O Instituto para a Valorização da Educação e da Pesquisa no Estado de São Paulo (IVEPESP) considera extremamente oportuna a reflexão apresentada por Welbert Pereira no artigo “O custo invisível de não investir em pesquisa básica”. O texto resgata uma verdade frequentemente esquecida no debate público: toda grande inovação tecnológica nasce, em algum momento, de uma pesquisa básica realizada sem que seus resultados econômicos fossem imediatamente previsíveis.

Quando pensamos em inteligência artificial, vacinas de RNA mensageiro, biotecnologia, novos materiais, computação quântica ou medicina de precisão, normalmente enxergamos apenas o produto final. Entretanto, por trás de cada uma dessas conquistas existem décadas de pesquisa científica acumulada, desenvolvida em universidades, institutos de pesquisa e laboratórios que, muitas vezes, buscavam apenas compreender melhor os fenômenos da natureza.

Foi assim com a descoberta da estrutura do DNA, com a mecânica quântica, com a genética molecular, com a imunologia moderna e até mesmo com a própria internet. Nenhuma dessas pesquisas nasceu com o objetivo imediato de gerar riqueza ou criar empresas bilionárias. Seu propósito inicial era ampliar o conhecimento humano. Somente anos — ou mesmo décadas — depois seus resultados transformaram profundamente a economia mundial.

O custo invisível da dependência tecnológica

Quando um país reduz investimentos em pesquisa básica, o impacto raramente é percebido imediatamente. Laboratórios deixam de ser modernizados, bolsas de pesquisa diminuem, jovens talentos migram para o exterior e projetos estratégicos são interrompidos.

O verdadeiro custo aparece anos depois.

Ele se manifesta quando o país precisa importar tecnologias que poderia desenvolver internamente; quando depende de equipamentos estrangeiros para sua indústria; quando paga royalties elevados por patentes registradas em outros países; ou quando perde competitividade porque deixou de construir competências científicas próprias.

Esse é o verdadeiro “custo invisível” destacado pelo artigo: a perda gradual da capacidade nacional de produzir conhecimento original.

Pesquisa básica é investimento, não despesa

Ainda persiste no Brasil a visão de que ciência representa apenas um gasto público sujeito aos ciclos econômicos.

Essa interpretação ignora a experiência internacional.

Estados Unidos, Alemanha, Japão, Coreia do Sul, Israel e, mais recentemente, China consolidaram sua liderança econômica porque mantiveram investimentos contínuos em ciência, tecnologia e inovação durante décadas.

Esses países compreenderam que inovação não nasce por decreto, tampouco apenas por incentivos fiscais.

Ela depende de um ecossistema científico robusto, formado por pesquisadores qualificados, infraestrutura moderna, financiamento estável e liberdade para investigar problemas ainda desconhecidos.

Em outras palavras, inovação é consequência de uma política permanente de produção de conhecimento.

O papel estratégico das universidades públicas

No Brasil, aproximadamente 90% da produção científica está concentrada nas universidades públicas e institutos de pesquisa.

São essas instituições que formam mestres, doutores, especialistas e pesquisadores responsáveis pelo avanço científico nacional.

Quando seus investimentos são reduzidos, o impacto vai muito além da academia.

Compromete-se a capacidade de gerar novos medicamentos, tecnologias industriais, soluções ambientais, avanços agrícolas, inovação digital e políticas públicas baseadas em evidências.

Fortalecer as universidades públicas significa fortalecer toda a capacidade científica do país.

O desafio brasileiro

O Brasil ocupa posição de destaque na produção científica internacional em diversas áreas do conhecimento.

Contudo, ainda enfrenta dificuldades para transformar esse conhecimento em inovação econômica na mesma proporção.

Isso não significa que produzimos ciência em excesso.

Significa que ainda precisamos fortalecer os mecanismos de transferência tecnológica, estimular ambientes de inovação, ampliar a interação entre universidades e empresas e criar políticas públicas capazes de converter descobertas científicas em desenvolvimento econômico e social.

Não se trata de substituir pesquisa básica por pesquisa aplicada.

As duas são complementares.

Sem pesquisa básica, não existe pesquisa aplicada consistente.

Sem pesquisa aplicada, o conhecimento demora mais para chegar à sociedade.

Ciência como política de Estado

A experiência internacional demonstra que países que alcançaram liderança tecnológica adotaram políticas de Estado — e não apenas políticas de governo — para ciência, tecnologia e inovação.

Projetos científicos exigem continuidade, estabilidade institucional e planejamento de longo prazo. Descobertas relevantes dificilmente respeitam calendários eleitorais ou ciclos orçamentários anuais.

Por isso, o financiamento da ciência deve ser tratado como investimento estratégico para a soberania nacional, da mesma forma que infraestrutura, defesa, energia e educação.

A posição do IVEPESP

O IVEPESP defende que ciência, educação e inovação constituem um único sistema integrado de desenvolvimento.

Investir em pesquisa básica não significa escolher entre ciência e crescimento econômico.

Significa criar as condições para que o crescimento econômico aconteça de forma sustentável, baseada no conhecimento e na capacidade nacional de inovar.

A verdadeira riqueza das nações no século XXI não será determinada apenas pela disponibilidade de recursos naturais, mas pela capacidade de produzir conhecimento, formar pessoas altamente qualificadas e transformar ciência em soluções para a sociedade.

Mais do que importar tecnologia, o Brasil precisa ampliar sua capacidade de produzi-la.

Mais do que consumir conhecimento, precisa tornar-se protagonista de sua geração.

Esse é o caminho para fortalecer nossa soberania científica, tecnológica e econômica.

Uma agenda nacional para a pesquisa básica

O IVEPESP propõe que o Brasil avance na construção de uma agenda permanente para ciência, tecnologia e inovação, baseada em cinco prioridades estratégicas:

1. Estabilidade do financiamento científico
Estabelecer mecanismos permanentes de financiamento, protegidos das oscilações econômicas e das mudanças de governo, assegurando previsibilidade para pesquisadores e instituições.

2. Fortalecimento das universidades públicas e institutos de pesquisa
Modernizar laboratórios, ampliar a infraestrutura científica e valorizar pesquisadores, reconhecendo essas instituições como patrimônio estratégico para o desenvolvimento nacional.

3. Integração entre universidades, empresas e governo
Estimular ambientes colaborativos de inovação, parques tecnológicos, centros de pesquisa cooperativa e políticas de transferência de tecnologia que acelerem a transformação do conhecimento em benefícios econômicos e sociais.

4. Formação de recursos humanos altamente qualificados
Investir desde a educação básica até a pós-graduação, fortalecendo o ensino de Ciências, Matemática, Engenharia e Tecnologia, além da formação contínua de pesquisadores e professores.

5. Ciência como política de Estado
Construir uma estratégia nacional de longo prazo para ciência, tecnologia e inovação, com metas, indicadores e governança permanentes, garantindo continuidade às ações independentemente das mudanças de governo.

Conclusão

A história demonstra que nenhum país alcançou desenvolvimento sustentável abrindo mão da ciência.

Da descoberta da estrutura do DNA às vacinas de RNA mensageiro, da internet à inteligência artificial, os maiores avanços da humanidade nasceram de pesquisas que, em seu início, pareciam distantes de qualquer aplicação prática.

O Brasil possui talento, instituições consolidadas e capacidade científica reconhecida internacionalmente. O desafio agora é transformar esse potencial em uma política nacional consistente, capaz de produzir conhecimento, gerar inovação, fortalecer a competitividade da economia e melhorar a qualidade de vida da população.

Investir em pesquisa básica não é um luxo reservado aos países desenvolvidos.

É exatamente o investimento contínuo em ciência que permite às nações tornarem-se desenvolvidas.

O conhecimento continua sendo a principal matéria-prima da inovação, da prosperidade e da soberania nacional.


Prof. Dr. Helio Dias
Presidente do Instituto para a Valorização da Educação e da Pesquisa no Estado de São Paulo (IVEPESP)