligência Artificial está reduzindo significativamente o tempo necessário para transformar uma ideia em um artigo científico. Estamos diante de uma mudança estrutural na forma de produzir conhecimento.

Para o IVEPESP, essa transformação representa um dos maiores desafios e oportunidades da pesquisa científica desde a popularização da internet.


Uma nova revolução científica

Durante décadas, a produção científica foi limitada por fatores como:

  • tempo para revisão bibliográfica;
  • redação científica;
  • desenvolvimento de códigos;
  • elaboração de gráficos;
  • análise estatística;
  • tradução para o inglês;
  • revisão textual.

Grande parte dessas atividades passou a ser acelerada por sistemas de IA.

Hoje um pesquisador consegue, em poucas horas:

  • revisar centenas de artigos;
  • sintetizar o estado da arte;
  • gerar códigos experimentais;
  • interpretar resultados;
  • produzir figuras;
  • melhorar a redação;
  • preparar versões preliminares para publicação.

Isso não significa que a IA substitua o pesquisador. Significa que ela amplia sua capacidade intelectual e operacional.


Os dados sugerem uma mudança de paradigma

O gráfico divulgado por Rafael Izbicki mostra que o crescimento das submissões ao arXiv apresenta três momentos distintos:

2015–2020: crescimento gradual e consistente da produção científica.

2020–2022: aceleração impulsionada pela pandemia, pelo trabalho remoto e pela expansão da pesquisa colaborativa.

A partir de 2023: aumento ainda mais acentuado, coincidindo com a popularização dos grandes modelos de linguagem.

Em 2026, observa-se uma nova aceleração, possivelmente associada aos agentes de IA capazes de automatizar etapas completas da pesquisa.

Embora correlação não implique causalidade, a coincidência temporal é suficientemente expressiva para justificar uma reflexão profunda sobre o papel da IA na ciência.


Os LLMs não explicam tudo

Seria incorreto concluir que o crescimento observado decorre apenas da Inteligência Artificial.

Diversos fatores atuam simultaneamente:

  • expansão global da pesquisa em IA;
  • crescimento expressivo da produção científica na China, Índia e outros países emergentes;
  • consolidação da cultura dos preprints;
  • maior colaboração internacional;
  • automação crescente dos processos de pesquisa.

Os LLMs são, portanto, parte de uma transformação muito mais ampla.


A chegada da ciência aumentada

Talvez a mudança mais importante não seja o aumento da quantidade de artigos, mas o surgimento de um novo modelo de pesquisa.

Até recentemente, a IA era utilizada como ferramenta de apoio.

Agora ela começa a atuar como colaboradora ativa.

Os chamados agentes de IA conseguem:

  • localizar literatura relevante;
  • resumir trabalhos científicos;
  • escrever códigos;
  • executar experimentos;
  • interpretar resultados;
  • identificar inconsistências;
  • propor melhorias metodológicas.

Isso inaugura aquilo que o IVEPESP denomina Ciência Aumentada, na qual a inteligência humana permanece responsável pelas perguntas, hipóteses, decisões éticas e interpretações, enquanto a IA potencializa a execução das tarefas técnicas e operacionais.


O verdadeiro gargalo deixa de ser escrever

Durante muito tempo, escrever um artigo era uma das etapas mais demoradas da pesquisa.

Esse gargalo está desaparecendo.

O novo desafio passa a ser produzir conhecimento realmente novo.

Num cenário em que a redação científica se torna praticamente instantânea, o diferencial deixa de ser a capacidade de escrever e passa a ser:

  • formular perguntas relevantes;
  • desenvolver métodos robustos;
  • criar experimentos inovadores;
  • interpretar resultados criticamente;
  • transformar descobertas em impacto científico e social.

Em outras palavras, a criatividade científica torna-se ainda mais valiosa.


Os riscos dessa transformação

Toda grande revolução tecnológica produz benefícios e desafios.

Entre os principais riscos destacam-se:

  • crescimento de artigos com baixa originalidade;
  • aumento da sobrecarga do sistema de revisão por pares;
  • dificuldade para acompanhar a literatura científica;
  • maior risco de erros produzidos por uso inadequado da IA;
  • pressão sobre os atuais sistemas de avaliação acadêmica.

Publicar mais não significa produzir melhor ciência.

A qualidade continuará sendo o principal indicador de excelência.


O desafio para universidades e agências de fomento

Instituições de ensino superior precisarão adaptar rapidamente seus modelos de formação.

Será necessário incorporar:

  • alfabetização em Inteligência Artificial;
  • uso responsável da IA generativa;
  • princípios de ciência aberta;
  • reprodutibilidade;
  • ética em pesquisa;
  • transparência no uso de ferramentas computacionais.

Também será necessário revisar critérios tradicionais de avaliação, hoje fortemente baseados na quantidade de publicações.

O impacto científico, a inovação e a relevância social tendem a ganhar ainda mais importância.


O Brasil diante da nova fronteira

O Brasil possui pesquisadores altamente qualificados.

Entretanto, enfrenta desafios estruturais relacionados a financiamento, infraestrutura, burocracia e internacionalização.

A Inteligência Artificial pode reduzir parte dessas limitações, democratizando o acesso a ferramentas avançadas de pesquisa.

Contudo, para aproveitar plenamente essa oportunidade, será indispensável investir em formação, infraestrutura digital e políticas públicas que promovam o uso ético e estratégico da IA na pesquisa científica.


Uma convergência com o novo livro do IVEPESP

Esta análise reforça diretamente a proposta do livro que o IVEPESP está desenvolvendo, de autoria de Helio Dias (IVEPESP), André Carlos Ponce de Leon Ferreira de Carvalho (ICMC-USP), Marcos Gonçalves Quiles (UNIFESP) e Helio Henrique Villela Dias (Lello Lab/UNIFESP/IVEPESP).

O objetivo da obra é justamente compreender como a Inteligência Artificial está transformando todas as etapas da pesquisa científica — da formulação das perguntas à divulgação dos resultados —, propondo diretrizes para uma produção científica mais ética, transparente, reprodutível e intelectualmente rigorosa.

Os dados do arXiv reforçam que essa discussão deixou de ser uma tendência futura para tornar-se uma realidade observável. A aceleração da produção científica impõe a necessidade de novos métodos de trabalho, novos critérios de avaliação e uma nova formação para pesquisadores, docentes e estudantes.

Nesse contexto, o livro buscará oferecer fundamentos conceituais, exemplos práticos e recomendações para que a comunidade acadêmica utilize a IA como um instrumento de ampliação da inteligência humana, e não como um substituto do pensamento científico.


Considerações finais

Os números observados no arXiv sugerem que estamos ingressando em uma nova fase da história da ciência. A Inteligência Artificial não elimina a necessidade do pesquisador; ela redefine seu papel. O futuro pertencerá aos profissionais capazes de combinar domínio do método científico, pensamento crítico, criatividade e uso competente das ferramentas de IA.

O IVEPESP entende que esta transição representa uma oportunidade histórica para elevar a qualidade, a velocidade e o impacto da produção científica brasileira. Mais do que aprender a utilizar novas tecnologias, será necessário construir uma nova cultura de pesquisa, na qual inteligência humana e inteligência artificial atuem de forma complementar em benefício da ciência e da sociedade.


Prof. Dr. Helio Dias
Presidente do Instituto para a Valorização da Educação e da Pesquisa no Estado de São Paulo – IVEPESP
https://ivepesp.org.br/membro/helio-dias/