A recente Pesquisa Global de Escassez de Talentos 2026, conduzida pelo ManpowerGroup, revela um dado que deveria acender um alerta estrutural no Brasil: mais de 80% dos empregadores brasileiros relatam dificuldade para encontrar os talentos de que necessitam .

Trata-se de um dos níveis mais elevados do mundo, significativamente acima da média global de 72%. Não estamos diante de uma flutuação conjuntural do mercado de trabalho — estamos diante de um problema sistêmico de formação, alocação e desenvolvimento de capital humano.

O paradoxo brasileiro: desemprego coexistindo com escassez de talentos

O dado mais relevante não é apenas a escassez em si, mas o paradoxo que ele revela:
o Brasil convive simultaneamente com desemprego e falta de profissionais qualificados.

Esse fenômeno evidencia um descompasso estrutural entre:

  • o sistema educacional (especialmente a educação básica e a formação técnica),
  • as demandas do mercado de trabalho,
  • e a ausência de coordenação efetiva entre políticas públicas.

A pesquisa mostra que as maiores dificuldades estão justamente nas áreas mais estratégicas para o desenvolvimento do país:

  • tecnologia da informação e dados,
  • letramento em inteligência artificial,
  • engenharia,
  • marketing e vendas,
  • além de competências digitais básicas .

Ao mesmo tempo, as habilidades comportamentais mais demandadas — pensamento crítico, adaptabilidade, comunicação e trabalho em equipe — são exatamente aquelas que o sistema educacional brasileiro historicamente não prioriza de forma consistente.

A falha estrutural: educação dissociada da realidade produtiva

O Brasil investe cerca de 6% do PIB em educação, mas os resultados permanecem aquém do necessário. A escassez de talentos evidenciada no relatório reforça uma tese central defendida pelo IVEPESP:

O problema da educação brasileira não é apenas de volume de investimento, mas de eficiência, direcionamento e integração sistêmica.

A formação de profissionais no país segue marcada por:

  • currículos desatualizados e pouco conectados à economia real;
  • baixa ênfase em competências técnicas e digitais;
  • fragilidade na formação inicial de professores;
  • ausência de avaliação consistente baseada em resultados;
  • e, sobretudo, falta de articulação entre educação, desenvolvimento econômico e políticas sociais.

Como já destacado em contribuições recentes ao debate público, a qualidade da educação não depende apenas da escola, mas também de fatores externos — como ambiente familiar, segurança, saúde e contexto socioeconômico — que, no Brasil, são tratados de forma fragmentada entre diferentes áreas do governo.

Essa fragmentação resulta em políticas públicas desconectadas, com baixo impacto sistêmico.

Um sinal preocupante: o mercado está “corrigindo” o que o Estado não entrega

A pesquisa mostra que, diante da escassez, as empresas estão reagindo com estratégias próprias:

  • requalificação (upskilling e reskilling) de funcionários,
  • flexibilização do trabalho,
  • busca por novos perfis e redução de exigências formais,
  • uso de automação e inteligência artificial .

Ou seja, o setor produtivo está assumindo, na prática, funções que deveriam ser estruturadas pelo sistema educacional.

Esse movimento, embora necessário, traz riscos:

  • aumento da desigualdade de acesso à qualificação,
  • precarização de critérios de formação,
  • e perda de competitividade nacional no longo prazo.

Escassez de talentos e produtividade: o elo negligenciado

A escassez de talentos não é apenas um problema de mercado de trabalho — é um dos principais fatores que explicam a baixa produtividade da economia brasileira.

Sem capital humano qualificado:

  • a adoção de tecnologias é limitada;
  • a inovação é reduzida;
  • e a capacidade de crescimento sustentável do país fica comprometida.

Isso ajuda a explicar por que o Brasil permanece distante dos padrões de produtividade observados em países da OCDE, apesar de seu tamanho econômico.

Diretrizes para uma agenda estrutural

Diante desse cenário, o IVEPESP defende a necessidade de uma agenda integrada e baseada em evidências, com foco em resultados concretos:

1. Integração entre educação, economia e políticas sociais

Superar o modelo setorial fragmentado, promovendo articulação entre:

  • educação,
  • assistência social,
  • saúde,
  • e desenvolvimento econômico.

2. Reformulação da formação inicial de professores

Alinhar as licenciaturas às competências do século XXI, com foco em:

  • pensamento crítico,
  • tecnologia e IA,
  • metodologias ativas e aprendizagem baseada em problemas.

3. Expansão estratégica da educação técnica e profissional

Inspirada em modelos de sucesso como ETECs e sistemas internacionais, com foco em:

  • empregabilidade,
  • produtividade,
  • e inovação.

4. Inserção estruturada da Inteligência Artificial na educação

Não apenas como ferramenta, mas como competência fundamental:

  • letramento em IA,
  • uso responsável,
  • e aplicação prática em diferentes áreas.

5. Avaliação contínua baseada em dados

Implementar sistemas de monitoramento com uso de ciência de dados e IA, permitindo:

  • identificar lacunas de formação,
  • ajustar políticas em tempo real,
  • e orientar investimentos com maior eficiência.

6. Aproximação efetiva entre universidades e setor produtivo

Fortalecer mecanismos de cooperação, incluindo:

  • projetos aplicados,
  • uso de incentivos como a Lei do Bem,
  • e integração com demandas reais da economia.

Conclusão

A escassez de talentos no Brasil não é um problema isolado — é o reflexo direto de décadas de desalinhamento entre educação, políticas públicas e desenvolvimento econômico.

Ignorar esse diagnóstico significa perpetuar:

  • baixa produtividade,
  • desigualdade de oportunidades,
  • e perda de competitividade global.

Por outro lado, enfrentar essa agenda com seriedade pode representar uma das maiores oportunidades estratégicas do país.

O Brasil não carece de potencial humano. Carece de um sistema capaz de desenvolvê-lo, direcioná-lo e aproveitá-lo de forma eficiente.


Prof. Dr. Helio Dias
Presidente do IVEPESP
https://ivepesp.org.br/membro/helio-dias/
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