São Paulo, 19 de fevereiro de 2026
O Instituto para Valorização da Educação e da Pesquisa no Estado de São Paulo (IVEPESP) vem a público destacar um tema pouco debatido, mas central para a sustentabilidade do sistema científico contemporâneo: a invisibilidade institucional de pesquisadores e profissionais que sustentam a pesquisa sem ocupar posições docentes tradicionais.
Inspirada no ensaio The invisible scientist, publicado na revista Science (2026), esta reflexão revela uma realidade presente em diversos sistemas acadêmicos — e particularmente sensível no Brasil.
1. A ciência como empreendimento coletivo
A produção científica moderna é profundamente colaborativa. Projetos de alta complexidade envolvem:
- analistas de dados,
- estatísticos,
- engenheiros de pesquisa,
- gestores de laboratório,
- especialistas em infraestrutura científica,
- profissionais técnicos altamente qualificados.
Apesar disso, os mecanismos institucionais de reconhecimento e progressão de carreira permanecem majoritariamente centrados na figura do docente-pesquisador principal.
Essa assimetria gera uma contradição estrutural:
👉 a ciência é coletiva, mas o reconhecimento ainda é hierárquico e individualizado
2. Invisibilidade e seus impactos sistêmicos
A invisibilidade de carreiras científicas não docentes não é apenas um problema simbólico ou individual. Trata-se de uma questão com efeitos concretos:
- perda de talentos qualificados para outros setores;
- descontinuidade de competências técnicas estratégicas;
- redução da eficiência de grupos e laboratórios;
- fragilização da infraestrutura científica;
- menor produtividade sistêmica da pesquisa.
Em outras palavras, a invisibilidade organizacional transforma-se em ineficiência científica.
3. O caso brasileiro: lacuna estrutural de carreira científica
No Brasil, essa questão assume contornos ainda mais críticos devido a fatores históricos e institucionais:
- inexistência de uma carreira nacional estruturada de staff scientist;
- fragilidade das carreiras técnicas nas universidades e ICTs;
- sistemas de avaliação centrados em autoria e posição institucional;
- baixa valorização da contribuição técnica e metodológica;
- dependência excessiva de vínculos temporários ou bolsas.
Esse cenário contrasta com sistemas internacionais que já reconhecem a figura do pesquisador de carreira técnica como elemento estratégico da ciência contemporânea.
4. Produtividade científica e organização do trabalho
O debate sobre produtividade científica no Brasil frequentemente ignora a dimensão organizacional do trabalho científico.
Experiências de alto desempenho — inclusive fora da academia, como modelos industriais baseados na valorização de todos os agentes do processo — demonstram que:
- inclusão decisória,
- reconhecimento distribuído,
- estabilidade de competências técnicas,
- e cultura colaborativa
são fatores determinantes para resultados sustentáveis.
A ciência não é exceção.
5. Uma agenda necessária para o Brasil
O IVEPESP entende que a superação dessa invisibilidade exige uma agenda estruturante, envolvendo:
a) Reconhecimento institucional
- criação e consolidação de carreiras de staff scientist e especialistas de pesquisa;
- valorização formal de contribuições técnicas em projetos e avaliações.
b) Reformulação dos sistemas de avaliação
- incorporação de métricas de contribuição coletiva;
- reconhecimento de autoria técnica e metodológica;
- avaliação de impacto organizacional e não apenas bibliométrico.
c) Fortalecimento da infraestrutura científica
- estabilidade de equipes técnicas;
- investimento em competências transversais (dados, IA, instrumentação, HPC);
- integração entre pesquisadores docentes e profissionais de apoio.
d) Cultura acadêmica inclusiva
- participação ampliada em decisões científicas;
- visibilidade em apresentações e produtos de pesquisa;
- estímulo a lideranças que reconheçam a diversidade de papéis na ciência.
6. Considerações finais
A ciência contemporânea exige equipes multidisciplinares, infraestruturas complexas e competências técnicas altamente especializadas. Ignorar o papel desses profissionais significa comprometer a eficiência e a sustentabilidade do sistema científico.
Tornar visível a ciência invisível não é apenas uma questão de justiça institucional.
É uma condição para:
- elevar a produtividade científica,
- fortalecer a inovação,
- e consolidar um sistema de pesquisa compatível com os desafios do século XXI.
O IVEPESP entende que o debate sobre carreira científica ampliada deve integrar a agenda nacional de educação, ciência e tecnologia, contribuindo para um ecossistema mais eficiente, inclusivo e estratégico.
Prof. Dr. Helio Dias
Presidente do IVEPESP
https://ivepesp.org.br/membro/helio-dias/
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