1. Contexto

A trajetória da mecânica quântica ao longo de um século — de 1925 a 2025 — representa uma das mais profundas transformações científicas e tecnológicas da história moderna. O que começou como uma revolução conceitual na física evoluiu para um novo paradigma computacional com potencial disruptivo para economia, defesa, saúde, finanças e ciência de dados.

O panorama apresentado evidencia uma linha contínua de evolução: da formulação teórica da mecânica quântica à consolidação da computação quântica como campo estratégico global.


2. Da Física Fundamental à Informação Quântica

A chamada “primeira revolução quântica” foi marcada por descobertas fundamentais:

  • 1925 – Werner Heisenberg: formulação da mecânica matricial
  • 1926 – Erwin Schrödinger: equação de onda
  • 1927 – Paul Dirac: unificação relativística da mecânica quântica

Esses avanços estabeleceram a base matemática e conceitual que sustenta toda a física moderna.

A inflexão decisiva ocorre décadas depois:

  • 1981 – Richard Feynman propõe simular sistemas físicos com computadores quânticos
  • 1984 – Criptografia quântica inaugura aplicações práticas
  • 1985 – David Deutsch formaliza o conceito de computador quântico universal

Aqui nasce a chamada segunda revolução quântica, onde a teoria passa a ser instrumento de engenharia da informação.


3. A Revolução Algorítmica

A década de 1990 inaugura um novo estágio: a prova de vantagem computacional teórica.

  • 1994 – Peter Shor: fatoração exponencialmente mais rápida (impacto direto na criptografia global)
  • 1995 – Alexei Kitaev: estimação de fase quântica (base de diversos algoritmos)
  • 1996 – Lov Grover: busca quadrática em bases não estruturadas

Posteriormente:

  • 2009 – HHL: solução de sistemas lineares (relevância para machine learning e simulação científica)
  • 2016 – Qubitization: estrutura algorítmica mais eficiente e generalizável

Essa fase consolida a computação quântica como campo matemático-computacional estruturado, com implicações diretas para IA, otimização e modelagem complexa.


4. Da Era NISQ à Tolerância a Falhas

A partir de 2017, entra-se na chamada era NISQ (Noisy Intermediate-Scale Quantum), caracterizada por dispositivos ainda imperfeitos, porém já utilizáveis:

  • 2017 – Quantum Signal Processing
  • 2018 – Quantum Singular Value Transformation
  • 2018 – John Preskill formaliza o conceito de NISQ
  • 2019 – Google demonstra “supremacia quântica” experimental
  • 2025 – Avanços em tolerância a falhas algorítmica

O foco atual desloca-se da prova de conceito para a engenharia de sistemas quânticos robustos, capazes de operar em escala industrial.


5. Análise Estratégica (IVEPESP)

A evolução apresentada não é apenas científica — é geopolítica, econômica e educacional.

  1. Mudança de paradigma computacional
    A computação quântica não substitui a clássica — ela redefine problemas tratáveis, especialmente em:
    • criptografia
    • descoberta de fármacos
    • otimização logística
    • inteligência artificial avançada
  2. Corrida global por soberania tecnológica
    EUA, China e União Europeia já tratam tecnologias quânticas como infraestrutura estratégica de Estado.
  3. Risco de marginalização do Brasil
    O Brasil possui excelência acadêmica em física, mas:
    • baixa integração com indústria
    • ausência de política nacional robusta em tecnologias quânticas
    • investimento fragmentado

Sem ação coordenada, o país corre risco de repetir o atraso observado em semicondutores e IA.


6. Propostas do IVEPESP

Diante desse cenário, o IVEPESP propõe:

1. Criação de um Programa Nacional de Tecnologias Quânticas

  • Integração entre universidades (USP, UNICAMP, UFRJ, ITA)
  • Parcerias com centros como FAPESP, CNPq e CAPES
  • Foco em aplicações industriais

2. Formação de Recursos Humanos de Alta Complexidade

  • Inserção de computação quântica e informação quântica nos currículos
  • Programas interdisciplinares (física + computação + matemática + engenharia)

3. Conexão com Inteligência Artificial e Ciência de Dados

  • Uso de algoritmos quânticos em aprendizado de máquina
  • Integração com projetos de XAI (Explainable AI), área já em desenvolvimento no Brasil

4. Incentivos via Lei do Bem e ICTs

  • Utilização do status de ICT para fomentar projetos aplicados
  • Estímulo à participação do setor privado

5. Criação de Laboratórios Nacionais de Teste (Quantum Sandboxes)

  • Ambientes experimentais acessíveis para startups e universidades

7. Conclusão

A história da mecânica quântica entre 1925 e 2025 revela um movimento claro: da compreensão da natureza à engenharia da realidade.

O próximo ciclo — baseado em computação quântica tolerante a falhas — não será apenas científico, mas estrutural para a economia global.

A questão central não é mais se a computação quântica será relevante, mas quem estará preparado para utilizá-la.


Prof. Dr. Helio Dias
Presidente do IVEPESP
https://ivepesp.org.br/membro/helio-dias/
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