O IVEPESP manifesta sua preocupação diante do crescente processo de erosão institucional observado no Brasil e em diversas democracias contemporâneas. O debate recentemente apresentado por Luiz Antonio Tozi em seu artigo “Não há vida fora das instituições” recoloca no centro da reflexão nacional uma questão essencial: sociedades complexas somente conseguem prosperar quando suas instituições possuem legitimidade, previsibilidade, estabilidade e capacidade de mediação.
Instituições não são apenas estruturas burocráticas. Elas representam a materialização histórica de pactos civilizatórios construídos ao longo de décadas — e, muitas vezes, séculos. São as universidades, os institutos de pesquisa, os tribunais, os parlamentos, as agências reguladoras, os órgãos de controle, as escolas, os hospitais, os sistemas científicos e tecnológicos que permitem que uma sociedade funcione para além das vontades individuais ou conjunturais.
A história internacional demonstra que países que alcançaram elevados níveis de desenvolvimento econômico, científico e social não o fizeram pela força de lideranças individuais isoladas, mas pela construção de instituições sólidas, previsíveis e resilientes. Alemanha, Japão, Coreia do Sul, Finlândia e Singapura são exemplos de nações que combinaram estabilidade institucional, planejamento de longo prazo, educação de qualidade e forte coordenação entre Estado, universidades e setor produtivo.
O Brasil, ao contrário, frequentemente convive com ciclos de descontinuidade, personalismo, polarização extrema e fragilização institucional. Em muitos momentos, instituições passam a ser tratadas como obstáculos políticos circunstanciais, quando na realidade são justamente elas que protegem a sociedade contra arbitrariedades, improvisações e rupturas.
No campo da educação, ciência e tecnologia, essa questão torna-se ainda mais crítica. Universidades, agências de fomento, institutos de pesquisa e órgãos de avaliação não podem ser permanentemente submetidos a ciclos de instabilidade política ou orçamentária. Ciência exige continuidade. Formação de recursos humanos exige décadas. Construção institucional exige confiança pública acumulada.
O IVEPESP entende que a atual transformação tecnológica acelerada — especialmente provocada pela Inteligência Artificial — aumenta ainda mais a necessidade de instituições fortes. Em um cenário de mudanças rápidas, desinformação em larga escala e profunda reorganização econômica global, sociedades frágeis institucionalmente tendem a ampliar desigualdades, perder competitividade e comprometer sua soberania científica e tecnológica.
O desafio contemporâneo não é substituir instituições por soluções improvisadas, mas modernizá-las. Isso implica:
- ampliar transparência e accountability;
- utilizar Inteligência Artificial e Ciência de Dados para melhorar gestão pública e avaliação;
- reduzir burocracias disfuncionais;
- fortalecer mecanismos técnicos de decisão;
- garantir estabilidade regulatória;
- preservar autonomia universitária associada à responsabilidade institucional;
- criar políticas públicas de Estado e não apenas de governo.
O IVEPESP defende que o fortalecimento institucional brasileiro deve envolver:
- Planejamento nacional de longo prazo para educação, ciência, tecnologia e inovação;
- Estabilidade orçamentária mínima para universidades e agências de fomento;
- Modernização dos processos regulatórios e avaliativos;
- Uso intensivo de dados e inteligência analítica na formulação de políticas públicas;
- Fortalecimento das instituições intermediárias da sociedade civil;
- Valorização da competência técnica e da gestão baseada em evidências;
- Proteção das instituições contra ciclos de radicalização política e assembleísmo permanente.
Sem instituições sólidas, não há previsibilidade econômica.
Sem instituições sólidas, não há democracia madura.
Sem instituições sólidas, não há ciência forte.
Sem instituições sólidas, não há desenvolvimento sustentável.
O Brasil precisa urgentemente recuperar a capacidade de construir consensos mínimos em torno de suas instituições fundamentais. Nenhuma sociedade consegue prosperar de forma duradoura baseada apenas em lideranças individuais, narrativas emocionais ou disputas conjunturais.
Não há vida civilizada fora das instituições.
Prof. Dr. Helio Dias
Presidente do IVEPESP
IVEPESP
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Baseado no artigo de Luiz Antonio Tozi: “Não há vida fora das instituições”.