RESUMO

Objetivo: Analisar a trajetória e as funções sociais da divulgação científica no Brasil e no cenário internacional, com destaque para a Estação Ciência da Universidade de São Paulo e para o Túnel da Ciência, exposição itinerante organizada pela Sociedade Max Planck, na Alemanha. Método: Realizou-se uma revisão integrativa, documental e bibliográfica, de natureza qualitativa, orientada por uma adaptação das recomendações PRISMA. Foram consultados artigos científicos, livros, dissertações, teses, relatórios e documentos institucionais, priorizando-se publicações entre 2015 e 2024, sem excluir trabalhos históricos indispensáveis à compreensão dos casos. Resultados: A Estação Ciência consolidou-se como importante espaço brasileiro de educação não formal, extensão universitária, interatividade e aproximação entre a Universidade de São Paulo, estudantes e famílias. O Túnel da Ciência destacou-se pela circulação internacional de conteúdos relacionados à pesquisa de ponta, pelo emprego de tecnologias expositivas e por sua vinculação à diplomacia científica alemã. A comparação revelou que as duas iniciativas compartilham o uso da visualidade, da experimentação e da mediação, mas diferem quanto à territorialidade, à continuidade institucional, à escala de circulação e ao grau de contextualização local. Conclusão: A efetividade da divulgação científica depende não apenas da qualidade dos aparatos expositivos, mas também da mediação humana, da continuidade das políticas públicas, da inclusão social e da construção de diálogos culturalmente contextualizados.

Palavras-chave: divulgação científica; museus de ciência; Estação Ciência; Túnel da Ciência; educação não formal.


ABSTRACT

Objective: To analyze the trajectory and social functions of science communication in Brazil and internationally, with emphasis on Estação Ciência at the University of São Paulo and the Science Tunnel, a traveling exhibition organized by the Max Planck Society in Germany. Method: A qualitative integrative, documentary, and bibliographic review was conducted, guided by an adaptation of the PRISMA recommendations. Scientific articles, books, dissertations, theses, reports, and institutional documents were examined, prioritizing publications from 2015 to 2024 while retaining earlier works essential to understanding the two cases. Results: Estação Ciência became an important Brazilian environment for non-formal education, university outreach, interactivity, and engagement between the University of São Paulo, students, and families. The Science Tunnel stood out for the international circulation of frontier research, its use of advanced exhibition technologies, and its connection with German science diplomacy. The comparison showed that both initiatives employed visual communication, experimentation, and educational mediation, although they differed in territorial reach, institutional continuity, circulation scale, and local contextualization. Conclusion: Effective science communication depends not only on the quality of exhibits and technological resources but also on human mediation, sustained public policies, social inclusion, accessibility, and culturally contextualized dialogue with diverse audiences.

Keywords: science communication; science museums; Estação Ciência; Science Tunnel; non-formal education.


1 INTRODUÇÃO

A divulgação científica compreende um conjunto diversificado de práticas destinadas a aproximar conhecimentos, processos, instituições e controvérsias científicas de públicos que não participam necessariamente das comunidades especializadas. Ela ocorre por meio de museus, centros de ciência, exposições, feiras, livros, revistas, programas audiovisuais, mídias digitais, atividades escolares, conferências públicas e ações de extensão universitária. Mais do que traduzir conteúdos técnicos para uma linguagem simplificada, a divulgação científica contemporânea procura construir relações entre ciência, cultura e cidadania, permitindo que diferentes grupos sociais compreendam, discutam e avaliem os impactos da produção científica e tecnológica em suas vidas (BURNS; O’CONNOR; STOCKLMAYER, 2003; DAVIES; HORST, 2016).

Durante parte significativa do século XX, muitas iniciativas foram orientadas pelo chamado modelo do déficit, segundo o qual a resistência ou o desinteresse público pela ciência seriam decorrentes principalmente da falta de conhecimentos científicos. Nesse entendimento, a comunicação assumia uma configuração predominantemente vertical: os especialistas produziam o conhecimento, enquanto os demais indivíduos eram considerados receptores passivos. Pesquisas posteriores demonstraram, entretanto, que as relações entre ciência e sociedade são atravessadas por valores, identidades, condições econômicas, experiências comunitárias, interesses políticos e níveis distintos de confiança nas instituições. Em razão disso, ganharam importância modelos dialógicos e participativos, nos quais os públicos deixam de ser compreendidos como meros destinatários da informação e passam a ser reconhecidos como interlocutores capazes de formular perguntas, apresentar saberes e participar de decisões (WEINGART; JOUBERT; CONNOWAY, 2021).

No cenário internacional, museus e centros de ciência assumiram papel estratégico nessa transformação. Diferentemente de instituições exclusivamente dedicadas à conservação de objetos históricos, muitos centros contemporâneos passaram a organizar experiências interativas, demonstrações experimentais, simulações, jogos, oficinas e encontros com pesquisadores. Esses recursos podem favorecer a curiosidade e a aprendizagem, mas não garantem, isoladamente, uma compreensão crítica da ciência. A maneira pela qual os objetos são contextualizados, as perguntas propostas e as interações conduzidas pelos mediadores interfere diretamente na construção dos significados atribuídos pelos visitantes. Por essa razão, a interatividade deve ser analisada não apenas como característica técnica, mas como processo cultural, educativo e comunicacional.

A Recomendação da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura sobre Ciência Aberta, aprovada em 2021, reforçou a necessidade de ampliar o acesso ao conhecimento, promover o diálogo com agentes sociais e desenvolver formas inclusivas de comunicação científica. A ciência aberta, nessa perspectiva, não se limita à disponibilização de artigos ou conjuntos de dados. Ela envolve o engajamento público, a transparência dos processos de pesquisa, o reconhecimento de múltiplos conhecimentos e a participação social na formulação de agendas científicas. A divulgação científica integra, portanto, uma política mais ampla de democratização da ciência (UNESCO, 2021).

No Brasil, as iniciativas de divulgação científica apresentam uma história marcada por ações de universidades, sociedades científicas, instituições culturais, órgãos governamentais, escolas, museus e pesquisadores. A partir das últimas décadas do século XX, verificou-se a expansão de centros voltados à experimentação e à educação não formal. Entre essas instituições encontram-se o Centro de Divulgação Científica e Cultural da Universidade de São Paulo, o Espaço Ciência Viva, o Museu de Astronomia e Ciências Afins, a Estação Ciência da USP, o Museu de Ciências e Tecnologia da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, a Casa da Ciência da Universidade Federal do Rio de Janeiro e outros espaços distribuídos de modo desigual pelo território nacional. Essa expansão contribuiu para a formação de profissionais, para a criação de redes de colaboração e para o reconhecimento da divulgação científica como área de pesquisa e intervenção social (VALENTE; CAZELLI; ALVES, 2005; OVIGLI, 2015).

Apesar desses avanços, o acesso da população brasileira às instituições científico-culturais permanece condicionado por desigualdades regionais, econômicas e educacionais. O estudo nacional de percepção pública da ciência e tecnologia referente a 2023 indicou que 60,3% dos entrevistados declararam-se interessados ou muito interessados em ciência e tecnologia. A proporção dos que afirmaram visitar museus de ciência e tecnologia aumentou de 6,3%, em 2019, para 11,5%, em 2023. Entretanto, 28,6% dos não visitantes declararam que não existia museu desse tipo em sua região, evidenciando que o interesse público não é necessariamente acompanhado por uma oferta territorialmente equilibrada de equipamentos culturais (CGEE, 2024).

A mesma pesquisa demonstrou a crescente importância dos ambientes digitais: 39,8% dos participantes afirmaram obter frequentemente informações sobre ciência e tecnologia por redes sociais, aplicativos de mensagens ou plataformas digitais, enquanto 16,2% disseram ter participado de eventos científicos ou visitas virtuais. Esses resultados revelam oportunidades para iniciativas híbridas, mas também apontam desafios relacionados à desinformação, aos algoritmos de recomendação e à necessidade de formação crítica dos públicos. Embora a comunicação digital amplie o alcance potencial das instituições, ela não substitui integralmente as experiências presenciais, nas quais a manipulação de objetos, a observação coletiva e a conversa com mediadores produzem formas particulares de envolvimento (CGEE, 2024).

Nesse contexto, a Estação Ciência ocupou posição singular na história brasileira. Criada em 1987 pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico e incorporada à Universidade de São Paulo em 1990, a instituição funcionou durante décadas em um edifício histórico no bairro da Lapa, na cidade de São Paulo. Sua proposta articulava exposições interativas, atividades escolares, oficinas, apresentações e experiências de aproximação entre conhecimento acadêmico e vida cotidiana. Antes da interrupção das visitas presenciais, em 2013, o centro recebia aproximadamente 300 mil visitantes por ano, tornando-se uma referência nacional em divulgação científica e extensão universitária. Mesmo depois de deixar sua antiga sede, a Estação Ciência permaneceu institucionalmente vinculada à USP, em processo de reformulação de seu projeto e de definição de um novo espaço físico.

No plano internacional, a Alemanha desenvolveu iniciativas de grande visibilidade destinadas a apresentar a pesquisa científica ao público e estimular o diálogo entre ciência e sociedade. Uma das experiências mais representativas foi o Max Planck Science Tunnel, conhecido no Brasil como Túnel da Ciência. A exposição foi apresentada inicialmente na Exposição Mundial de Hannover, em 2000, e, posteriormente, transformada em projeto itinerante. Entre 2000 e 2017, três versões do Túnel da Ciência percorreram 31 localidades em mais de 20 países, alcançando aproximadamente dois milhões de visitantes. Seu percurso expositivo abordava temas como universo, matéria, vida, complexidade, cérebro, saúde, energia e sociedade, recorrendo a imagens científicas, objetos, vídeos, animações tridimensionais e entrevistas com pesquisadores.

Em 2014, o Túnel da Ciência foi apresentado pela primeira vez no Brasil, na cidade de São Paulo, no contexto da Temporada Alemanha + Brasil. A exposição ocupou cerca de mil metros quadrados e organizou seus conteúdos em oito áreas temáticas relacionadas a questões científicas contemporâneas e a perspectivas de futuro. A passagem pelo Brasil também promoveu encontros entre instituições, pesquisadores e profissionais dos dois países, incluindo debates sobre divulgação científica no Brasil e na Alemanha. A iniciativa constitui, assim, um caso relevante para examinar a circulação transnacional de exposições, a diplomacia científica, a adaptação cultural de conteúdos e a relação entre grandes instituições de pesquisa e públicos diversos.

A aproximação analítica entre a Estação Ciência e o Túnel da Ciência permite observar dois modelos complementares. A primeira representa uma instituição territorialmente enraizada, vinculada à extensão universitária e à construção continuada de relações com escolas, professores e famílias. O segundo representa uma exposição internacional itinerante, concebida para circular entre diferentes países e apresentar pesquisas de fronteira por meio de soluções tecnológicas e cenográficas. Ambos utilizam a interatividade e a visualidade, mas se diferenciam quanto à escala, à duração, à governança, à contextualização e à forma de inserção nas políticas científicas.

Diante disso, o objetivo geral deste artigo é analisar o papel da divulgação científica no Brasil e no mundo, tomando como estudos de caso a Estação Ciência da Universidade de São Paulo e o Túnel da Ciência da Sociedade Max Planck. Especificamente, busca-se: identificar transformações conceituais da divulgação científica; descrever a trajetória das duas iniciativas; comparar seus modelos comunicacionais e educativos; discutir suas contribuições para a democratização do conhecimento; e apontar desafios para a sustentabilidade, a inclusão e a participação pública em atividades científico-culturais.


2 METODOLOGIA

2.1 Delineamento da pesquisa

O estudo caracteriza-se como uma revisão integrativa, documental e bibliográfica, de abordagem qualitativa, combinada a uma análise comparativa de estudos de caso. A revisão integrativa foi escolhida por permitir a inclusão de fontes heterogêneas, como artigos científicos, livros, dissertações, teses, relatórios de percepção pública e documentos institucionais. Essa diversidade foi necessária porque a história e o funcionamento de centros e exposições científicas não estão registrados exclusivamente em artigos acadêmicos.

Os dois estudos de caso foram selecionados intencionalmente. A Estação Ciência representa uma experiência brasileira de longa duração, vinculada a uma universidade pública e orientada à educação não formal. O Túnel da Ciência representa uma exposição itinerante internacional, organizada por uma das principais instituições de pesquisa da Alemanha e associada à circulação global de conhecimentos científicos.

2.2 Fontes de informação e estratégia de busca

As buscas foram realizadas em julho de 2026, abrangendo SciELO, repositórios da Universidade de São Paulo, periódicos científicos, documentos do Centro de Gestão e Estudos Estratégicos, páginas institucionais da USP, da Sociedade Max Planck, da UNESCO e de organizações alemãs de comunicação pública da ciência.

Foram utilizados, isoladamente ou em combinações, os seguintes descritores:

  • “divulgação científica”;
  • “comunicação pública da ciência”;
  • “museus de ciência”;
  • “educação não formal”;
  • “Estação Ciência USP”;
  • “Túnel da Ciência”;
  • “Max Planck Science Tunnel”;
  • “science communication Germany”;
  • “public engagement with science”;
  • “science museums Brazil”.

Adotou-se como recorte preferencial o período de 2015 a 2024. Estudos anteriores foram mantidos quando considerados seminais ou indispensáveis à reconstrução histórica dos casos. Documentos institucionais posteriores a 2024 foram empregados para verificar a situação atual das iniciativas.

2.3 Critérios de inclusão e exclusão

Foram incluídos textos que:

a) abordassem conceitos ou modelos de divulgação e comunicação científica;
b) analisassem museus, centros de ciência ou exposições interativas;
c) apresentassem informações históricas ou institucionais sobre a Estação Ciência;
d) analisassem ou documentassem o Túnel da Ciência;
e) discutissem percepção pública, mediação, interatividade, inclusão ou diplomacia científica;
f) estivessem disponíveis em português, inglês, espanhol ou alemão.

Foram excluídos:

a) textos sem relação direta com o objeto;
b) registros duplicados;
c) notícias que apenas repetiam informações já disponíveis em documentos institucionais mais completos;
d) materiais sem autoria ou procedência identificável;
e) trabalhos cujo conteúdo integral ou informações essenciais não puderam ser examinados.

2.4 Seleção e organização do corpus

O processo de seleção foi inspirado nas etapas de identificação, triagem, elegibilidade e inclusão estabelecidas pelo PRISMA 2020 (PAGE et al., 2021). Como o estudo combina literatura acadêmica e documentos institucionais, o fluxograma foi adaptado à natureza integrativa e documental da pesquisa.

Quadro 1 — Fluxo de seleção do corpus, conforme adaptação do PRISMA

EtapaProcedimentoNúmero de registros
IdentificaçãoRegistros localizados em bases acadêmicas, repositórios e portais institucionais51
IdentificaçãoRegistros removidos por duplicação16
TriagemTítulos, resumos ou descrições examinados35
TriagemRegistros excluídos por inadequação temática7
ElegibilidadeTextos e documentos examinados integralmente28
ElegibilidadeTextos excluídos por redundância, insuficiência de dados ou caráter periférico3
InclusãoFontes integradas à síntese qualitativa25

Fonte: elaboração do autor (2026).

Os números descrevem o corpus efetivamente organizado para a elaboração deste manuscrito e não devem ser interpretados como uma estimativa exaustiva de toda a produção mundial sobre divulgação científica.

2.5 Procedimentos de análise

A análise foi realizada em três etapas. Na primeira, foram extraídas informações relativas a autoria, ano, tipo de fonte, objeto, abordagem e resultados principais. Na segunda, os conteúdos foram agrupados em cinco eixos: transformações conceituais da divulgação científica; cenário brasileiro; trajetória da Estação Ciência; atuação internacional do Túnel da Ciência; e desafios contemporâneos. Na terceira etapa, realizou-se uma comparação entre os dois casos com base nas categorias de institucionalidade, territorialidade, públicos, recursos comunicacionais, mediação, participação, alcance e sustentabilidade.

Não foi aplicada uma escala única de avaliação de risco de viés, devido à heterogeneidade das fontes. A confiabilidade foi buscada por meio da priorização de artigos revisados por pares, teses acadêmicas, relatórios oficiais e documentos institucionais primários, além da triangulação das informações históricas.


3 RESULTADOS

3.1 Da transmissão de informações à participação pública

A literatura analisada evidencia uma ampliação progressiva do conceito de divulgação científica. Em sua concepção mais tradicional, divulgar significava transportar informações dos especialistas para públicos considerados leigos. A comunicação era medida principalmente pela clareza da mensagem e pela quantidade de conteúdos transmitidos. Embora a acessibilidade linguística continue importante, essa perspectiva mostrou-se insuficiente para explicar as formas pelas quais os indivíduos interpretam a ciência.

A abordagem contemporânea reconhece que a relação com a ciência depende de experiências anteriores, identidades, valores, condições materiais e níveis de confiança. Assim, uma exposição não é recebida de maneira uniforme por todos os visitantes. Crianças, professores, pesquisadores, famílias, pessoas com deficiência e grupos socialmente vulnerabilizados podem atribuir significados distintos aos mesmos objetos. A comunicação pública da ciência passa, dessa forma, a incorporar escuta, debate, coprodução, participação e reconhecimento de conhecimentos situados.

Burns, O’Connor e Stocklmayer (2003) propõem compreender a comunicação científica a partir de respostas relacionadas à consciência, ao interesse, à formação de opiniões, à compreensão e ao envolvimento. Davies e Horst (2016) acrescentam que a comunicação científica participa da construção de identidades, culturas e formas de cidadania. Esses referenciais indicam que museus e exposições devem ser avaliados não somente pelo volume de informações oferecidas, mas também pelas possibilidades de encontro, pergunta, interpretação e participação.

3.2 Divulgação científica e desigualdades de acesso no Brasil

O Brasil desenvolveu uma rede diversificada de museus, centros e programas de ciência, especialmente a partir da segunda metade do século XX. O crescimento desse campo foi associado à expansão das universidades, ao desenvolvimento da pós-graduação, à institucionalização das políticas de ciência e tecnologia e à mobilização de pesquisadores interessados em aproximar a ciência do cotidiano.

Museus e centros de ciência brasileiros passaram a desempenhar funções educativas que complementam, mas não reproduzem, o ensino escolar. Nesses espaços, o visitante pode definir parte de seu percurso, interagir com objetos, conversar com mediadores e relacionar fenômenos científicos a experiências pessoais. A aprendizagem ocorre de maneira social, afetiva e contextual, sendo influenciada pelo ambiente físico, pelo grupo visitante e pelas estratégias de mediação (VALENTE; CAZELLI; ALVES, 2005; MARANDINO, 2008).

Ovigli (2015), ao examinar a produção brasileira sobre educação em museus de ciência, identificou a consolidação de um campo de investigação interessado na aprendizagem, na formação de mediadores, nas relações entre educação formal e não formal e nas características dos públicos. Outros trabalhos demonstram a diversidade dos recursos empregados, como teatro, oficinas, exposições itinerantes, visitas guiadas e atividades investigativas (MOREIRA; MARANDINO, 2015; SILVA; LORENZETTI; SILVA, 2019).

Apesar do fortalecimento institucional, a distribuição geográfica dos equipamentos permanece desigual. A ampliação das visitas a museus de ciência observada em 2023 representa um avanço em relação a 2019, mas a proporção nacional de visitantes ainda é reduzida. A ausência de instituições em diversas regiões, os custos de deslocamento, a concentração de equipamentos nas capitais, a falta de acessibilidade e as barreiras simbólicas limitam a participação.

Os dados de percepção pública também mostram uma relação simultaneamente favorável e vulnerável com a ciência. Em 2023, 66,2% dos entrevistados consideravam que a ciência e a tecnologia traziam somente benefícios ou mais benefícios do que malefícios. Ao mesmo tempo, houve redução em relação a 2019. A confiança em cientistas de universidades públicas e institutos de pesquisa permaneceu positiva, mas também apresentou oscilações. Esses resultados demonstram que o apoio à ciência não deve ser tratado como permanente ou independente das condições políticas, econômicas e comunicacionais (CGEE, 2024).

3.3 A Estação Ciência da Universidade de São Paulo

A Estação Ciência foi criada em 1987 pelo CNPq e incorporada à Universidade de São Paulo em 1990. Sua sede funcionou em um antigo galpão industrial localizado nas proximidades de instalações ferroviárias no bairro da Lapa. A própria denominação “Estação Ciência” estabelecia uma associação entre deslocamento, encontro, circulação e descoberta.

Ao longo de sua trajetória, a instituição reuniu exposições e atividades relacionadas à física, astronomia, biologia, geologia, matemática, tecnologia, corpo humano, meio ambiente e ciências da Terra. A organização dos ambientes procurava estimular a observação, a experimentação e a formulação de perguntas. O visitante não era convidado somente a contemplar objetos, mas também a acionar mecanismos, comparar resultados e discutir fenômenos.

A integração com a USP favoreceu o contato com docentes, pesquisadores, estudantes de graduação e pós-graduação. Além de receber escolas e famílias, a Estação Ciência desenvolveu atividades de formação, apresentações, exposições temporárias e ações de itinerância. Seu caráter extensionista permitia que conhecimentos produzidos na universidade fossem apresentados a públicos mais amplos.

O físico Ernst Wolfgang Hamburger, que dirigiu a instituição entre 1994 e 2003, exerceu papel importante na consolidação de seu projeto educativo e da divulgação científica brasileira. Sua atuação foi reconhecida internacionalmente com o Prêmio Kalinga de Popularização da Ciência, concedido pela UNESCO em 2000.

Antes da interrupção das visitas presenciais, a Estação Ciência recebia aproximadamente 300 mil visitantes por ano. O fechamento ao público ocorreu em março de 2013, inicialmente associado a questões de segurança e às condições do imóvel. Posteriormente, com a devolução da antiga sede, parte dos equipamentos foi distribuída entre unidades da USP. A instituição não foi formalmente extinta, mas passou a atuar sem a mesma referência espacial que havia marcado sua relação com a população.

A ausência de uma sede aberta regularmente produz consequências que ultrapassam a perda de uma infraestrutura física. Um centro de ciência permanente cria memória social, integra-se ao território, estabelece relações continuadas com escolas e torna-se parte do repertório cultural das famílias. Quando essa continuidade é interrompida, perdem-se rotinas de visita, redes educativas e possibilidades de formação sistemática de mediadores.

Ainda assim, documentos e atividades recentes indicam que a Estação Ciência permanece vinculada à Pró-Reitoria de Cultura e Extensão Universitária da USP e busca reformular seu projeto acadêmico e institucional. A participação em atividades itinerantes e em eventos da Universidade demonstra a permanência de sua identidade, embora em condições diferentes das que caracterizaram sua atuação histórica.

3.4 A experiência alemã e o Túnel da Ciência

A Alemanha consolidou, nas últimas décadas, políticas e organizações voltadas ao diálogo entre pesquisa e sociedade. Iniciativas como os Anos da Ciência e as atividades da organização Wissenschaft im Dialog reúnem ministérios, instituições de pesquisa, universidades e organizações sociais em programas de exposições, debates, ações escolares e participação pública. Essas práticas refletem o reconhecimento de que a legitimidade social da ciência depende da abertura institucional e da capacidade de dialogar sobre benefícios, incertezas, riscos e implicações éticas.

O Max Planck Science Tunnel surgiu nesse ambiente. Sua primeira versão foi apresentada na Expo 2000, realizada em Hannover. O projeto foi posteriormente reorganizado em versões itinerantes, atualizadas em 2005 e em 2012. Entre 2000 e 2017, o Túnel da Ciência passou por 31 localidades em mais de 20 países, totalizando cerca de dois milhões de visitantes em aproximadamente dois mil dias de exposição.

A terceira versão estruturou-se em oito módulos temáticos, percorrendo escalas que iam do universo à sociedade. Os conteúdos eram apresentados por meio de imagens de pesquisa, painéis, vídeos, animações tridimensionais, objetos, instalações interativas e entrevistas com cientistas. A exposição procurava apresentar não apenas conhecimentos consolidados, mas também perguntas abertas, tecnologias emergentes e perspectivas de pesquisa para as décadas seguintes.

Em comparação com centros permanentes, o caráter itinerante possibilitou grande circulação internacional. A modularidade permitia transportar e reorganizar a exposição em diferentes edifícios e países. Ao mesmo tempo, essa mobilidade exigia processos de tradução, adaptação logística, formação de equipes locais e articulação com instituições anfitriãs.

A edição brasileira foi realizada em São Paulo, entre janeiro e fevereiro de 2014, durante a Temporada Alemanha + Brasil. A exposição ocupou aproximadamente mil metros quadrados no Centro de Convenções Frei Caneca e foi apresentada como sua primeira passagem pelo país. A programação incluiu atividades e debates com pesquisadores, entre eles o laureado com o Prêmio Nobel Erwin Neher.

A exposição também funcionou como instrumento de cooperação internacional. Sua realização envolveu apoio de órgãos governamentais alemães, entidades científicas, parceiros brasileiros e organizações de intercâmbio. Nesse sentido, o Túnel da Ciência articulou divulgação científica, projeção institucional e diplomacia científica. A apresentação da ciência alemã contribuía para a criação de vínculos acadêmicos e para a visibilidade internacional da Sociedade Max Planck.

Cerqueira (2019), ao analisar a exposição no Brasil, identificou contradições entre dimensões locais e globais, financiamento público e privado, aprendizagem de conteúdos e valorização dos aparatos, promoção institucional e comunicação científica, modelos dialógicos e valores apresentados como universais. A análise demonstra que a circulação internacional de uma exposição não é um processo neutro. Conteúdos concebidos em determinado contexto institucional podem adquirir significados diferentes quando apresentados em outra realidade cultural, social e política.

A investigação de Scalfi et al. (2024) sobre interações de crianças no Túnel da Ciência mostrou que a leitura dos elementos expositivos, as perguntas infantis e as intervenções dos mediadores contribuíram para aprofundar temas científicos e construir significados. O resultado reforça a ideia de que a tecnologia expositiva alcança maior potencial educativo quando integrada a processos de mediação capazes de ouvir os visitantes e desenvolver suas perguntas.

3.5 Síntese comparativa

Quadro 2 — Comparação entre a Estação Ciência e o Túnel da Ciência

DimensãoEstação Ciência da USPTúnel da Ciência
NaturezaCentro de ciência e órgão de extensão universitáriaExposição científica internacional itinerante
Instituição responsávelUniversidade de São PauloSociedade Max Planck
OrigemBrasil, 1987Alemanha, 2000
TerritorialidadeEnraizamento local e atuação continuadaCirculação por diferentes países e continentes
Públicos predominantesEscolas, professores, famílias e visitantes espontâneosPúblico geral, escolas, pesquisadores e participantes de eventos internacionais
LinguagensExperimentos, objetos, oficinas, exposições e mediação presencialImagens, vídeos, animações, objetos, instalações e entrevistas
ConteúdosDiversas áreas científicas, com aproximações ao cotidiano e à educação escolarPesquisas de fronteira, grandes questões científicas e perspectivas de futuro
Vínculo educativoExtensão universitária e educação não formal continuadaExperiência temporária associada a instituições anfitriãs
EscalaPredominantemente municipal, regional e nacionalInternacional
Potencial principalConstrução de vínculos duradouros com o territórioGrande alcance e circulação transnacional de conteúdos
Desafio principalContinuidade institucional e disponibilidade de sede permanenteContextualização cultural e continuidade após o término da exposição
Dimensão políticaDemocratização do acesso à universidade públicaCooperação internacional e diplomacia científica

Fonte: elaboração do autor (2026).

A comparação indica que não existe um único modelo ideal de divulgação científica. Instituições permanentes e exposições itinerantes respondem a objetivos distintos e podem ser complementares. Centros enraizados territorialmente favorecem vínculos duradouros, enquanto projetos itinerantes ampliam a circulação e promovem redes internacionais. Nos dois modelos, porém, a qualidade da experiência depende da articulação entre conteúdo, linguagem, mediação, infraestrutura, acessibilidade e participação.


4 DISCUSSÃO

4.1 Permanência territorial e circulação internacional

A Estação Ciência e o Túnel da Ciência representam estratégias distintas de aproximação entre ciência e sociedade. A Estação Ciência construiu sua relevância por meio da permanência. Durante anos, escolas, professores e famílias reconheceram sua sede como destino educativo e cultural. O espaço funcionava como uma ponte entre a USP e a população, tornando visível uma das funções sociais da universidade pública.

O Túnel da Ciência desenvolveu sua força pela circulação. Seu projeto modular permitiu apresentar pesquisas da Sociedade Max Planck em diferentes países e aproximar instituições científicas alemãs de públicos internacionais. A itinerância favoreceu a difusão em grande escala, mas reduziu as possibilidades de continuidade local. Ao término de uma exposição temporária, as relações com o público podem enfraquecer caso não existam programas educativos ou instituições parceiras capazes de prolongá-las.

A permanência e a itinerância não devem ser vistas como categorias mutuamente excludentes. Centros permanentes podem criar exposições móveis, materiais digitais e programas destinados a territórios distantes. Exposições internacionais podem associar-se a museus locais, formar mediadores, produzir materiais contextualizados e deixar estruturas educativas duradouras. O desafio consiste em combinar alcance com continuidade.

4.2 Interatividade, mediação e produção de significados

Ambas as iniciativas valorizam a interatividade. Entretanto, o simples ato de apertar um botão, movimentar uma peça ou observar uma animação não assegura uma experiência reflexiva. A interação física pode transformar-se em atividade mecânica quando o visitante não compreende o fenômeno ou não encontra oportunidades para relacioná-lo a suas experiências.

A mediação desempenha papel central nesse processo. O mediador pode identificar interesses, reformular explicações, propor comparações, acolher perguntas e estimular o diálogo entre os integrantes de um grupo. Nas visitas escolares, também pode contribuir para evitar que a atividade seja percebida apenas como passeio ou demonstração de respostas prontas.

Os resultados de Scalfi et al. (2024) no Túnel da Ciência evidenciam que as perguntas das crianças constituem oportunidades educativas. Quando os mediadores aprofundam essas perguntas, a exposição deixa de ser uma sequência de aparatos e transforma-se em espaço de conversação. Esse princípio também se aplica à tradição da Estação Ciência, cuja proposta histórica envolvia demonstrações, oficinas e contato entre visitantes e equipes educativas.

A formação dos mediadores deve abranger conhecimentos científicos, fundamentos educacionais, comunicação inclusiva, acessibilidade, ética e compreensão das características dos públicos. Não é suficiente memorizar explicações. É necessário aprender a observar, escutar e adaptar a mediação sem perder a precisão conceitual.

4.3 Universalidade da ciência e contextualização cultural

Exposições internacionais frequentemente apresentam a ciência como empreendimento universal. De fato, métodos, teorias e redes científicas ultrapassam fronteiras nacionais. Entretanto, os impactos das tecnologias, as prioridades de pesquisa e as possibilidades de acesso não são distribuídos de forma homogênea.

O Túnel da Ciência apresentou temas globais, como energia, saúde, universo e complexidade. Ao circular por diferentes países, esses temas encontraram contextos marcados por condições econômicas, tradições educativas e controvérsias específicas. Uma discussão sobre energia, por exemplo, pode assumir sentidos distintos na Alemanha e no Brasil, em razão das diferentes matrizes energéticas, políticas ambientais e desigualdades de consumo.

Cerqueira (2019) identificou tensões entre a apresentação de valores universais e as condições locais de recepção. Esse achado não elimina a relevância da exposição, mas demonstra a necessidade de processos de adaptação que ultrapassem a tradução linguística. A contextualização pode incluir pesquisadores locais, exemplos regionais, questões formuladas pelas comunidades, referências históricas e debates sobre desigualdades.

A Estação Ciência, por sua permanência territorial, possuía melhores condições para desenvolver relações prolongadas com o contexto paulistano e com o sistema educacional. Ainda assim, também enfrentava o desafio de representar a diversidade social, regional e cultural do Brasil. Nenhuma instituição está automaticamente contextualizada apenas porque se localiza em determinado território; a contextualização precisa ser construída pela participação de seus públicos.

4.4 Divulgação científica, imagem institucional e diplomacia científica

A divulgação científica pode atender simultaneamente a finalidades educativas, culturais, políticas e institucionais. Universidades, institutos e organizações de pesquisa utilizam exposições para compartilhar conhecimentos, demonstrar resultados, atrair estudantes, justificar investimentos públicos e fortalecer sua legitimidade.

No caso do Túnel da Ciência, a exposição apresentou a pesquisa da Sociedade Max Planck e contribuiu para a imagem internacional da Alemanha como país associado à inovação científica. Essa dimensão pode ser entendida como diplomacia científica: o conhecimento e a cooperação acadêmica são utilizados para construir relações entre países, instituições e comunidades de pesquisa.

A diplomacia científica pode gerar benefícios, como intercâmbios, projetos conjuntos e circulação de estudantes. Contudo, exige transparência sobre os objetivos institucionais e equilíbrio entre promoção e diálogo. Quando a valorização da instituição organizadora se sobrepõe às necessidades dos públicos, a divulgação corre o risco de assumir um caráter publicitário.

A Estação Ciência também contribuía para a visibilidade da USP. Entretanto, seu vínculo com uma universidade pública atribuía especial importância à extensão e ao retorno social do investimento estatal. Nesse caso, a comunicação científica não deveria ser compreendida somente como apresentação de realizações institucionais, mas como direito da população de acessar, questionar e participar da produção universitária.

4.5 Sustentabilidade institucional e políticas públicas

A trajetória da Estação Ciência demonstra que a relevância pública acumulada por uma instituição não garante sua continuidade física. Museus e centros de ciência dependem de edifícios seguros, financiamento regular, equipes permanentes, atualização de exposições, conservação de equipamentos, pesquisa de públicos e planejamento de longo prazo.

A descontinuidade é particularmente prejudicial porque as relações educativas são construídas ao longo de anos. Escolas organizam calendários, professores incorporam visitas aos seus planejamentos e famílias desenvolvem hábitos culturais. A perda de uma sede interrompe essas relações e pode reforçar a percepção de que a divulgação científica ocupa posição secundária nas políticas institucionais.

Projetos itinerantes também enfrentam desafios de sustentabilidade. O transporte internacional de equipamentos, a montagem, a atualização tecnológica e a formação de equipes demandam recursos elevados. Além disso, a avaliação não deve limitar-se ao número de visitantes. É necessário investigar quem participou, quem permaneceu excluído, como os conteúdos foram compreendidos e quais relações continuaram depois do evento.

Políticas públicas consistentes devem considerar a divulgação científica como infraestrutura cultural e educacional, e não apenas como conjunto de eventos ocasionais. Isso implica financiamento de longo prazo, descentralização regional, acessibilidade, formação profissional e articulação com escolas, universidades, bibliotecas, centros culturais e organizações comunitárias.

4.6 Ambientes digitais, ciência aberta e novas formas de participação

A expansão das plataformas digitais criou novas possibilidades para museus e centros de ciência. Acervos virtuais, visitas em vídeo, transmissões ao vivo, jogos, podcasts e redes sociais podem alcançar públicos geograficamente distantes. No Brasil, onde muitos municípios não possuem museus científicos, essas ferramentas são particularmente relevantes.

Entretanto, a presença digital não resolve automaticamente as desigualdades. A qualidade da conexão, o acesso a dispositivos, as habilidades informacionais e as condições de acessibilidade variam entre os grupos sociais. Além disso, redes sociais favorecem conteúdos breves, emocionalmente mobilizadores e organizados por algoritmos que nem sempre priorizam a confiabilidade.

Uma estratégia híbrida deve combinar atividades presenciais e digitais. A Estação Ciência poderia ampliar sua atuação por meio de exposições itinerantes, recursos educativos abertos e parcerias regionais, sem abandonar a importância de uma sede de referência. O legado do Túnel da Ciência também pode ser prolongado mediante materiais digitais, redes de educadores e programas de cooperação entre instituições anfitriãs.

A perspectiva da ciência aberta oferece um referencial para essa integração. Divulgar não significa somente disponibilizar resultados, mas abrir processos, explicar incertezas, criar canais de participação e reconhecer que os públicos também produzem conhecimentos e questões relevantes. O futuro da divulgação científica depende, portanto, de sua capacidade de combinar rigor, abertura, diálogo e justiça social.


5 CONCLUSÃO

A análise da divulgação científica no Brasil e no cenário internacional demonstrou que aproximar ciência e sociedade é uma tarefa simultaneamente educativa, cultural, comunicacional e política. A divulgação científica não pode ser reduzida à simplificação de termos especializados nem à transmissão de resultados considerados prontos. Ela envolve a criação de condições para que diferentes públicos compreendam como o conhecimento é produzido, reconheçam suas incertezas, relacionem-no aos problemas cotidianos e participem das discussões sobre seus usos e impactos.

A transformação dos modelos de comunicação revela uma passagem gradual de práticas predominantemente unidirecionais para propostas dialógicas e participativas. O modelo do déficit, embora ainda presente, mostrou-se insuficiente porque pressupõe que a falta de apoio à ciência decorre apenas da ausência de informação. As formas pelas quais as pessoas se relacionam com a ciência são influenciadas por experiências pessoais, desigualdades, identidades, valores, confiança institucional e possibilidades concretas de acesso. A qualidade da divulgação depende, portanto, da escuta dos públicos e da contextualização dos conteúdos.

A Estação Ciência da USP constituiu uma das experiências mais relevantes da divulgação científica brasileira. Sua atuação reuniu educação não formal, extensão universitária, interatividade e formação cultural. Ao ocupar durante décadas uma sede reconhecida pela população, a instituição estabeleceu vínculos com escolas, professores, estudantes e famílias. Seu papel não se limitava à apresentação de experimentos; ela tornava visível a presença social da universidade pública e oferecia um ambiente no qual a curiosidade podia ser estimulada fora das estruturas convencionais da sala de aula.

A interrupção das visitas presenciais, ocorrida em 2013, evidencia a vulnerabilidade das instituições científico-culturais diante de problemas de infraestrutura, financiamento e continuidade administrativa. Mesmo permanecendo institucionalmente vinculada à USP e desenvolvendo atividades em outros formatos, a ausência de uma sede aberta regularmente reduziu sua capacidade de construir relações permanentes com os públicos. A recuperação ou reconfiguração de um espaço de referência para a Estação Ciência representaria não apenas a preservação de uma memória institucional, mas também o reconhecimento da divulgação científica como parte essencial da missão universitária.

O Túnel da Ciência, por sua vez, demonstrou o potencial das exposições itinerantes de grande escala. Criado pela Sociedade Max Planck, o projeto circulou por numerosos países e apresentou pesquisas de fronteira por meio de recursos visuais, audiovisuais e interativos. Sua mobilidade possibilitou alcançar públicos internacionais e criar oportunidades de cooperação entre instituições. A passagem pelo Brasil, em 2014, favoreceu debates e contatos entre agentes brasileiros e alemães, integrando divulgação científica, intercâmbio acadêmico e diplomacia científica.

Entretanto, a circulação internacional também produz desafios. A tradução linguística não garante a adaptação cultural dos conteúdos. Uma exposição concebida em determinado contexto precisa dialogar com as condições históricas, educacionais, sociais e políticas do país que a recebe. Caso contrário, existe o risco de apresentar a ciência como atividade abstrata, universal e desconectada das desigualdades que definem quem produz conhecimento, quem se beneficia das tecnologias e quem participa da definição das prioridades científicas.

A comparação entre as duas experiências evidencia uma complementaridade. A Estação Ciência representa o valor do enraizamento territorial, da continuidade e da relação com o sistema educacional. O Túnel da Ciência representa o valor da mobilidade, da circulação internacional e da visibilidade das pesquisas de fronteira. Um modelo contemporâneo de divulgação científica pode aprender com ambos: precisa construir instituições locais duradouras e, simultaneamente, desenvolver redes, exposições itinerantes e recursos digitais capazes de ampliar o alcance.

A interatividade foi identificada como elemento comum, mas seu potencial depende da mediação. Aparatos sofisticados podem despertar atenção momentânea, porém a aprendizagem torna-se mais significativa quando os visitantes encontram oportunidades para perguntar, interpretar, discordar e relacionar os conteúdos às próprias experiências. Por essa razão, a formação e a valorização profissional dos mediadores devem ocupar posição central nas políticas de museus e centros de ciência.

No Brasil, os dados recentes revelam interesse expressivo por ciência e tecnologia, acompanhado por desigualdades de acesso aos equipamentos culturais. A inexistência de museus em muitas regiões demonstra que a ampliação da cultura científica exige políticas de descentralização, apoio a iniciativas locais, exposições móveis, ações escolares e estratégias digitais inclusivas. A comunicação pela internet pode ampliar o alcance, mas não elimina a necessidade de espaços públicos presenciais, nos quais a ciência seja experimentada como atividade social e coletiva.

Conclui-se que a divulgação científica deve ser tratada como direito cultural e dimensão constitutiva da cidadania. Sua sustentabilidade requer financiamento contínuo, infraestrutura adequada, acessibilidade, avaliação de públicos, articulação interinstitucional e compromisso com a diversidade. O legado da Estação Ciência e do Túnel da Ciência demonstra que museus e exposições podem estimular vocações, fortalecer a confiança na pesquisa, aproximar países e ampliar a compreensão pública. Para que esses efeitos sejam duradouros, entretanto, é necessário substituir ações isoladas por políticas estáveis, capazes de integrar ciência, educação, cultura e participação social.

Autor: Helio Dias
Instituição: IVEPESP — São Paulo, Brasil
E-mail: [email protected]


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