O Instituto para Valorização da Educação e da Pesquisa no Estado de São Paulo (IVEPESP) vem a público destacar e analisar os principais achados do relatório “AI in Higher Education: Widespread Use, Unclear Rules” (Lumina Foundation & Gallup, 2026), que traz evidências robustas sobre a rápida incorporação da inteligência artificial no ensino superior — e, sobretudo, sobre o descompasso institucional diante desse fenômeno.
1. A IA já é realidade — não uma tendência futura
Os dados são inequívocos:
- 57% dos estudantes universitários utilizam IA semanalmente ou diariamente
- Cerca de 1 em cada 5 estudantes já utiliza IA diariamente
- Apenas 13% afirmam nunca utilizar essas ferramentas
A inteligência artificial deixou de ser um recurso complementar e passou a ser parte estrutural do processo de aprendizagem.
2. Nota metodológica e atualização tecnológica
É fundamental destacar que os dados apresentados no relatório referem-se a outubro de 2025.
Desde então, observa-se uma evolução praticamente diária das tecnologias de inteligência artificial, com avanços significativos em:
- modelos generativos multimodais
- integração com ferramentas profissionais
- personalização de aprendizado
- capacidade de raciocínio e apoio cognitivo
Dessa forma, é altamente provável que os níveis de adoção, impacto e dependência da IA no ensino superior, já em 2026, sejam substancialmente superiores aos capturados pelo estudo.
O relatório deve, portanto, ser interpretado como um piso (baseline) da transformação em curso.
3. O paradoxo institucional: uso massivo versus ausência de diretrizes
Apesar da ampla adoção:
- 53% dos estudantes afirmam que suas instituições desencorajam ou proíbem o uso de IA
- Mais da metade relata ausência de orientações claras sobre como utilizar IA
Ou seja:
a tecnologia avança rapidamente, enquanto as instituições permanecem sem diretrizes estruturadas e baseadas em evidências.
4. A IA como ferramenta cognitiva — mudança de paradigma
Os estudantes utilizam IA majoritariamente para:
- compreender conteúdos complexos
- melhorar desempenho acadêmico
- otimizar tempo
Isso evidencia uma mudança estrutural:
a IA passa a atuar como uma extensão do processo cognitivo humano, e não apenas como ferramenta operacional.
5. Impacto na formação e nas escolhas profissionais
- 16% dos estudantes já mudaram de curso devido à IA
- Até 47% consideraram essa mudança
A IA já influencia diretamente a organização do sistema educacional e o direcionamento de carreiras.
6. Lacuna crítica: formação insuficiente e risco sistêmico
- 29% dos estudantes não recebem formação adequada em IA
Esse dado revela um risco estrutural:
Sem formação adequada, o uso da IA pode:
- comprometer o desenvolvimento do pensamento crítico
- gerar dependência tecnológica acrítica
- ampliar assimetrias educacionais
7. Um ponto crítico para o Brasil: ausência de dados estruturados
Um dos aspectos mais relevantes deste relatório é a existência de dados robustos que orientam políticas públicas e decisões institucionais.
No Brasil, essa realidade ainda é incipiente.
Diante disso, o IVEPESP enfatiza:
É urgente viabilizar, em escala nacional, a coleta e análise sistemática de dados sobre o uso da inteligência artificial nas escolas e no ensino superior brasileiro.
Sem dados estruturados:
- não há diagnóstico confiável
- não há política pública eficaz
- não há regulação inteligente
Propõe-se, portanto:
- criação de um Observatório Nacional de IA na Educação
- integração com bases do MEC, INEP e CAPES
- uso de técnicas de ciência de dados para monitoramento contínuo
8. Diretrizes estratégicas do IVEPESP
1. Regulamentação inteligente (não proibitiva)
Superar abordagens restritivas e adotar modelos orientados ao uso pedagógico.
2. Integração curricular da IA
IA como competência transversal obrigatória em todos os cursos.
3. Formação docente emergencial
Capacitação massiva de professores para uso pedagógico da IA.
4. Novos modelos de avaliação
- foco em interpretação, análise e criatividade
- redução da ênfase em reprodução de conteúdo
5. Introdução estruturada de IA explicável (XAI)
O IVEPESP destaca como prioridade estratégica a incorporação de Explainable Artificial Intelligence (IA explicável) no contexto educacional.
A XAI é essencial para garantir que:
- estudantes compreendam como a IA gera respostas
- decisões automatizadas sejam interpretáveis e auditáveis
- haja desenvolvimento de pensamento crítico sobre sistemas inteligentes
Sem XAI, corre-se o risco de formar usuários de IA — e não profissionais capazes de compreendê-la, avaliá-la e aprimorá-la.
9. Conclusão
O cenário apresentado pelo relatório internacional é claro:
A inteligência artificial já transformou a educação — e essa transformação está acelerando em ritmo superior à capacidade de resposta institucional.
No caso brasileiro, o desafio é ainda maior:
- avançar simultaneamente em adoção, regulação e produção de dados
- garantir formação adequada
- e estruturar políticas públicas baseadas em evidências
Referência
Esta Nota Institucional foi elaborada com base no relatório:
“AI in Higher Education: Widespread Use, Unclear Rules” (Lumina Foundation & Gallup, 2026), com dados coletados em outubro de 2025.
Assinatura institucional
Prof. Dr. Helio Dias
Presidente do IVEPESP
https://ivepesp.org.br/membro/helio-dias/
[email protected]
Hélio Henrique Villela Dias
Engenheiro de Computação e Cientista de Dados
Membro do IVEPESP
https://ivepesp.org.br/membro/helio-henrique-villela-dias/


