1. Um alerta que merece atenção nacional
O Brasil construiu, ao longo de décadas, uma relevante capacidade científica e acadêmica. Possui universidades consolidadas, programas de pós-graduação, pesquisadores qualificados e um sistema de financiamento à pesquisa apoiado por instituições como CNPq, CAPES, FINEP e Fundações Estaduais de Amparo à Pesquisa, com destaque para a FAPESP.
Entretanto, quando observamos especificamente a Inteligência Artificial (IA), surge um sinal preocupante:
o Brasil continua produzindo conhecimento, mas cresce muito menos que o mundo e está perdendo participação relativa justamente quando a IA se transforma em tecnologia estratégica para a ciência, a economia e a sociedade.
Dados apresentados pelo Prof. Carlos Henrique de Brito Cruz, Senior Vice-President, Research Networks, da Elsevier, no seminário Human Resources for AI, realizado no Instituto de Estudos Avançados da USP em agosto de 2026, ajudam a dimensionar esse desafio.
O levantamento analisa aproximadamente 4,4 milhões de publicações relacionadas à IA indexadas na base Scopus entre 1996 e 2025, permitindo acompanhar a evolução da produção científica, dos pesquisadores, das instituições e de sua inserção profissional.
2. A geografia mundial da pesquisa em IA está mudando rapidamente
Entre 2021 e 2025, a distribuição mundial das publicações relacionadas à Inteligência Artificial apresenta forte concentração:
China — 36,4%
União Europeia (EU27) — 13,0%
Índia — 12,3%
Estados Unidos — 10,4%
Brasil — aproximadamente 1,0%
O Brasil aparece na 18ª posição, considerando os países individualmente.
Mais importante que a posição atual, entretanto, é observar a trajetória.
Em 2016, o Brasil respondia por aproximadamente 1,8% da produção mundial relacionada à IA. Em 2025, essa participação havia caído para cerca de 0,9%.
Em menos de uma década, portanto, nossa participação relativa foi aproximadamente reduzida pela metade.
3. O mundo acelera; o Brasil cresce lentamente
A diferença torna-se ainda mais evidente quando observamos as taxas de crescimento.
Em 2025, considerando a taxa média de crescimento dos cinco anos anteriores, as publicações relacionadas à IA avançavam aproximadamente:
Mundo — 20,0% ao ano
China — 26,0%
Índia — 33,0%
União Europeia — 13,1%
Estados Unidos — 11,6%
Brasil — 6,1%
Entre os 25 países com maior produção relacionada à IA considerados no levantamento, somente a Rússia apresentou taxa de crescimento inferior à brasileira.
Existe ainda uma mudança temporal particularmente relevante: até aproximadamente 2019, o Brasil acompanhava o crescimento médio mundial. A partir daí, perdeu velocidade.
A questão estratégica, portanto, não deveria ser somente:
“Quanto o Brasil produz em Inteligência Artificial?”
Precisamos perguntar:
“Por que o Brasil deixou de acompanhar o ritmo internacional justamente quando a Inteligência Artificial passou a ocupar posição central na competição científica e tecnológica?”
4. O Brasil possui uma base científica relevante
O diagnóstico não significa que o Brasil não tenha competência em Inteligência Artificial.
Em 2025, havia aproximadamente 17,8 mil autores de publicações relacionadas à IA vinculados a instituições brasileiras.
Na América Latina, o Brasil mantém posição destacada na produção científica relacionada ao tema.
Considerando publicações pelo autor correspondente, o número brasileiro passou de aproximadamente 3.849 trabalhos em 2021 para 4.996 em 2025.
Existe, portanto, uma base científica importante.
O problema é que outros países estão expandindo essa capacidade muito mais rapidamente.
5. As universidades são o núcleo da capacidade brasileira em IA
Entre as aproximadamente 21,2 mil publicações relacionadas à IA com autores brasileiros no período 2021–2025, as universidades ocupam posição central.
A USP aparece associada a aproximadamente 14,2% dessas publicações, seguida por instituições como Unicamp, Unesp, UFMG, UFRJ, UFPE, UFRGS, UTFPR, UFSC, UnB, UFPR, UFF, UFC, UFSCar, PUC-Rio, Unifesp, UFABC e ITA, entre outras.
Esse resultado reforça uma questão fundamental:
não haverá estratégia brasileira consistente para Inteligência Artificial sem universidades fortes, pós-graduação de qualidade, pesquisa científica e formação avançada de recursos humanos.
A universidade brasileira não está à margem da transformação provocada pela IA. Ela constitui parte fundamental da capacidade científica que o país já possui.
6. O elo que precisa ser fortalecido: universidade, pesquisa e empresas
Outro indicador merece atenção especial.
Apenas cerca de 4% dos autores brasileiros de publicações relacionadas à IA estão vinculados a entidades do setor empresarial.
Para comparação:
Japão — aproximadamente 12%
Estados Unidos — 10%
Alemanha — 9,2%
China — 6,6%
Brasil — 4,1%
O indicador evidencia um desafio histórico do sistema brasileiro de ciência, tecnologia e inovação: transformar capacidade científica em inovação, produtividade e desenvolvimento econômico.
O levantamento identifica 262 empresas no Brasil com publicações relacionadas à IA entre 2021 e 2025, sendo 106 localizadas no Estado de São Paulo.
Entre as organizações mencionadas encontram-se Petrobras, Embrapa, Instituto Tecnológico Vale, Vale, Embraer, CPFL Energia, CPqD, NeuralMind, Maritaca AI e Itaú, entre outras.
São exemplos importantes, mas ainda insuficientes diante da dimensão da economia brasileira.
Precisamos criar mais oportunidades para que pesquisadores altamente qualificados atuem também nas empresas e para que problemas concretos da indústria e dos serviços sejam transformados em agendas de pesquisa nas universidades.
7. Quem sustenta a pesquisa brasileira em IA?
Os dados também demonstram a importância das agências públicas de financiamento.
Considerando os agradecimentos registrados nas aproximadamente 21,1 mil publicações brasileiras relacionadas à IA entre 2021 e 2025, aparecem:
CNPq — aproximadamente 42%
CAPES — aproximadamente 40%
FAPESP — aproximadamente 15,5%
Os percentuais não são excludentes, pois uma mesma publicação pode reconhecer o apoio de mais de uma instituição.
O resultado, entretanto, é significativo:
CNPq, CAPES e FAPESP constituem componentes estruturais da capacidade brasileira de produzir conhecimento em Inteligência Artificial.
Isso reforça a necessidade de políticas de longo prazo para bolsas, financiamento à pesquisa, formação de pesquisadores e internacionalização.
8. Da produção científica à capacidade nacional em IA
Produzir artigos científicos é essencial, mas não suficiente.
Uma estratégia nacional de Inteligência Artificial precisa transformar conhecimento científico em capacidade tecnológica.
Isso exige pelo menos quatro componentes adicionais.
Infraestrutura computacional.
Pesquisadores precisam ter acesso a computação de alto desempenho, GPUs, armazenamento, modelos avançados e ambientes adequados para treinamento e experimentação.
Dados científicos.
Universidades, ICTs e empresas precisam desenvolver ambientes seguros e interoperáveis para compartilhamento e utilização de dados científicos e tecnológicos, respeitando segurança, privacidade, propriedade intelectual e legislação.
Formação em IA.
Precisamos ampliar a formação de pesquisadores, engenheiros, cientistas de dados e profissionais capazes não apenas de utilizar ferramentas de IA, mas de desenvolver modelos, avaliar resultados, compreender limitações e criar novas aplicações.
Transferência universidade–empresa.
Devem ser fortalecidos programas de doutorado industrial, laboratórios conjuntos, projetos cooperativos, startups acadêmicas e mecanismos de mobilidade de pesquisadores entre universidades, ICTs e empresas.
9. IA para acelerar a própria ciência
Existe ainda uma dimensão estratégica adicional.
A Inteligência Artificial não deve ser vista somente como um setor econômico ou uma tecnologia destinada à automação.
Ela está se transformando também em instrumento para acelerar a descoberta científica — AI for Science.
Modelos de IA podem contribuir para descoberta de medicamentos, novos materiais, previsão climática, agricultura, energia, engenharia, biologia, física e diversas outras áreas.
O Brasil possui vantagens importantes para participar dessa transformação: universidades, pós-graduação, biodiversidade, agricultura avançada, sistema de saúde de grande escala e experiência científica em diferentes áreas.
Integrar essas competências à Inteligência Artificial pode criar oportunidades científicas e econômicas de grande relevância.
10. Uma proposta: Programa Nacional de Capacidade Científica em Inteligência Artificial
O IVEPESP considera oportuno discutir uma estratégia nacional capaz de integrar ciência, formação, infraestrutura e inovação.
Uma iniciativa dessa natureza poderia estabelecer metas mensuráveis para 2030 e 2035, contemplando:
- recuperar a participação brasileira na produção científica mundial relacionada à IA;
- ampliar o número de pesquisadores e grupos de pesquisa de excelência;
- expandir programas de mestrado, doutorado e pós-doutorado relacionados à IA;
- criar infraestrutura nacional compartilhada de computação para pesquisa em IA;
- estruturar bases e ambientes seguros de dados científicos;
- ampliar programas de internacionalização e mobilidade de pesquisadores;
- aumentar significativamente a presença de pesquisadores de IA nas empresas;
- estimular laboratórios conjuntos universidade–empresa e doutorados industriais;
- criar programas nacionais de AI for Science voltados a desafios estratégicos brasileiros;
- estabelecer indicadores públicos anuais que permitam acompanhar a evolução da capacidade científica e tecnológica brasileira em IA.
11. Não basta contar artigos
Uma política nacional não deveria estabelecer como objetivo simplesmente aumentar o número de publicações.
Precisamos acompanhar simultaneamente:
publicações + pesquisadores + impacto científico + internacionalização + infraestrutura + inovação + empresas + formação de recursos humanos.
Essa mudança de perspectiva é fundamental.
O objetivo final não é produzir estatísticas melhores.
É transformar conhecimento em:
ciência, inovação, produtividade, competitividade e melhoria das condições de vida da população.
12. Uma oportunidade que ainda existe
Os dados apresentados não justificam pessimismo, mas indicam urgência.
O Brasil não parte do zero.
Temos universidades competitivas, milhares de pesquisadores, pós-graduação estruturada, importantes agências de financiamento e posição de destaque na América Latina.
Essa infraestrutura levou décadas para ser construída.
Entretanto, China, Índia e diversos outros países estão expandindo muito rapidamente seus contingentes de pesquisadores, publicações, infraestrutura computacional e integração entre ciência e empresas.
Se mantivermos um crescimento muito inferior ao mundial, nossa participação relativa continuará diminuindo.
A pergunta estratégica deixou de ser:
“O Brasil possui competência em Inteligência Artificial?”
Os dados mostram que possui.
A questão agora é:
“Seremos capazes de transformar essa competência científica em escala, inovação, produtividade e desenvolvimento?”
Para isso, será necessário integrar políticas de educação, pós-graduação, pesquisa, financiamento, internacionalização, infraestrutura computacional, dados, inovação e participação empresarial.
A Inteligência Artificial está redefinindo a fronteira científica e tecnológica mundial.
O Brasil já construiu parte importante da base necessária. O desafio agora é não perder velocidade justamente quando essa capacidade se torna decisiva para o futuro do país.
Referência principal
Carlos Henrique de Brito Cruz. Research publications and authors on AI related themes – Brazil, Latam, World. Elsevier. Apresentação no Seminário Human Resources for AI, Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo, agosto de 2026.
Prof. Dr. Helio Dias
Presidente do IVEPESP
Instituto para a Valorização da Educação e da Pesquisa do Estado de São Paulo
Av. Paulista, nº 1636, Conjunto 4, 15º Pavimento
Cerqueira César – São Paulo/SP
CEP 01310-200
E-mail: [email protected]
Helio Henrique Villela Dias
Engenheiro de Computação • Cientista de Dados
IVEPESP / Lello Lab / UNIFESP