A auditoria recente do Tribunal de Contas da União (TCU), sob relatoria do Ministro Bruno Dantas, revela um problema estrutural grave no ensino superior federal brasileiro: a queda persistente na ocupação de vagas de graduação, que recuou de níveis próximos a 90% para cerca de 75% a partir de 2020.
Este fenômeno não pode ser interpretado como mera oscilação conjuntural. Trata-se de um sintoma de desalinhamento sistêmico entre a oferta universitária e as demandas da sociedade contemporânea.
📉 Diagnóstico: evidências objetivas de ineficiência
A análise de 69 universidades federais ao longo de uma década (2014–2024) identificou fatores recorrentes:
- Predominância de modelos presenciais rígidos e baixa oferta de EaD;
- Descumprimento da meta do Plano Nacional de Educação (PNE) de oferta noturna;
- Currículos desatualizados e pouco conectados ao mercado de trabalho;
- Ausência de critérios técnicos baseados em dados para abertura ou fechamento de vagas;
- Limitações estruturais do SISU, com baixa transparência e cronograma inadequado;
- Comunicação institucional ineficiente, especialmente junto a jovens de baixa renda.
O resultado é inequívoco:
vagas públicas, financiadas com recursos escassos, permanecem ociosas enquanto o país carece de formação qualificada.
🔗 Governança universitária: o elo crítico ignorado
Paralelamente a este diagnóstico, o Brasil aprovou recentemente uma mudança relevante no processo de escolha de reitores das universidades federais, eliminando o modelo da lista tríplice e determinando a nomeação do candidato mais votado pela comunidade acadêmica.
A medida reforça a autonomia universitária — princípio constitucional legítimo e necessário.
Contudo, a evidência empírica apresentada pelo TCU impõe uma reflexão mais profunda:
A crise atual não é de autonomia — é de gestão.
⚠️ Autonomia sem accountability: o risco sistêmico
A alteração no modelo de escolha de reitores, embora relevante do ponto de vista institucional, não atua diretamente sobre os fatores que explicam a ociosidade de vagas.
Mais do que isso, na ausência de mecanismos robustos de avaliação de desempenho, pode gerar efeitos adversos:
- Eleições baseadas em interesses internos, e não em resultados acadêmicos e sociais;
- Baixo incentivo à eficiência, já que indicadores como ocupação de vagas, evasão e empregabilidade não são centrais no processo eleitoral;
- Reforço de dinâmicas corporativas, com menor pressão por inovação e adaptação.
O risco é claro:
Mais autonomia, sem métricas de desempenho, pode consolidar a ineficiência.
🚨 EXPANSÃO SEM DEMANDA: O PARADOXO QUE AGRAVA A CRISE
Apesar do cenário documentado de vagas ociosas em larga escala, observa-se simultaneamente a criação de novos campi e expansão física da rede federal.
Do ponto de vista técnico, trata-se de uma incoerência grave.
Em qualquer sistema eficiente, a lógica deveria ser inequívoca:
primeiro otimizar a capacidade existente, depois expandir.
No entanto, o que se verifica é o oposto:
- expansão da infraestrutura sem ocupação plena da capacidade atual;
- aumento de custos fixos em um sistema já ineficiente;
- ampliação de vagas em um contexto de baixa demanda efetiva.
Essa dinâmica revela um problema estrutural de governança:
- decisões orientadas por visibilidade política, e não por evidência;
- ausência de planejamento nacional integrado da oferta de ensino superior;
- fragmentação entre expansão institucional e necessidades reais da sociedade.
O resultado é a intensificação de um ciclo perverso:
mais campi → mais custos → mais vagas ociosas → menor eficiência do sistema
Em termos econômicos, isso implica elevação do custo por aluno efetivamente formado e redução do impacto social do investimento público.
🧠 Interpretação estratégica
O Brasil não enfrenta falta de demanda por educação superior.
Enfrenta, sim, um problema de desenho e gestão da oferta.
Expandir sem corrigir as distorções existentes não é política educacional — é perpetuação de ineficiência.
O Brasil não sofre com falta de universidades, mas com excesso de decisões sem base em evidências.
🚀 Propostas estruturantes do IVEPESP
Diante do diagnóstico do TCU e da nova configuração institucional, o IVEPESP propõe:
1. 📊 Accountability obrigatória para a gestão universitária
- Indicadores nacionais mínimos: ocupação de vagas, evasão, empregabilidade;
- Transparência pública periódica;
- Vinculação parcial de financiamento a desempenho.
2. 🧠 Gestão orientada por dados e inteligência artificial
- Planejamento de vagas com base em demanda real;
- Integração de bases MEC/INEP/mercado;
- Sistemas inteligentes de apoio à decisão.
3. 🎓 Reconfiguração do modelo acadêmico
- Expansão qualificada da EaD e modelos híbridos;
- Ampliação de cursos noturnos;
- Currículos dinâmicos e orientados a competências.
4. 🔄 Reforma do SISU
- Transparência de dados históricos;
- Flexibilização de calendário;
- Rodadas adaptativas de alocação.
5. 📣 Estratégia nacional de comunicação
- Uso intensivo de redes digitais;
- Foco em inclusão e acesso;
- Valorização do ensino público.
6. 🏛️ Regra de expansão responsável
- Novos campi condicionados a:
- taxa mínima de ocupação do sistema;
- estudos de demanda comprovados;
- análise de impacto regional;
- viabilidade financeira de longo prazo.
📌 Conclusão
A eliminação da lista tríplice representa uma mudança institucional relevante, mas não enfrenta os problemas estruturais do sistema.
A expansão de novos campi em um cenário de ociosidade reforça um diagnóstico ainda mais preocupante:
o desafio do ensino superior brasileiro não é de acesso, mas de eficiência, relevância e governança.
Sem reformas estruturais, o país continuará ampliando sua capacidade física enquanto reduz sua capacidade real de formar pessoas.
Autonomia universitária é essencial —
mas, sem accountability, torna-se insuficiente.
Prof. Dr. Helio Dias
Presidente do IVEPESP
https://ivepesp.org.br/membro/helio-dias/
✉️ [email protected]