A experiência do BAYLAT — Centro Universitário da Baviera para a América Latina (Bayerisches Hochschulzentrum für Lateinamerika) merece especial atenção do Estado de São Paulo.
Mais do que promover intercâmbio universitário, o BAYLAT constitui uma estrutura permanente de aproximação entre a Baviera e a América Latina, articulando universidades, pesquisadores, estudantes, financiamento, redes científicas e políticas de inovação.
A apresentação do BAYLAT evidencia três níveis complementares de atuação: formação de estudantes, criação de novas cooperações científicas e consolidação de redes institucionais de longo prazo.
1. Formação: bolsas para estudantes latino-americanos
Um dos instrumentos apresentados é a concessão de bolsas para estudantes matriculados em instituições de ensino superior da América Latina realizarem uma estadia de pesquisa em uma instituição parceira na Baviera, vinculada ao trabalho final de bacharelado ou mestrado.
O programa prevê:
- estadias de 1 a 5 meses;
- apoio mensal de até € 992;
- auxílio único de até € 200 para seguro médico;
- seleção considerando desempenho acadêmico, qualidade do projeto e domínio do idioma necessário à pesquisa.
A página oficial confirma esses parâmetros e esclarece que o programa é destinado à realização de trabalhos de conclusão de graduação ou mestrado, não abrangendo tese de doutorado. A chamada para estadias em 2026/27 está atualmente encerrada; o BAYLAT informa que a próxima deverá ocorrer, provavelmente, no final de 2027. Baylat
Esse instrumento merece atenção porque introduz o estudante latino-americano no ambiente científico bávaro antes do doutorado, criando condições para futuras relações acadêmicas mais duradouras.
2. Um segundo instrumento: transformar contatos em projetos
O BAYLAT mantém também um programa de financiamento inicial — seed funding — para novos projetos de pesquisa e ensino entre pesquisadores da Baviera e da América Latina.
Podem ser apoiados:
- projetos conjuntos de pesquisa;
- desenvolvimento de programas acadêmicos binacionais;
- projetos de melhoria do ensino superior;
- projetos digitais de pesquisa e ensino;
- atividades presenciais, virtuais ou híbridas.
O financiamento pode chegar a € 8 mil por projeto, com duração máxima de 12 meses.
Há um aspecto particularmente interessante: o BAYLAT exige que o projeto demonstre como a cooperação continuará depois do financiamento inicial, seja por meio de novas propostas a agências de fomento, publicações conjuntas ou continuidade institucional. Baylat
Portanto, não se trata simplesmente de financiar uma viagem ou uma reunião.
O pequeno financiamento é utilizado para produzir uma cooperação maior.
A apresentação encaminhada indicava uma nova chamada para o segundo semestre de 2026. Essa chamada efetivamente ocorreu: o prazo oficial para projetos a serem financiados em 2027 foi 21 de setembro de 2026, tendo, portanto, acabado de se encerrar. Baylat
3. FAPESP–BAYLAT: São Paulo já possui uma ponte privilegiada
Para o IVEPESP, talvez este seja o ponto mais relevante.
A Baviera e o Estado de São Paulo não estão começando uma relação: já existe uma estrutura institucional de cooperação entre FAPESP e BAYLAT.
O acordo original foi firmado em 11 de abril de 2012, posteriormente renovado, e sua vigência atual alcança 11 de abril de 2027. Baylat
A chamada FAPESP–BAYLAT para workshops permite organizar dois encontros científicos, um em São Paulo e outro na Baviera, com participação de pesquisadores dos dois territórios.
Na chamada de 2025:
FAPESP e BAYLAT puderam contribuir, cada um, com até € 30 mil por proposta, potencializando recursos para mobilidade, organização dos encontros e formação de redes científicas. FAPESP
Os workshops realizados no âmbito da chamada de 2025 devem ocorrer entre novembro de 2025 e novembro de 2027 e são concebidos especialmente para estimular novos pesquisadores, doutorandos em fase final e pesquisadores em início de carreira. FAPESP
Foram selecionados cinco projetos para workshops em 2026–2027, abrangendo áreas que incluem linguística, ciência política, materiais, medicina e neurociências. Baylat
Isso demonstra que a parceria São Paulo–Baviera já passou da fase de intenções e apresenta resultados concretos.
4. LATinBAY: talvez uma das ideias mais interessantes do modelo
Outro elemento apresentado merece destaque: a rede LATinBAY.
Ela possui dois sistemas complementares:
Sistema de Informação de Pesquisa, destinado a localizar pesquisadores e competências científicas relacionadas à América Latina na Baviera;
e
Sistema de Informação de Cooperação, voltado a identificar parcerias existentes, áreas de colaboração, instituições envolvidas e modalidades de cooperação.
A lógica é simples, mas poderosa:
antes de criar novas colaborações internacionais, é preciso saber quem pesquisa o quê, onde está e com quem já coopera.
O BAYLAT utiliza, portanto, informação estruturada como instrumento de internacionalização. A plataforma LATinBAY é descrita pelo próprio BAYLAT como uma base digital destinada a conectar pesquisadores com atuação relacionada à América Latina. Baylat
5. A conexão com a Hightech Agenda Bayern
A apresentação também coloca o BAYLAT dentro de uma política pública muito mais ampla: a Hightech Agenda Bayern.
A estratégia bávara procura utilizar ciência e tecnologia para estimular inovação, competitividade econômica e desenvolvimento sustentável, promovendo colaboração entre:
universidades + centros de pesquisa + empresas + governo.
Entre as áreas estratégicas aparecem inteligência artificial, energia e tecnologias aeroespaciais.
O próprio BAYLAT informa que trabalha em conexão com a Hightech Agenda Bayern, inserindo a cooperação internacional dentro dessa estratégia tecnológica. Baylat
Aqui está talvez a principal diferença conceitual.
A internacionalização deixa de ser apenas uma política das universidades e passa a integrar uma estratégia mais ampla de desenvolvimento econômico baseado em conhecimento.
6. O que São Paulo pode aprender com a Baviera?
O paralelo é particularmente interessante porque São Paulo dispõe de ativos comparáveis em escala regional:
USP, UNESP, UNICAMP, UNIFESP, universidades federais, universidades privadas, FAPESP, IPT, institutos de pesquisa, centros tecnológicos, hospitais universitários, startups e um dos maiores parques industriais da América Latina.
Entretanto, esses ativos nem sempre aparecem internacionalmente de maneira articulada.
A experiência do BAYLAT sugere que uma política de internacionalização mais estruturada poderia trabalhar simultaneamente com quatro elementos:
mapear → conectar → financiar → escalar.
Primeiro, identificar competências.
Depois, aproximar pessoas e instituições.
Em seguida, disponibilizar pequenos financiamentos para iniciar a cooperação.
Finalmente, conduzir os projetos promissores a programas maiores de financiamento, pesquisa, inovação e cooperação empresarial.
7. Uma oportunidade concreta para o IVEPESP
A partir da apresentação recebida, considero que o IVEPESP poderia ir além de simplesmente divulgar o BAYLAT.
Poderia propor uma iniciativa:
IVEPESP–BAYLAT | São Paulo–Baviera: Educação, Ciência e Inovação
Uma primeira experiência poderia ser bastante objetiva.
O IVEPESP selecionaria inicialmente cinco ou seis áreas estratégicas, por exemplo:
Inteligência Artificial e Ciência de Dados
Saúde e Biotecnologia
Energia e Sustentabilidade
Manufatura Avançada e Indústria 4.0
Educação e formação profissional
Semicondutores e tecnologias digitais
Para cada área, poderiam ser identificados:
- pesquisadores e grupos de São Paulo;
- pesquisadores correspondentes na Baviera utilizando o LATinBAY;
- cooperações já existentes;
- oportunidades de novos projetos;
- programas BAYLAT/FAPESP adequados ao financiamento.
O resultado poderia ser um primeiro:
Mapa São Paulo–Baviera de Competências Científicas e Tecnológicas
seguido de um:
Workshop IVEPESP–BAYLAT sobre Educação, Ciência, Tecnologia e Inovação
Essa iniciativa não substituiria FAPESP nem universidades.
Ao contrário: o IVEPESP poderia atuar justamente como articulador, ajudando a reunir universidades, institutos de pesquisa, empresas e organizações alemãs interessadas em São Paulo.
Uma conclusão importante
A apresentação do BAYLAT permite enxergar algo maior do que um conjunto de bolsas.
O modelo bávaro estabelece uma sequência:
formar estudantes → aproximar pesquisadores → financiar projetos iniciais → criar redes → conectar ciência e inovação → construir relações internacionais duradouras.
Essa visão merece atenção no Brasil.
Talvez a pergunta que o BAYLAT nos ajude a formular seja:
Como transformar a extraordinária capacidade científica e universitária do Estado de São Paulo em uma estratégia internacional permanente de educação, ciência, tecnologia e inovação?
São Paulo já possui grande parte da infraestrutura científica necessária.
O próximo passo pode ser aperfeiçoar os mecanismos capazes de conectá-la internacionalmente de maneira organizada, contínua e estratégica.
Prof. Dr. Helio Dias
Presidente do IVEPESP
Instituto para a Valorização da Educação e da Pesquisa do Estado de São Paulo
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