Portugal alcançou, em 2025, um novo máximo histórico de investimento em investigação e desenvolvimento. Segundo dados provisórios divulgados pelo Inquérito ao Potencial Científico e Tecnológico Nacional, o país aplicou 5,584 bilhões de euros em ciência e pesquisa, valor equivalente a 1,82% de seu Produto Interno Bruto.
O resultado representa um crescimento de 564 milhões de euros em relação a 2024 e confirma uma trajetória de expansão observada desde 2020. Trata-se do segundo ano consecutivo em que o investimento português em pesquisa supera a marca de 5 bilhões de euros.
Embora Portugal ainda permaneça abaixo da média da União Europeia e distante da meta nacional de investir 3% do PIB em ciência até 2030, o movimento merece atenção. Mais do que um aumento circunstancial, os dados indicam a construção de uma política que procura aproximar ciência, inovação, empresas e desenvolvimento econômico.
A experiência portuguesa também oferece elementos importantes para a reflexão sobre a realidade brasileira.
O protagonismo das empresas
Um dos aspectos mais relevantes do avanço português é a participação do setor empresarial. Dos 1,82% do PIB investidos em pesquisa e desenvolvimento:
- 1,16% corresponde aos investimentos das empresas;
- 0,51% ao ensino superior;
- 0,10% ao Estado;
- 0,05% às instituições privadas sem fins lucrativos.
As empresas respondem, portanto, por aproximadamente 64% de todo o investimento português em pesquisa e desenvolvimento.
Esse dado mostra que a ciência e a inovação não estão sendo tratadas exclusivamente como responsabilidades do Estado ou das universidades. O setor produtivo começa a assumir um papel central no financiamento de atividades voltadas à criação de novos produtos, processos, serviços e tecnologias.
Portugal também possui aproximadamente 87 mil trabalhadores vinculados à investigação, entre cientistas, técnicos e profissionais de apoio. Mais da metade desses trabalhadores atua em empresas, enquanto parcela significativa está concentrada no ensino superior.
Essa composição demonstra a existência de um esforço para aproximar a produção científica das necessidades econômicas e sociais do país.
O contraste com o Brasil
O Brasil investiu, em 2024, aproximadamente 1,23% do PIB em pesquisa e desenvolvimento, considerando os dados preliminares disponíveis. O percentual é significativamente inferior aos 1,82% registrados por Portugal em 2025.
Ainda que os dados se refiram a anos diferentes e sejam produzidos por metodologias nacionais próprias, a comparação revela uma diferença relevante. Proporcionalmente ao tamanho de sua economia, Portugal investe em pesquisa e desenvolvimento cerca de 48% a mais do que o Brasil.
O contraste se torna ainda mais evidente quando se observa a participação empresarial.
Enquanto as empresas portuguesas investem o equivalente a 1,16% do PIB, o investimento empresarial brasileiro permanece próximo de 0,6%. Em outras palavras, proporcionalmente ao PIB, o esforço empresarial português em pesquisa e desenvolvimento é quase duas vezes superior ao brasileiro.
No Brasil, o financiamento da ciência encontra-se dividido de maneira relativamente equilibrada entre o poder público e o setor empresarial. Essa distribuição, entretanto, não significa que o investimento privado seja suficiente. Ao contrário, revela que as empresas brasileiras ainda investem pouco em pesquisa, desenvolvimento tecnológico e inovação.
Essa é uma das fragilidades estruturais da economia brasileira.
Uma economia que ainda demanda pouca ciência
O Brasil possui universidades de excelência, institutos de pesquisa reconhecidos internacionalmente, uma comunidade científica numerosa e instituições públicas fundamentais, como CNPq, Capes, Finep, FNDCT, Embrapa, Fiocruz e as fundações estaduais de apoio à pesquisa.
O problema brasileiro não está na ausência de capacidade científica. Está, em grande medida, na dificuldade de transformar essa capacidade em inovação, produtividade e desenvolvimento econômico.
Grande parte da estrutura produtiva nacional continua baseada em atividades de baixa ou média intensidade tecnológica. Muitas empresas investem pouco em laboratórios próprios, formação de pesquisadores, cooperação com universidades e desenvolvimento de tecnologias originais.
Como resultado, o país produz conhecimento científico relevante, mas nem sempre consegue transformá-lo em novos produtos, processos industriais, patentes, empresas tecnológicas ou ganhos sustentáveis de produtividade.
O desafio brasileiro, portanto, não é apenas formar mais pesquisadores. É criar um ambiente econômico capaz de absorvê-los e de transformar o conhecimento que produzem em benefícios para toda a sociedade.
Investimento privado não substitui ciência pública
A experiência portuguesa também traz um alerta. O crescimento dos investimentos empresariais tende a favorecer projetos aplicados, desenvolvimento tecnológico e iniciativas com retorno econômico mais próximo.
Segundo os dados apresentados na matéria, apenas uma pequena parcela do investimento empresarial português é destinada à pesquisa fundamental.
Essa realidade não é exclusiva de Portugal. Empresas, por sua própria natureza, tendem a priorizar projetos com resultados econômicos identificáveis e prazos relativamente definidos. A pesquisa básica, por outro lado, frequentemente exige anos ou décadas para produzir aplicações concretas.
Por isso, o aumento do investimento empresarial não pode ser utilizado como justificativa para a redução dos investimentos públicos em ciência.
O papel do Estado permanece indispensável no financiamento da pesquisa fundamental, na formação de pesquisadores, na manutenção de laboratórios e na sustentação de áreas científicas estratégicas que não necessariamente produzem retorno comercial imediato.
A lição não é substituir investimento público por investimento privado. É somar os dois esforços.
O que o Brasil precisa fazer
Para aproximar-se dos países mais intensivos em conhecimento, o Brasil precisa construir uma política de ciência, tecnologia e inovação que ultrapasse governos e oscilações econômicas.
Essa política deve incluir:
- financiamento público estável e previsível, evitando contingenciamentos que interrompam pesquisas e desestruturem equipes;
- ampliação do investimento empresarial em pesquisa e desenvolvimento, com incentivos associados a resultados tecnológicos efetivos;
- fortalecimento das universidades e institutos de pesquisa, garantindo autonomia, infraestrutura e condições adequadas para o trabalho científico;
- maior aproximação entre universidades, empresas e governo, por meio de projetos cooperativos e ambientes de inovação;
- fortalecimento das Instituições Científicas, Tecnológicas e de Inovação, que podem atuar como pontes entre pesquisadores, empresas, órgãos públicos e fontes de financiamento;
- uso estratégico de compras públicas de inovação, permitindo que o Estado estimule o desenvolvimento de soluções nacionais;
- apoio às pequenas e médias empresas, que muitas vezes não possuem estrutura técnica para acessar os instrumentos de financiamento disponíveis;
- adoção de metas nacionais verificáveis, acompanhadas por indicadores transparentes e avaliações periódicas;
- formação e absorção de pesquisadores pelo setor produtivo, reduzindo a distância entre a pós-graduação e o mercado de trabalho;
- articulação entre ciência, política industrial e desenvolvimento nacional.
Não basta ampliar recursos de forma isolada. É necessário garantir que os diferentes instrumentos de financiamento funcionem de maneira coordenada e que os resultados científicos possam chegar à sociedade.
Ciência como projeto de desenvolvimento
Portugal ainda enfrenta desafios. O investimento de 1,82% do PIB permanece abaixo da média europeia e distante da meta de 3% estabelecida para 2030. Entretanto, o país demonstra uma direção clara: aumentar os recursos, estimular o protagonismo empresarial e integrar ciência e inovação à estratégia nacional de desenvolvimento.
O Brasil, por sua vez, possui uma base científica mais ampla e um sistema universitário com grande potencial. No entanto, permanece próximo de 1,2% do PIB em investimento em pesquisa e desenvolvimento, patamar insuficiente para uma economia que pretende aumentar sua produtividade, sua competitividade e sua soberania tecnológica.
A comparação entre os dois países mostra que o desafio brasileiro não é apenas investir mais. É investir de maneira contínua, coordenada e estratégica.
O país precisa preservar e ampliar a ciência pública, ao mesmo tempo que cria condições para que as empresas assumam maior responsabilidade pelo desenvolvimento tecnológico.
Ciência não pode ser vista como despesa eventual. É investimento em capacidade produtiva, autonomia nacional, saúde, educação, segurança, sustentabilidade e qualidade de vida.
Portugal está avançando, ainda que gradualmente, na construção dessa visão. O Brasil precisa fazer o mesmo — com urgência, continuidade e ambição compatíveis com suas dimensões e possibilidades.
Prof. Dr. Helio Dias
Presidente do IVEPESP – Instituto para a Valorização da Educação e da Pesquisa do Estado de São Paulo
https://ivepesp.org.br/membro/helio-dias/