O Instituto para Valorização da Educação e da Pesquisa no Estado de São Paulo vem a público destacar uma questão recorrente e estrutural no Brasil: a transição de profissionais altamente qualificados em áreas técnicas — como Física, Medicina, Engenharia, Economia, entre outras — para funções de gestão, sem a devida preparação formativa para tal mudança de paradigma.
Reflexões frequentemente associadas à engenharia, como a ideia de que “eu era melhor quando estava na obra”, encontram paralelo direto em diversas áreas do conhecimento. O físico no laboratório, o médico na prática clínica, o economista na análise de dados ou políticas públicas — todos são intensamente treinados para resolver problemas complexos dentro de seus domínios técnicos.
Entretanto, ao longo da carreira, especialmente no ambiente universitário e em instituições públicas e privadas, esses profissionais passam a ocupar posições de liderança: chefias de departamento, diretorias de unidades, pró-reitorias e, em muitos casos, a própria reitoria.
Nesse momento, ocorre uma ruptura silenciosa e profunda.
A lógica de atuação muda radicalmente. A entrega deixa de ser individual e passa a ser coletiva. O foco desloca-se da execução para a coordenação, da resposta para a formulação de perguntas, da técnica para a articulação institucional. Surge, então, uma sensação recorrente de perda de produtividade, acompanhada de frustração e, muitas vezes, de um sentimento de inadequação.
Trata-se, em essência, de um vazio formativo estrutural e sistêmico.
Os currículos de graduação e pós-graduação — inclusive nas melhores universidades do país — não contemplam, de forma sistemática, o desenvolvimento de competências relacionadas à liderança, gestão de pessoas, governança institucional, comunicação estratégica, negociação, mediação de conflitos e tomada de decisão em ambientes complexos.
Essa lacuna torna-se ainda mais crítica no ambiente universitário, onde cargos como chefes de departamento, diretores, pró-reitores e reitores exigem não apenas excelência acadêmica, mas também alta capacidade de gestão, visão estratégica, articulação política e responsabilidade sobre recursos humanos, financeiros e institucionais de grande escala.
As consequências são relevantes:
- Baixa eficiência na transição para cargos de liderança, com impacto direto na performance institucional;
- Desalinhamento entre excelência técnica e capacidade de gestão, gerando decisões subótimas;
- Sobrecarga e desgaste dos gestores, muitas vezes sem suporte adequado;
- Dificuldades na condução de equipes multidisciplinares e projetos complexos;
- Riscos institucionais, especialmente em organizações intensivas em conhecimento.
Há ainda um aspecto pouco discutido, mas central: o “luto da identidade técnica”. O profissional que construiu sua trajetória sendo reconhecido por sua excelência individual passa a ser avaliado por sua capacidade de fazer os outros performarem. Essa mudança exige não apenas novas competências, mas também um processo de adaptação psicológica e profissional que raramente é apoiado pelas instituições.
O IVEPESP entende que essa transição não pode continuar sendo tratada como um processo informal, intuitivo ou baseado apenas na experiência acumulada.
Diante desse cenário, propõe:
- Incorporação de formação em liderança e gestão nos cursos de graduação e pós-graduação em áreas técnicas e profissionais;
- Programas estruturados de capacitação para gestores acadêmicos e institucionais, especialmente para aqueles que assumem funções de chefia, direção e reitoria;
- Criação de trilhas de desenvolvimento em gestão científica, universitária e pública, com base em evidências e boas práticas internacionais;
- Valorização institucional da liderança, com critérios claros de seleção, avaliação e suporte contínuo;
- Integração interdisciplinar com áreas como administração, políticas públicas, psicologia organizacional e ciência de dados aplicada à gestão.
No contexto atual — em que universidades, hospitais, centros de pesquisa e instituições econômicas enfrentam desafios crescentes — o Brasil não pode prescindir de lideranças preparadas para atuar em ambientes complexos e de alta responsabilidade.
Formar bons especialistas é essencial.
Formar especialistas capazes de liderar é decisivo.
Ignorar essa transição é comprometer não apenas trajetórias individuais, mas a governança e o futuro das instituições brasileiras.
Prof. Dr. Helio Dias
Presidente do IVEPESP
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