O recente editorial da revista Nature, intitulado “Scientists in the future will not read articles like this” (“Os cientistas do futuro não lerão artigos como este”), traz uma reflexão profunda sobre as transformações na forma como a sociedade produz, distribui e consome conhecimento científico.
A mensagem central é clara: produzir ciência de qualidade continua sendo essencial, mas comunicar essa ciência de forma eficaz tornou-se igualmente indispensável.
Segundo o editorial, as novas gerações obtêm cada vez mais informações por meio de plataformas digitais como YouTube, Instagram e TikTok, em detrimento dos veículos tradicionais de comunicação e dos formatos acadêmicos convencionais. Criadores individuais de conteúdo passaram a disputar — e frequentemente superar — instituições tradicionais na capacidade de influenciar a opinião pública.
Esse cenário cria oportunidades, mas também riscos. A mesma velocidade que amplia o alcance da informação favorece a disseminação de desinformação, especialmente em temas como saúde, mudanças climáticas, vacinas e educação.
Para instituições comprometidas com a ciência baseada em evidências, como o IVEPESP, essa transformação representa um chamado à ação.
Diariamente, o IVEPESP busca traduzir temas complexos de educação, ciência, tecnologia e inovação para uma linguagem acessível, mantendo o compromisso com o rigor acadêmico e a qualidade da informação. Nossas notas técnicas, artigos, seminários, vídeos e debates públicos procuram justamente ocupar esse espaço digital de forma responsável e qualificada.
A experiência recente demonstra que há demanda crescente por conteúdos confiáveis que dialoguem com a sociedade. A ciência não pode permanecer restrita aos periódicos especializados; ela precisa alcançar escolas, gestores públicos, empresas, estudantes e cidadãos.
O caso brasileiro merece atenção especial. Embora o país tenha construído um sistema de pós-graduação e pesquisa reconhecido internacionalmente, os mecanismos de avaliação acadêmica e de fomento ainda são fortemente orientados para a publicação de artigos científicos e indicadores bibliométricos. Atividades de cultura, extensão universitária e divulgação científica — fundamentais para aproximar universidade e sociedade — frequentemente recebem menor reconhecimento institucional e financiamento limitado.
Essa assimetria cria incentivos que nem sempre favorecem a disseminação do conhecimento para além dos muros acadêmicos. Em um cenário marcado pela rápida circulação de informações e pela crescente influência das redes sociais, torna-se necessário valorizar, reconhecer e apoiar institucionalmente iniciativas de comunicação científica, extensão universitária e cultura, tanto pelas universidades quanto pelas agências de fomento.
A produção de conhecimento e sua comunicação à sociedade não devem ser vistas como atividades concorrentes, mas como dimensões complementares da missão universitária. Fortalecer a extensão e a divulgação científica é fortalecer a própria democracia e ampliar o impacto social dos investimentos públicos em ciência e educação.
Isso não significa substituir o artigo científico tradicional. Pelo contrário: o artigo acadêmico continua sendo a base da validação do conhecimento. O desafio contemporâneo consiste em complementar esse modelo com novas formas de comunicação — vídeos curtos, infográficos, podcasts, redes sociais e recursos baseados em inteligência artificial — capazes de ampliar o impacto social da pesquisa.
No campo da educação, esse desafio é ainda mais relevante. Em um ambiente saturado por informações e algoritmos, formar cidadãos capazes de interpretar evidências e distinguir fatos de opiniões tornou-se parte essencial da missão educacional.
O editorial da Nature traz, portanto, uma importante lição para universidades, agências de fomento e instituições científicas brasileiras: produzir conhecimento é fundamental, mas garantir sua circulação qualificada junto à sociedade é igualmente estratégico.
O Brasil precisa não apenas de mais ciência, mas também de melhor comunicação científica.
Nesse contexto, iniciativas de divulgação qualificada, como as desenvolvidas pelo IVEPESP, contribuem para fortalecer a cultura científica, ampliar o debate público baseado em evidências e aproximar a produção acadêmica das necessidades reais da sociedade.
A ciência do século XXI será cada vez mais aberta, digital e interativa. Cabe às instituições comprometidas com o conhecimento ocupar esses espaços com responsabilidade, credibilidade e compromisso com o interesse público.
O editorial da Nature lança um alerta global que encontra especial ressonância no Brasil. Se desejamos uma sociedade mais informada, inovadora e baseada em evidências, será necessário reequilibrar nossos sistemas de avaliação acadêmica, valorizando não apenas a excelência na produção científica, mas também a capacidade de comunicar conhecimento, promover cultura científica e estabelecer pontes permanentes entre universidade e sociedade.
Em um país marcado por profundas desigualdades educacionais e científicas, aproximar ciência e sociedade não é apenas uma estratégia de comunicação: é uma política pública essencial para o desenvolvimento nacional.
Prof. Dr. Helio Dias
Presidente do IVEPESP
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