Uma análise da tutoria educacional como instrumento de recuperação da aprendizagem, redução das desigualdades e melhoria da qualidade da educação básica brasileira.

1. Apresentação

A recuperação da aprendizagem constitui um dos maiores desafios da educação brasileira. Milhões de estudantes avançam de ano escolar sem dominar plenamente competências fundamentais de leitura, escrita e matemática, acumulando dificuldades que comprometem seu desempenho futuro, suas oportunidades profissionais e sua participação na sociedade.

Esse problema exige mais do que a ampliação dos investimentos educacionais. Exige identificar intervenções pedagógicas comprovadamente eficazes, avaliar seus custos, acompanhar seus resultados e desenvolver mecanismos que permitam sua implementação em grande escala.

Nesse contexto, merece atenção a experiência de tutoria educacional desenvolvida pela Secretaria da Educação do Estado de São Paulo, apresentada por Daniel Barros e Guilherme Lichand no artigo “Recompor aprendizagem em escala é possível”, publicado no jornal Valor Econômico.

A experiência apresenta resultados preliminares promissores e dialoga com um conjunto expressivo de pesquisas científicas internacionais.

O IVEPESP considera oportuno examinar essa iniciativa sob três perspectivas complementares: a consistência das evidências científicas, a avaliação dos resultados alcançados e a viabilidade de sua transformação em uma política pública sustentável e replicável.

2. O que é a tutoria educacional e por que pode funcionar?

A tutoria educacional consiste em oferecer acompanhamento pedagógico direcionado a estudantes que apresentam dificuldades específicas de aprendizagem.

Diferentemente das aulas tradicionais de reforço, que frequentemente repetem conteúdos já apresentados, a tutoria estruturada procura identificar quais competências o estudante ainda não desenvolveu e organizar intervenções específicas para superar essas dificuldades.

A metodologia envolve diagnóstico inicial, formação de pequenos grupos, atividades pedagógicas estruturadas, acompanhamento frequente e avaliações periódicas.

A hipótese pedagógica é relativamente simples: estudantes que apresentam dificuldades diferentes não devem necessariamente receber o mesmo tratamento educacional.

A individualização do ensino, mesmo quando realizada em pequenos grupos, pode aumentar a interação entre professor e estudante, permitir correções imediatas e acelerar a aquisição de competências fundamentais.

Essa abordagem não substitui o professor responsável pela turma. Ao contrário, procura fortalecer seu trabalho, oferecendo apoio complementar aos estudantes que mais necessitam.

3. Evidências científicas internacionais

A eficácia da tutoria educacional não depende exclusivamente de experiências isoladas.

Uma revisão sistemática e metanálise publicada em 2024 no American Educational Research Journal, de autoria de Andre Nickow, Philip Oreopoulos e Vincent Quan, encontrou efeito médio positivo de aproximadamente 0,288 desvio-padrão sobre a aprendizagem.

Os resultados foram especialmente favoráveis quando a tutoria ocorreu durante o período escolar, com frequência de pelo menos três dias por semana, e foi conduzida por professores ou profissionais preparados.

A Education Endowment Foundation, organização britânica dedicada à avaliação de intervenções educacionais, apresenta estimativas igualmente relevantes.

ModalidadeProgresso adicional médio
Tutoria individual5 meses
Tutoria em grupos de 2 a 5 alunos4 meses

Esses resultados representam estimativas de progresso adicional em relação a estudantes comparáveis que não receberam a intervenção, e não a eliminação automática de cinco ou quatro meses de defasagem.

As pesquisas também indicam que o impacto depende de fatores como frequência, duração, qualificação dos tutores, tamanho dos grupos e integração com o currículo regular.

Uma questão particularmente importante é o tamanho dos grupos. A evidência internacional mais favorável à tutoria em pequenos grupos refere-se geralmente a dois a cinco estudantes, com tendência de redução de eficácia em grupos maiores.

Portanto, a expansão da tutoria precisa considerar não apenas o número de estudantes atendidos, mas também a intensidade e a qualidade do atendimento.

4. A experiência do Estado de São Paulo

A Secretaria da Educação do Estado de São Paulo vem desenvolvendo iniciativas de recomposição da aprendizagem, entre elas o Professor Tutor e o Aluno Monitor.

O primeiro utiliza acompanhamento pedagógico estruturado, enquanto o segundo incorpora mecanismos de aprendizagem entre pares, nos quais estudantes apoiam colegas em determinadas atividades.

Segundo informações divulgadas pelos responsáveis, o Professor Tutor dos Anos Finais passou de aproximadamente 500 escolas em 2025 para cerca de 3.000 em 2026, alcançando mais de 300 mil estudantes. Esses números indicam a dimensão da implementação, mas não constituem, por si, evidência de impacto pedagógico.

Os programas apresentam características distintas conforme a etapa escolar. Nos anos iniciais, a orientação oficial prevê três aulas semanais, com prioridade para até seis estudantes por turma. Nos anos finais, a organização prevê grupos de 10 a 15 estudantes, selecionados por avaliação diagnóstica.

4.1. Resultados apresentados na reportagem

Os gráficos publicados apresentam os seguintes valores de defasagem em Matemática:

IndicadorSem tutoriaCom tutoria
Defasagem inicial3,55 anos4,44 anos
Defasagem final2,90 anos2,01 anos
Redução observada0,65 ano2,43 anos

Evolução da defasagem escolar em Matemática

Valores aproximados transcritos da reportagem apresentada, sujeitos à conferência com os dados originais.

A redução observada no grupo com tutoria corresponde a aproximadamente 55% da defasagem inicial, contra 18% no grupo sem tutoria.

A diferença entre as reduções observadas é de 1,78 ano escolar.

Esses números são expressivos, sobretudo porque o grupo atendido pela tutoria apresentava inicialmente maior defasagem.

Entretanto, a diferença observada não deve ser automaticamente interpretada como efeito causal do programa.

É necessário conhecer a metodologia da avaliação, os critérios de seleção, a comparabilidade dos grupos, as taxas de abandono e a forma de conversão dos resultados dos testes em anos de aprendizagem.

Os dados devem ser tratados como resultados preliminares divulgados na reportagem, e não como estimativas causais independentemente verificadas pelo IVEPESP.

5. A importância de uma avaliação científica independente

O IVEPESP considera fundamental que iniciativas educacionais de grande escala sejam acompanhadas de avaliações independentes, transparentes e metodologicamente rigorosas.

Para o programa paulista, propõe-se a divulgação de um relatório técnico que permita responder às seguintes questões:

  1. Os estudantes atendidos pela tutoria apresentaram ganhos superiores aos de estudantes comparáveis que não receberam o atendimento?
  2. Os resultados permanecem após seis meses e um ano?
  3. Quais grupos socioeconômicos foram mais beneficiados?
  4. Qual é a contribuição específica do Professor Tutor e qual é a do Aluno Monitor?
  5. Qual é o custo efetivo por estudante e por unidade de aprendizagem recuperada?

A avaliação deve utilizar instrumentos padronizados, indicadores de frequência e informações sobre a trajetória escolar.

Sempre que possível, recomenda-se a utilização de desenhos experimentais com distribuição aleatória ou, quando isso não for viável, de métodos quase experimentais adequados.

A independência da avaliação não representa desconfiança em relação aos responsáveis pelo programa. Constitui uma condição importante para conferir credibilidade científica aos resultados e orientar decisões de investimento público.

6. O custo da recomposição da aprendizagem

Uma das principais questões para a formulação de políticas públicas é determinar se a tutoria oferece resultados educacionais compatíveis com seus custos.

A reportagem apresenta referências de custos mensais por estudante, mas a definição de um valor nacional exige conhecer a carga horária, a remuneração dos profissionais, a quantidade de alunos por grupo e os custos administrativos.

O IVEPESP propõe que sejam calculados três indicadores:

O terceiro indicador é particularmente relevante porque permite comparar intervenções educacionais distintas.

6.1. Simulação financeira

Para ilustrar a dimensão de uma eventual expansão nacional, consideremos três cenários hipotéticos de custo mensal por estudante.

Estudantes atendidosR$ 100/mêsR$ 200/mêsR$ 300/mês
500 milR$ 500 miR$ 1 biR$ 1,5 bi
1 milhãoR$ 1 biR$ 2 biR$ 3 bi
3 milhõesR$ 3 biR$ 6 biR$ 9 bi

Valores anuais considerando dez meses de atendimento. Cenários exclusivamente ilustrativos, não correspondentes a orçamento oficial ou custo comprovado dos programas paulistas.

Os valores mostram que uma política de tutoria pode exigir investimentos expressivos, mas potencialmente administráveis dentro de uma estratégia plurianual de financiamento educacional.

A questão central não deve ser apenas quanto custa implementar o programa, mas quanto custa não enfrentar as defasagens que comprometem a aprendizagem, a conclusão escolar e a qualificação profissional.

É importante, contudo, evitar a atribuição de benefícios econômicos sem estudos específicos que estabeleçam a relação entre os ganhos de aprendizagem e seus efeitos de longo prazo.

7. Uma proposta de metodologia nacional de avaliação

O IVEPESP propõe a criação de um protocolo de avaliação da recomposição da aprendizagem, aplicável às redes estaduais e municipais.

Recomenda-se que o estudo seja acompanhado por instituições de pesquisa e universidades, mediante protocolos públicos e procedimentos de proteção dos dados dos estudantes.

A participação de pesquisadores independentes permitiria aprimorar os programas e produzir conhecimento científico relevante para o conjunto do país.

8. Inteligência artificial como instrumento complementar

A utilização de inteligência artificial representa uma possibilidade adicional para tornar a tutoria mais precisa e ampliar sua capacidade de atendimento.

Sistemas de IA podem auxiliar na identificação de dificuldades individuais, na seleção de exercícios, na organização de trajetórias de aprendizagem e no acompanhamento da evolução dos estudantes.

Por exemplo, um estudante do 7º ano que apresenta dificuldades com equações pode, na realidade, não ter consolidado operações com frações ou números negativos.

Um sistema de diagnóstico poderia identificar essas lacunas e sugerir atividades apropriadas, permitindo ao professor concentrar sua atenção nas necessidades específicas do aluno.

Entretanto, a adoção dessas tecnologias deve observar condições fundamentais:

  • Supervisão pedagógica dos professores.
  • Proteção dos dados pessoais dos estudantes, conforme a LGPD.
  • Avaliação independente dos resultados educacionais.
  • Acessibilidade e redução das desigualdades digitais.
  • Transparência dos critérios utilizados pelos sistemas.

A inteligência artificial deve ser compreendida como instrumento de apoio ao trabalho docente, e não como substituta da relação humana indispensável ao processo educativo.

O IVEPESP recomenda que eventuais soluções de tutoria apoiadas por IA sejam submetidas a avaliações comparativas, para verificar se efetivamente acrescentam resultados à tutoria convencional e se justificam seus custos.

9. Recomendações para a política educacional brasileira de 2027–2030

A experiência paulista, combinada com a literatura científica internacional, permite formular recomendações para o próximo ciclo de planejamento educacional brasileiro.

Primeira recomendação — Instituir uma política nacional de recomposição da aprendizagem.

A recuperação de competências fundamentais deve integrar as prioridades do planejamento educacional, com articulação entre União, estados e municípios e respeito às competências de cada ente federativo.

Segunda recomendação — Priorizar estudantes com maiores defasagens.

A distribuição dos recursos deve considerar indicadores objetivos de aprendizagem e vulnerabilidade socioeconômica, evitando que as desigualdades existentes sejam reproduzidas.

Terceira recomendação — Financiar programas acompanhados de evidências.

A ampliação das iniciativas deve ser condicionada ao monitoramento dos resultados, à transparência dos custos e ao aperfeiçoamento contínuo das metodologias.

Quarta recomendação — Valorizar e preparar os professores tutores.

A eficácia da intervenção depende de profissionais capacitados, materiais pedagógicos adequados e integração com os professores responsáveis pelas turmas.

Quinta recomendação — Estabelecer metas verificáveis.

Propõe-se que cada rede de ensino publique anualmente indicadores de aprendizagem, evolução das defasagens, permanência escolar e custo-efetividade.

Sexta recomendação — Criar uma rede nacional de pesquisa e avaliação.

Universidades, institutos de pesquisa e órgãos públicos poderiam desenvolver protocolos compartilhados para avaliar programas de tutoria e disseminar práticas comprovadamente eficazes.

Essa rede permitiria transformar experiências locais em conhecimento acumulado, reduzindo a repetição de iniciativas sem avaliação e favorecendo a continuidade das políticas públicas.

10. Conclusões

As evidências científicas internacionais indicam que a tutoria educacional estruturada pode produzir ganhos significativos de aprendizagem, especialmente quando realizada de maneira frequente, com profissionais preparados, grupos reduzidos e acompanhamento individualizado.

A experiência desenvolvida pela Secretaria da Educação do Estado de São Paulo merece atenção por procurar aplicar esses princípios em uma rede educacional de grande dimensão.

Os resultados apresentados por Daniel Barros e Guilherme Lichand são promissores e justificam o aprofundamento da avaliação.

Entretanto, a consistência de uma política pública exige distinguir resultados observados, impactos causalmente demonstrados e expectativas de benefícios futuros.

O IVEPESP considera que o Brasil possui condições institucionais, científicas e tecnológicas para desenvolver uma política nacional de recomposição da aprendizagem, articulando universidades, redes de ensino, pesquisadores e gestores públicos.

A experiência paulista pode representar uma referência importante nesse processo, desde que seus resultados sejam submetidos a avaliação independente, acompanhados de informações transparentes sobre custos e aperfeiçoados à luz das evidências.

O objetivo não deve ser apenas ampliar o número de estudantes atendidos, mas assegurar que cada estudante efetivamente aprenda aquilo que a escola tem a responsabilidade de ensinar.

A educação brasileira precisa avançar de uma lógica predominantemente centrada na oferta de vagas e na progressão escolar para uma política que também assegure a aprendizagem efetiva.

A recomposição da aprendizagem não deve ser tratada como uma medida emergencial e transitória. Deve integrar uma estratégia permanente de garantia do direito à educação de qualidade.

11. Referências e fontes

1. BARROS, Daniel; LICHAND, Guilherme. Recompor aprendizagem em escala é possível. Valor Econômico, reportagem apresentada em outubro de 2026. Dados quantitativos transcritos da imagem fornecida, pendentes de conferência com as bases originais.

2. NICKOW, Andre; OREOPOULOS, Philip; QUAN, Vincent. The Promise of Tutoring for PreK–12 Learning: A Systematic Review and Meta-Analysis of the Experimental Evidence. American Educational Research Journal, v. 61, n. 1, p. 74–107, 2024. Consultar estudo científico.

3. EDUCATION ENDOWMENT FOUNDATION. One to one tuition. Revisão de evidências sobre tutoria individual. Consultar evidências.

4. EDUCATION ENDOWMENT FOUNDATION. Small group tuition. Revisão de evidências sobre tutoria em pequenos grupos. Consultar evidências.

5. SECRETARIA DA EDUCAÇÃO DO ESTADO DE SÃO PAULO. Projeto Professor Tutor — Anos Finais do Ensino Fundamental. Orientações oficiais de implementação. Consultar programa.

6. SECRETARIA DA EDUCAÇÃO DO ESTADO DE SÃO PAULO. Programa Professor Tutor Anos Iniciais — PROFTAI 2026. Consultar orientações.

Prof. Dr. Hélio Dias
Presidente do IVEPESP
Instituto para a Valorização da Educação e da Pesquisa do Estado de São Paulo
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Cerqueira César – São Paulo/SP
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